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SILÊNCIO

É na madrugada que sou contemplada pela massiva presença do silêncio. Te ouço nele. Me sinto em casa. O silêncio que eu ouço é sagrado. Percebo que estava sentindo a sua falta apenas depois de sua volta. Acho que ele me transmite a paz que muitas vezes sinto que falta em mim. Aquele falso sentimento de controle, de que de fato eu sei o que está por vir. É engraçado como nele tudo fica mais aguçado. O silêncio possui um papel essencial em minha vida. A sua simples aparição já determina o meu estado de espírito, o meu próximo passo. Para mim, ele determina se alguém vai ou fica, se outro decide escutar e se a intimidade realmente existe ali.


Amo como o silêncio, na sua simplicidade, confirma a força dos laços que construí durante a vida. Acho engraçado como ele pode ser lido até como uma convenção social, dependendo do espaço em que está. No cinema, acho que tem uma cumplicidade entre cada um que está assistindo o filme, os quais concordam tacitamente em tentar fazer o mínimo de barulho possível. O foco é a tela e, desafiando o nosso narcisismo inerente, nos deslocamos para as tramas que tentam nos transmitir uma mensagem através dos mais variados enredos, por mais dúbios que às vezes estes sejam. 


Hoje, em um mundo onde todo mundo consegue falar com todo mundo, o silêncio pode agir de variadas formas: resistência ou desinteresse. O pior é que não sabemos interpretá-lo. Não sabemos fazê-lo. A escuta e o silêncio são melhores amigos, andam lado a lado. Mesmo assim, nunca ninguém me ensinou a compreendê-lo, pelo menos. Ele é capaz de construir um campo, o qual não sabemos se podemos penetrar ou não. Ele estabelece limites, encaixa-se entre as entrelinhas e permite as conexões mais despretensiosas, mas igualmente deliciosas com as pessoas mais inusitadas. Será que dentro de nós faz mais barulho ou silêncio? Seria o silêncio o sinônimo de paz propriamente dita? 


Eu ainda não tenho respostas para essas perguntas. E, assim, vivo fingindo entender o que alguns silêncios de fato significam. Silêncios são densos, etéreos. Eles tomam forma quando as palavras não têm mais poder, quando a experiência humana transcende a fala e não é mais capaz de traduzir os olhares, ou a potência de um toque. Ouvir o silêncio é de certa maneira improdutivo, mas como é bom abraçar o inútil. Como é gostoso apenas ouvir a respiração da pessoa amada durante a viagem de carro ou ouvir o som do vento deslizando entre as folhas. Confesso que tenho muito interesse em ir a um daqueles retiros espirituais nos quais a proposta é você ficar em silêncio por três, quatro dias. Não sei como eu sairia de lá. Acho que não aguentaria, pois sou muito tagarela. E, já que estou falando de mim, acho interessante dizer como também penso no silêncio como algo angustiante. O silêncio, que nos permite entrar em um casulo, também é massante. O não dito é sempre traduzido em silêncio. Poderia o silêncio ser a linguagem universal? Acho que ele é apenas efetivo quando se tem conexão. Afinal, o silêncio pode também não representar nada. Quando ele está acompanhado de olhares, eu sei que nunca será apenas a falta de conversa. Quando eu domino o seu contexto, permito-o ser o que é. 


Muitos dizem que a intimidade se constrói através do silêncio, da falta de medo de que ele domine o cômodo; as relações. E, pensando bem, eu concordo. Acho que se sentir confortável para estar no mesmo ambiente que outra pessoa, fazendo as suas coisas e ela as dela, ou simplesmente ficar ali existindo, é um dos traços mais marcantes de que ali há confiança. Quando a Lu vem em casa, minha melhor amiga desde os meus 5 anos, na maioria das vezes ficamos fazendo coisas distintas: eu leio e ela fica no celular, ou vice-versa. Ora ela estuda e eu durmo, ora eu ligo para a minha vó e ela termina um trabalho da faculdade. É uma dinâmica bonita, já que fazemos tudo num silêncio quase que ensaiado. Às vezes, o silêncio dispensa explicações e faz com que tudo ocorra como numa espécie de dança suave, tal qual o balançar de um vestido na valsa. Porém já conheci silêncios cortantes também. Dói muito não saber do outro, que se torna novamente um estranho através da adoção do silêncio. Não ter notícias é deixar a sua imaginação tomar conta e é se distanciar ainda mais da pessoa amada, a qual você luta para manter por perto. 


No silêncio eu consigo ouvir o cantar dos pássaros, o sol nascendo. Ouço a caminhonete do meu vizinho saindo da garagem e logo retornando, com o pão quentinho da padaria. Consigo ouvir minha mãe levantar, a minha antiga van escolar passar pela rua, as batidas do meu coração. Acho engraçado como o silêncio pode ser seguido de diversas reações. O silêncio prepara o palco e faz crescer a expectativa, aguçando todos os sentidos. E, dependendo da relação, marca também as despedidas, os acordos de não se falar nunca mais. Silêncios, arautos das histórias que jamais iremos conhecer. 


Autora: Carolina Setten (@carolinasetten)

Revisão: Leonardo M

Imagem: Pinterest

 
 
 

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