SMART CITIES: A MUDANÇA MATERIALIZADA NO ESPAÇO


Desde suas primeiras versões, os centros urbanos apresentam um caráter dinâmico com a capacidade de incorporar as mudanças e processos históricos vividos pela sociedade. Diante disso, não é de hoje que vemos transformações significativas no espaço conforme as sociedades evoluem. Recentemente, o avanço de tecnologias, como a Internet das Coisas, isto é, a interconexão dos elementos do dia-a-dia à internet, somado a um maior número de pessoas vivendo nas cidades, abriu caminho para que o espaço urbano fosse repensado de maneira a se tornar mais eficiente, além de permitir um desenvolvimento econômico e um crescimento mais sustentável.


Muito presentes nas discussões atuais, as chamadas Smart Cities não são um tema recente. Presente no debate desde 1960, o conceito de cidades inteligentes está sustentado em dois principais processos: a crescente urbanização e a revolução digital vivida nos últimos anos, com a presença cada vez mais marcante da tecnologia em todas as atividades cotidianas. Segundo dados da Organização das Nações Unidas, estima-se que até 2050, mais de 70% da população mundial estará vivendo em centros urbanos. Tendo isso em mente, é essencial a criação de um ambiente mais eficiente e que minimize os impactos ambientais e sociais gerados, como poluição, gastos energéticos, além de questões relacionadas à mobilidade urbana e ao acesso à moradia.


Até 2020, muitas pessoas compreendiam o conceito de cidades inteligentes como sinônimo de tecnologia, e muitos dos centros urbanos que eram tidos como inteligentes foram duramente afetados pela crise sanitária. Dessa forma, a complexidade do tema veio à tona com a pandemia do coronavírus, a qual marcou um colapso no conceito compreendido até então. Em alguns países, como é o caso do Brasil, a crise sanitária revelou uma intensificação do conceito de cidades inteligentes ao clamar pela otimização dos serviços e possibilidade de economia nos serviços públicos. A capital paranaense, Curitiba, por exemplo, tornou-se referência no assunto ao inovar o modelo de gestão da cidade em parceria com a esfera privada, como com a empresa iCities. A última desenvolve soluções voltadas ao desenvolvimento urbano, fornecendo iluminação pública inteligente, o que possibilita a redução de custos e garante eficiência energética.


Além de estampar evolução, os grandes centros urbanos também evidenciam em suas ruas as contradições modernas e a necessidade do debate público sobre questões como as desigualdades sociais e de gênero, e a urgência da adoção de estratégias para combater a crise climática. Diante disso, com a criação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável em 2015, o crescimento das Smart Cities passou a ser visto como um caminho para que o objetivo de desenvolvimento sustentável número 11, focado em cidades e comunidades sustentáveis, possa ser atingido. Nos últimos anos, o tema recebeu destaque ainda maior, uma vez que se mostrou uma trajetória possível para atingir a sustentabilidade urbana.


As Smart Cities se configuram como um conceito para além da tecnologia envolvida, evidenciando um caminho possível para enfrentar os desafios urbanos da modernidade. Diante disso, as cidades inteligentes podem ser compreendidas como aquelas que melhoram a qualidade de vida dos indivíduos, além de promover crescimento econômico e minimizar os impactos negativos no meio ambiente. Dentre as aplicações possíveis, destaca-se a redução do tráfego nas cidades, a diminuição da poluição e do consumo de energia e a promoção de políticas públicas mais eficientes e assertivas. Ademais, avanços na universalização de serviços básicos e de moradia também podem ser viabilizados. Com isso, possibilita-se criar um ambiente urbano com maior potencial para a redução de desigualdades e a inclusão de pessoas socialmente marginalizadas.


Apesar de se falar em inteligência, pouco é compreendido a respeito desse conceito no contexto aplicado. A inteligência abordada pode ser entendida como a capacidade de identificação e resolução de problemas e, para isso, utiliza-se do aprendizado propiciado pela tecnologia. O uso de redes neurais, Internet das Coisas (IoC) e Tecnologia de informação e comunicação (TIC), isto é, é bastante interessante para gerar interações desejadas. Porém, é necessário ter cautela. Em alguns casos, tal presença pode ser marcada por um aumento no controle sobre os indivíduos, a partir do acesso a dados pessoais com pouca segurança, levando a invasões de privacidade ou à ampliação de algumas desigualdades existentes ao reforçar estruturas de poder. Assim, implementar determinados serviços sem estudos anteriores detalhados sobre seus impactos pode levar a um caminho oposto ao desejado, distanciando-se dos seus objetivos principais de melhorar a vida dos grandes centros urbanos e de atender às necessidades específicas dos indivíduos de cada região.


Com uma movimentação global de cerca de U$ 408 bilhões por ano, o mercado de Smart Cities e a infinidade de serviços que ele pode oferecer atraem os olhares dos investidores. Segundo a empresa de consultoria Technavio, o faturamento desse mercado deve chegar a US$2,118 trilhões até 2024, com um crescimento anual projetado em 23% nos próximos anos. Dessa forma, as oportunidades de faturamento nesse ramo são inúmeras e prometem crescer cada vez mais. Alguns especialistas visualizam o setor de iluminação pública como a porta de entrada para o mercado das cidades inteligentes. Isso porque, nos últimos anos, o setor de energia tem passado por mudanças significativas em sua estrutura, dados os processos de descarbonização e digitalização vigentes. Com o uso de tecnologias e recursos adequados, a economia com gastos de energia poderia chegar a 40%, segundo a Enel X.


Com uma quantidade significativa de recursos sendo alocados para o crescimento desse mercado, é importante não se esquecer dos impactos gerados no espaço urbano. Empresas em ascensão e projetos públicos em expansão podem causar um efeito oposto ao das cidades inteligentes ao não identificar corretamente as particularidades das cidades em que trabalham e, assim, importarem serviços e produtos de cases de sucesso, sem realizar adaptações ao ecossistema local. Desse modo, é indispensável reconhecer as individualidades de cada região e ter em mente a complexidade do conceito ao estar atrelado a modelos dinâmicos. Clama-se por cidades mais inteligentes que não desconsiderem o caráter social e sustentável das cidades em suas aplicações.



Autoria: Daniela Carlucci

Revisão: Beatriz Nassar e Bruna Ballestero




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