SANTO PREPÚCIO

No Espaço Aberto de hoje, a Gazeta Vargas traz um texto que, através da apresentação de uma situação constrangedora vivida por um trabalhador do Piauí, descortina os frutos revoltantes de um país com realidades socioeconômicas vergonhosamente díspares.

Quarentena, dia 21. A 1500 km de São Paulo, no fim de um dia massivo que somou prova, tolerância familiar, testes de inteligência emocional, tentativa de assassinato fraterno e infinitas horas na frente dessa tela que desejo explodir, me torno a cumprir a herética rotina dos que reclamam ortodoxamente de todos os dias das semanas, mesmo nas santas. Liguei para uma boa amiga que, como eu, é muito religiosa no que tange às más manias.


Ela estava ainda mais distante – coisa de 2300 km de Pinheiros, onde ela passa os dias estudando medicina – sentada na varanda da fazenda com o pai, no meio do nada do Piauí, vivendo a vida bucólica, própria dos idosos cansados da semi-vida de São Paulo. “Iniciando os trabalhos”, o pai havia mandado descer seu avião com 40 caixas de cerveja para celebrar a Páscoa (se ainda fossem 40 garrafas de vinho...) – ele, também muito religioso com a heresia. Estava eu iniciando meus lamentos quando ela bateu o telefone na minha cara e disse que me ligava depois.


Eu e o pai dela usamos de maneira inamovível uma corrente muito cristã. Pessoalmente, mantenho a ideia quase tola de que alguém está ao meu lado e de que a santa do pingente é para mim o que os cabelos eram para Sansão. Não descarto a ideia de que seja um efeito colateral da análise de uma vez na semana: se fossem duas, quem sabe eu fosse mais racional. Ele usa pelo hábito próprio dos homens daqui.


Jantei reclamando da comida fria típica do delivery atrasado de quarentena. Que raio de quarta-feira santa. Se tão santa, por que tão infernal? Estariam todos os santos responsáveis pela diversão nos feriados religiosos ocupados com o coronavírus? Absurdo! Deus que fizesse uma escala de trabalho mais organizada. Que eu vou ligar ao Procon galáctico e reportar tamanho despreparo. Deus certamente não fez a EAESP.


Recebi a mensagem da amiga, que competiu com o atraso do delivery. Eu que sou falante e beiro a verborragia quando essas quartas-feiras-não-santas me tiram do sério, fiquei sem discursinhos diante daquela mensagem. E vocês não imaginam como tirar-me a voz é difícil.


Minha amiga estava não só com o pai, mas com outros 200 funcionários numa fazenda a 4 horas de carro de qualquer notícia de cidade. Corona lá nem em rótulo de cerveja. O pai dela é um homem que me encanta pelo zelo com essas pessoas. Imaginem que ele passou o Natal com eles lá na fazenda, servindo a todos e agradecendo os seus serviços pelo ano. Não sou de romantizar as relações de trabalho – com aquele colonialismo que cria patrões sacrossantos e um dever de lealdade biruta dos empregados para com estes – mas cuido de guardar aquilo que me admira.


No meio desses funcionários estava o tema da mensagem que me levou ao repentino silêncio, a causa do meu assombro. Redijo para vocês entenderem a matéria da causa: “Rafa, veio um senhor, um peão aqui. Pediu ajuda pro meu pai porque tinha inflamado a fimose. Deve ter mais de 50 anos e não sabia o que tinha. Tentou cortar com a faca. Minha aula hoje foi disso, a falta de informação, de cultura mesmo, de algum ensino, de como isso é vital. Tô muito triste, já chorei. Pensa no constrangimento dele, chegar com uma dor dessas, literalmente de joelhos, pedindo ajuda. Ele estava quase gritando, Rafa. Pediu desculpas pela hora chorando pro meu pai.”


Não posso imaginar a dor dele. Não mesmo. Primeiro porque, por Deus, pela minha corrente ou pela medicina preventiva, meu corpo nunca gritara por tamanho socorro, nunca chorou sozinho de dor e de joelhos. Segundo porque não posso, nem com todo meu esforço imaginativo, fantasiar uma situação que poderia unir de maneira tão desesperadora, tão perversa, tão sem misericórdia constrangimento, angústia e pavor de dor.


