“Tô vendo uma esperança!”


Com 21 anos, estudante da GV, de volta ao presencial depois de dois anos de Zoom. E agora? Lá fora tudo parece normal... não sabemos por quanto tempo. O país está de joelhos: o preço de tudo, tudo!, está mais alto; o caminho até a GV expõe quantas pessoas vivem nas ruas depois de perderem casas, sem conseguir pagar aluguel e outros custos. No Instagram, gatilho de ansiedade: amigas estão sempre em bares e restaurantes, os amigos conseguem ver todos os filmes e, chegando em julho, já estarão em algum lugar do mundo. O que será que vai acontecer quando acabar a graduação? Ao menos as aulas de pijama, com o som da obra interminável do vizinho, acabaram: chega de Zoom...


“Tô vendo uma esperança!”


Eu tinha quatro anos, a idade que meu filho tem hoje. Meus pais estavam, como sempre, sem dinheiro. Vila Ede, extremo zona norte de São Paulo, sem avós e tios por perto. Eu estava com mais uma crise de asma: meu pai me levava para fazer inalação no Hospital Sabará e eu passava madrugadas lá, numa cadeira ao lado de tantas outras crianças sem ar nos brônquios, inalando soro e Berotec. Minha mãe ficava em casa, com meu irmão mais novo. Sem celular (ninguém tinha), eu não sabia dela e ela não sabia de mim.


“Tô vendo uma esperança!”


Se você estiver na GV, dê uma caminhada (quando puder, não vá faltar na aula, né!). Suba a Rua Itapeva até a Paulista. Chegando lá, dê uma espiada do outro lado da Paulista: lá está o Edifício Saint Honoré (aquele em formato de “L”), cheio de plantas nas varandas. Agora olhe para a sua esquerda, atravesse a Itapeva e caminhe pela Paulista no sentido do Paraíso (o bairro, claro). Ignore o shopping, horrendo. Continue andando. Você passará pelo edifício Paulicéia, imponente representante do modernismo. Pouco depois você chegará no Reserva Cultural. Entre. Passe pelo restaurante (que está à sua direita) e pela mini-padaria (está à sua esquerda). Você chegará em uma mini-livraria. Entre lá e dê uma espiada nos livros. Pergunte por “A Trégua”, do uruguaio Mario Benedetti. Ou “O Livro das Semelhanças”, de Ana Martins Marques. Se tiver uma edição de qualquer um deles, compre. Valerá a pena. Se não tiver, dê uma olhada geral. Veja se não há algo ali que te capture. Mas não adianta comprar um livro que um dia você poderá ler, sabe-se lá quando. Não. Compre um que você com certeza lerá naquela mesma noite. Então saia da livraria pela escadaria e dê uma olhada geral.


“Tô vendo uma esperança!”


Você assina o Spotify? Se não, zero problema: abra o YouTube. Onde quer que você escute músicas, pesquise por “O bêbado e o equilibrista”, composição de Aldir Blanc e João Bosco. Mas escute a versão gravada pela maior voz da história da música brasileira, a de Elis Regina. Escute agora. Pode escutar, depois você volta para esse textinho sem sentido aqui. Ouviu? Pois dê uma olhada na letra (e aproveite para ouvir de novo!). “Meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil”. Que será que isso quer dizer? O irmão de Henfil era o sociólogo Betinho, que deixou o país quando a terrível ditadura militar começou em 1964. Quando ele voltou, Betinho organizou uma luta emocionante e inspiradora em toda a sociedade, unindo esquerda e direita, na causa do combate à fome. Eram tempos de reconstrução depois da destruição da ditadura.


“Tô vendo uma esperança!”


Quem grita essa frase sempre repetida neste meu texto é a Graúna, uma das personagens mais carismáticas dos cartuns brasileiros. Quem criou ela foi Henfil, o cartunista mineiro... irmão de Betinho. O país estava nas ruínas enquanto Graúna gritava: o governo militar sequestrava pessoas, torturava mães nas frentes dos filhos, censurava filmes, livros e peças. Interferia no conteúdo de escolas e universidades. Fechava o Congresso Nacional e o Supremo. A corrupção corria solta entre empresários e militares, mas nada disso podia ser escrito nos jornais e revistas. A ditadura não sabia administrar nem mesmo as contas públicas: gerou uma inflação totalmente descontrolada, que desembocou na hiperinflação. Era a destruição. A luta social para acabar com o horror levou anos e anos. Mas deu certo: o país superou a ditadura, passou a votar para presidente, deputado, senadora, governador; passou a ser livre para produzir e criar; bolou até uma Constituição; domou a hiperinflação (com o Plano Real), colocou as pessoas para trabalhar, bolou o SUS, o Ibama e modernizou uma série de coisas.


Estou vendo uma esperança.


Agora quem diz sou eu e não mais a Graúna. Nós já vivemos tempos difíceis antes, tempos impossíveis. E conseguimos resolver problemões. A vida não está fácil agora, mais uma vez (sim, eu sei que no Instagram parece que está tudo sempre bem, mas a gente sabe que aquilo tudo ali é mais fake que espuma azul de bolo caro). A vida está difícil e o país está muito mal. Mas vamos conseguir superar esse horror, mais uma vez. É possível reduzirmos nossas bizarras desigualdades sociais. É possível colocar mais gente para trabalhar e sermos mais estáveis na política. Quando a primeira reconstrução aconteceu, eu era a criança asmática da zona norte de São Paulo. Tudo era difícil, mas tudo estava sendo escrito ao meu redor. A vida de todos melhorou dramaticamente entre a minha infância e a minha vida adulta. Foi impressionante. Agora, infelizmente, muita coisa desandou. Mas sairemos dessa. A nova reconstrução começará e você que está lendo este texto será fundamental. Desfrute muito da GV e se aproprie de seu entorno: com livros, músicas, filmes, peças, museus e arquitetura de boa qualidade. As coisas vão melhorar.


“Tô vendo uma esperança!”




Autoria: João Villaverde

Revisão: Bruna Ballestero


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