Trade-off do perdão

O dicionário de Oxford define a palavra trade-off, termo muito comum no meio econômico, como “o ato de sopesar duas coisas que se opõe uma à outra” (tradução livre). Para leigos, significa que uma certa decisão trará ganhos e perdas, e é necessário calcular se as perdas serão inferiores ou superiores aos ganhos. O perdão, em contrapartida, é muito mais usado no vocabulário religioso, político e jurídico, podendo ser definido como “a remissão de pecados” ou “a ação de se livrar de uma culpa, uma ofensa ou uma dívida”. A meu ver, a grande maioria dos deuses, independentemente da religião, não faz um grande cálculo na hora de decidir se deve ou não perdoar algum pobre pecador, mas para o resto de nós, mortais, perdoar é uma ação bem complicada.

Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que o oposto do perdão não é necessariamente uma vingança sangrenta e avassaladora. Às vezes, não perdoar significa simplesmente repudiar uma ação, aplicar uma sanção, cortar algum tipo de vínculo ou mesmo trabalhar em uma solução um pouco mais construtiva. Uma espécie de justiça restaurativa, no juridiquez moderno. Já o perdão puro e simples seria o ato de desculpar integralmente algo ou alguém. Mas vamos deixar de lado por um instante a moral cristã e a concepção ética/filosófica do perdão e pensar como economistas: o que se tem a ganhar com o perdão?

Vamos avaliar um exemplo prático e simples: quando minha irmã e eu éramos pequenas, brigávamos pelas coisas mais estúpidas, como acontece com a maioria dos irmãos, e isso gerava uma série de consequências previsíveis (que incluíam gritos e puxões de cabelo). Se a briga ficasse mais séria, meus pais tentavam intermediar e, às vezes, acabavam discutindo conosco ou colocavam cada uma em seu quarto. Na hora do jantar ninguém estava muito a fim de conversa, porque todos ainda estavam um pouco irritados uns com os outros. Claro que na manhã seguinte tudo já tinha voltado ao normal, afinal é assim que famílias funcionam, mas em outros ambientes o conflito pode não se resolver com tanta facilidade.

Em algum momento da minha infância, eu cheguei à conclusão de que certas atitudes da minha irmã não valiam a dor de cabeça causada pela reação dos meus pais ou o mal-humor que tomava a casa no “pós-guerra”. Eventualmente, aprendi a deixar passar pequenas ofensas, porque a paz que o meu perdão comprava era estrategicamente mais valiosa do que o acerto de contas com a minha irmã, que na minha cabeça era claramente justificável. Ela aprendeu a se comportar da mesma forma, portanto certas brigas simplesmente deixaram de ocorrer. O perdão compra uma paz rápida, pondo um fim imediato e geralmente efetivo ao conflito. Ademais, o perdão produz uma coisa muito valiosa e extremamente difícil de conseguir: segundas chances. Ter seus “pecados” perdoados permite um recomeço genuíno, zerar o placar, página em branco. Às vezes, esse tipo de oportunidade é essencial, se não indispensável.

Por outro lado, o perdão não vem livre de custas. Deixar passar impune algo que, na sua concepção, é injusto pode ser muito difícil. Além do que, certos atos afetam mais do que apenas o perdoador e o perdoado, ou seja, geram externalidades negativas a terceiros. Por fim, desculpar sem restrições pode incentivar a reincidência. Continuando no mesmo exemplo, a cada vez que eu ignorava alguma afronta da minha irmã, dava a ela a possibilidade de agir da mesma forma no futuro, pois não haveria consequências. E mesmo que a ação não se repetisse (afinal, pessoas evoluem), eu terminava o dia com o gosto amargo de quem engole desaforo ao invés de se defender, e ela certamente se sentia da mesma forma quando a situação era inversa. A sensação de ser injustiçado sem fazer nada é terrivelmente incômoda.

A questão é que fazer justiça, restaurativa ou punitiva, também é altamente custoso. Consome tempo, energia e tende a prolongar a hostilidade, o que pode ser estrategicamente negativo em alguns momentos. Vamos supor que você esteja fazendo um trabalho importante com um amigo e ele faz alguma coisa contra você às vésperas da entrega. A apresentação é conjunta e precisa ser ensaiada, logo a escolha mais íntegra seria sentar e conversar, resolver os problemas entre vocês. A maioria de nós possivelmente optaria por um acerto de contas um pouco menos moderado, mas a decisão mais inteligente (e cínica) seria provavelmente ignorar a ofensa, ensaiar sem qualquer tipo de animosidade entre os dois e dar o melhor na apresentação. Qualquer problema poderia ser resolvido posteriormente. Da mesma forma, existem brigas que não vale a pena comprar, com colegas de trabalho, vizinhos ou outras pessoas com quem um conflito vai gerar mais dor de cabeça do que qualquer outra coisa.

Fazemos esse tipo de cálculo todos os dias para decidir, racionalmente, quais brigas valem a pena e quais devem ser perdoadas. O problema dessa minha breve análise do perdão é que ela pressupõe que o ser humano é dotado de uma elevada dose de racionalidade, o que não é sempre verdade. Quando decidimos perdoar alguém, levamos em conta fatores muito mais subjetivos do que um cálculo objetivo de perdas e ganhos. Pensamos se a outra parte está arrependida, se merece ser perdoada, qual o tamanho da nossa própria mágoa, se há alguma forma de vínculo afetivo... tudo isso nos impede de ponderar o perdão com a mesma frieza que teríamos ao ponderar uma compra e venda de ações. Além disso, alguns atos são considerados socialmente imperdoáveis, e a justiça deve vir independentemente do preço. Nesses casos, não é moralmente aceitável fazer um cálculo puramente racional.

Esse é o dilema que muitas vezes aparece no decorrer de processos de transição de regimes autocráticos para regimes democráticos. Devemos buscar a punição daqueles que violaram princípios básicos da dignidade humana, correndo o risco de prolongar o regime e fomentar a retaliação dos que foram retirados do poder? Ou devemos perdoar, distensionando as relações e abrindo espaço para uma transição rápida e pacífica, a custo de deixar aberta as feridas da impunidade e eventualmente abrir caminho para reincidência? Às vezes, esse é o trade-off. Para os direitos humanos, a resposta é clara: certos crimes não podem ser perdoados. Isso não significa, contudo, que a resposta a eles não possa ser restaurativa.

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