SIM, NÓS SOMOS NETAS DAS BRUXAS QUE VOCÊS NÃO CONSEGUIRAM QUEIMAR

“Ser mulher é estar pronta para a guerra sabendo que todas as probabilidades estão contra você - e nunca desistir apesar disso”. É com esta poderosa frase e através de uma homenagem a todas as mulheres que morreram como bruxas, que nossa ex-redatora Isabella Grimaldi deixou marcado seu registro neste Dia Internacional das Mulheres

Tem medo de andar sozinhx na rua? medo de entrar no metrô? medo de usar uma roupa mais curta? medo de andar de uber? medo de sofrer violência doméstica? sente um medo constante de sofrer violência sexual? medo de ter um salário inferior?


Se você, leitor, respondeu “sim” a todas as perguntas acima, consigo afirmar que você é uma mulher. Ser mulher nunca foi fácil (e temo em dizer que nunca será). Tem um pequeno poema que retrata, com perfeição, o que é ser uma mulher:


ser uma

mulher

é estar

pronta para a guerra

s a b e n d o

que todas as probabilidades

estão

contra você.

& nunca desistir apesar disso.


Historicamente, as mulheres são perseguidas e são alvo de toda marginalização e inferiorização já existente. Na Idade Média, uma lei canônica da Igreja afirmou ser heresia acreditar em bruxas e feitiçaria. O Decretum Burchardi, de Burchardus Wormaciensis (950–1025), escreveu contra a crença em poções mágicas, alegando a falsidade de superstições como essa. Coincidentemente, apenas mulheres eram caracterizadas com o termo pejorativo, na época, “bruxa”. A histeria foi sendo contida à medida que mais mulheres eram assassinadas pelo fenômeno conhecido por “caça às bruxas”. Os caçadores de bruxas eram nada mais nada menos que os estados protestantes, que não suportavam qualquer indício de diversidade religiosa. Estima-se que o número de mulheres executadas equivale ao número de judeus assassinados na Alemanha nazista. Sim, evidente que o principal motivo dos homicídios era eliminar qualquer ameaça ao poder imensurável da Igreja Católica. Mas, por trás disso, a sociedade já deixava claro os indícios do pensamento machista, uma vez que o alvo era sempre a mulher. Assim, elas já eram vistas com um olhar preconceituoso e até de medo. A Igreja tinha medo das mulheres, porque elas desafiavam sua hegemonia.


E até hoje fazemos isso. Os movimentos feministas ganham cada vez mais espaço (e urgência) em todos os países. E não só atualmente. Em 1973, na Revolução Iraniana, as mulheres saíram nas ruas para protestar contra o governo autoritário que as obrigava a usar o véu em lugares públicos, sob a afirmação que mulheres com pele à mostra seriam uma distração aos homens. Aqui, só um dos milhares de exemplos que temos da objetificação do corpo da mulher. E da censura feitas às mulheres por conta de uma cultura enraizada na mente dos homens.


No Brasil, o cenário sempre foi alarmante. Até 1932, a gente não podia votar. Ou seja, até a metade do século passado, a nossa opinião era completamente irrelevante para a tomada de decisōes políticas. Mesmo depois desse marco na história feminista, a sociedade toda achava que lugar de mulher não era votando e trabalhando para construir ideias e uma vida independentes, mas na cozinha. “Lugar de mulher é na cozinha”. Acho que essa é uma das frases que nós, mulheres, sentimos mais repugnância ao ouvir. Ninguém pode determinar onde a mulher fica, o que ela faz, a função dela. Lugar de mulher é onde ela quiser.


Aqui, reina a famigerada cultura do estupro. Segundo dados da Folha de São Paulo, em 2018, foram contabilizados mais de 66 mil casos de estupro, o que equivale a 180 estupros por dia. 180 mulheres sendo violentadas todos os dias. Todos os dias, 180 mulheres perdem suas vozes e são tratadas como escravas dos desejos dos homens, que não conseguem conviver em sociedade sem controlar suas vontades sexuais. E ainda por cima, a gente tem que ouvir que nós somos culpadas. Porque usamos roupas muito curtas, ou porque estávamos muito bêbadas e estávamos “pedindo”. É desesperador viver em uma sociedade dessas. Em um país desses. 54% dessas 66 mil mulheres que sofreram a atrocidade de serem atacadas sexualmente tinham menos de 13 anos. Já imaginaram como vai ser a vida de uma menina que, com menos de 13 anos, já passou por um trauma desses? Eu já. Imagino todos os dias e tenho vontade de chorar. Vontade de chorar porque nós temos medo de tudo e de todos. Só porque os homens sempre tiveram permissão social para fazerem o que quiserem, com privilégios e sem punições. Quem é punida é a mulher, que estava de vestido.


A gente é assombrada por um medo que nos parece tão distante, mas está tão perto.


Até quando a gente vai sentir medo? Até quando eu vou desistir de usar uma roupa por causa de homem? Até quando a sociedade vai censurar as mulheres?


Infelizmente, não tem resposta pra isso. Mas, enquanto isso, a gente luta. Porque nós somos as netas das bruxas que vocês não queimaram.

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