SÃO PAULO, DE CORPO E ALMA



O meu ar não me preenche. Meus pulmões carecem de oxigênio limpo, puro. A fumaça me deixa tonto, não sei mais respirar. Há quem diga que o Tempo é relativo, o meu tem pressa. Sinto que o tiquetaquear do relógio não compreende horas, minutos e segundos. Que dirá dias, meses e anos. O Tempo é uma entidade, que rezo, por mim e pelos meus, para que não se esvaia. Já não durmo mais.

Quando amanhece, consigo ouvir o cantarolar do rádio martelar na minha cabeça “Vam bora! Vam bora! Tá na hora, vambora vam bora!”. Na hora de quê, mesmo? Preciso de mais. Mais sono. Mais tempo. Mais vida.

Olho para dentro de mim e vejo tudo cinza. Concreto. Procuro uma flor em meio ao asfalto. Será que há esperança? Meus sentimentos tomam forma em um emaranhado que beira a barbárie, sem nexo algum, quase selvagem.

Sinto falta de um amor latente. Não preciso nem dizer, não me sobra tempo pra isso. Mesmo se sobrasse, retomo meu pensamento, é tudo tão frio, tão gélido. Concreto. Não existe amor dentro de mim. Talvez essa fosse a selva no concreto que eu precisava. A flor no asfalto se tornaria uma mata nas paredes das empreitadas. Um tanto irônico, o ar aqui não permite a vida. Enfim, “Não existe amor em SP”.

Olho para cima em busca de ajuda sagrada. Canso-me da dualidade. É tudo tão vívido, fugaz, divino, e ao mesmo tempo não há vida alguma. O “Auto da Barca do Inferno” habita em mim. O diabo me persegue: a insônia, a fome, a miséria. Mas sei que, na barca ao lado, Deus está gritando: dinheiro, fartura e, principalmente, Tempo. Se Tempo é dinheiro, compreendo o que acontece. Faltam-me horas, já não sei mais o que são sonhos. Creio que dinheiro não vai comprar meu ar.

É chover no molhado dizer que meu coração sem ritmo bate em tempo diferente? Bom, se for, preciso dizer que me conhecem pela redundância. Chegam a dizer que não falo, faço garoa. De qualquer forma, me falta batida. Às vezes me sobra. Por medo, por ânsia, por cansaço…

A batida do coração acompanha o ritmo do corpo. A agitação não cabe em mim. A cidade nunca dorme, nunca mais me apaguei. Um tal de corre-corre que não tem mais fim. Não há tempo de amar, respirar ou rezar. É uma eterna construção, sem presa ou predador, apenas engenheiro e construtor. A marginal me dá dor de cabeça. Vou na contra. Já me cansei do tráfego.



Revisão: Guilherme Caruso e Gustavo Vandresen