Onde estavam os santos responsáveis pela diversão no feriado? Deus, nesse seu despreparo, nessa má gestão, deixou com que um homem simples, que trabalha duro pelo leite dos filhos, vivendo no meio de lugar nenhum sob um sol que racha chão, cortasse seu próprio prepúcio, sangrasse à palidez e se contorcesse sozinho, da dor mais genuína.


Minhas carnes nunca foram cortadas senão por um bisturi fininho. Nem a de vocês, e não me venham dizer o contrário. Nem Cristo fora circuncidado de maneira tão penosa como esse sem-nome. Mas, como diria Frank Sinatra na canção dos altos e baixos: That’s Life! Ou como diria um anônimo escritor: that would be anything but life.


Certa vez, uns figurões foram questionados sobre os desejos para seus futuros epitáfios. Um respondeu que a redação seria: “Aqui jaz, completamente contra a vontade, Luis Carlos Miele”; outro, melhor ainda, disse que deveriam tratar de escrever “Aqui jazz Jorginho Guinle”. Como a vida lhes fora generosa. Será que eles não tinham prepúcio? Ou será que as carnes de seus corpos eram mais caras que a carne do corpo do homem de Baixa Grande da Ribeira – Piauí? Afinal de contas, quem liga para Bai-xa Gran-de da Ri-bei-ra? Quanto ao Piauí, nós só gostamos da Revista, aquela do Moreira Salles.


Nossas carnes são mais caras não só porque muitos de nós podem pagar para que alguém se ocupe de consertá-las quando o destino decide nos pregar uma peça – seja numa pandemia ou quando nos mandam para a Terra com mais prepúcio que o normal –

mas porque temos voz e se alguém mexer ou deixar de mexer conosco, gritamos. Aquele homem, cuja minha indelicadeza sequer se atentou em perguntar como lhes chamam, é realmente um sem-nome. Um homem número X, perdido no meio da soja e que nunca fora a Teresina, sabe fazer a soma, mas não sabe o que se passa em Nova Iorque, que o Sanders desistiu da candidatura, nem que outro dia batemos os 120 mil pontos. A bolsa para ele é só um feltro que ensaca o milho. Ele também não brinda o Ano Novo. Ele quase que não existe, não fosse a soja que ele ajuda a cultivar.


O mutilado é aquela coisa sertaneja que Graciliano Ramos descreveu no livro da FUVEST. Não conhece as palavras e não expressa coisa alguma senão o mais rude do instinto da nossa natureza. Ele é o inominável – não aquele de Brasília – porque o destino lhe fez nascer pobre e no meio do nada. A carne dele não vale muito e ele não pode reclamar de nada, afinal de contas, quem mandou nascer com prepúcio? Não está vendo que Deus teve de cortar custos na proteção humana e agora só cuida dos homens de corrente? Valha-me!


Ainda bem que estamos na Semana Santa e sexta vamos agradecer a Deus pelas carnes caras de que somos feitos. Eu vou desatar ovos de chocolate no domingo e o Palácio de Buckingham fará uma salva de 21 tiros para celebrar a Páscoa. Na reza pedirei pela Lombardia que passa por tanta dor, e também saúde e coragem para driblar essas quartas-feiras infernais de prova, cansaço e restaurantes lentos. Pedirei pelos amigos que moram longe, pelo fim de feriados apartados pela quarentena e por santos mais dedicados à diversão nesses feriados. Eu provavelmente não vou lembrar desse coitado mudo que padece, nem do Piauí.


Aos mais sensíveis, torço para que vocês lembrem dele e de outros que se tornaram inomináveis pelo tempo e pelas circunstâncias. Eu e outros hereges semi-imbecis (cegos, não mudos) falaremos apenas do preço do dólar, do camarote na JK e do valor da carne, de angus, obviamente. Ele, coitadinho, segue num hospital brasileiro mesmo, nem israelita, nem sírio. E cada um vive com sua deficiência – na fala, na visão ou nas contas do banco digital. Ao menos o mudo ninguém vai importunar para falar de seu epitáfio.


Foto de capa: @41macacos


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