UM ARGUMENTO NÃO MUITO CONVINCENTE EM PROL DO PASSADO

No texto de hoje, nosso redator Luca Mercadante traz uma reflexão a respeito da maneira como vivíamos nossas vidas na pré-quarentena, e como o isolamento revelou o desejo dos indivíduos de serem em conjunto. O que nos aguarda depois deste tempo afastados? Seria um retorno ao modo de vida anterior, ou uma mudança na maneira que levamos nosso dia a dia e nossas relações?

O texto de hoje é reflexão quarentenal. Acordo. Levanto. Coloco a primeira roupa do armário. Sento-me à sala de aula. Essa é minha rotina nesses tempos, para não dizer sombrios, tediosos. Mas isso todos já sabem, afinal, todos vivemos esse período. Este texto se propõe, leitor, a extrapolar o presente; ao infinito e além.


Vejo, ouço e leio, com frequência, previsões sobre o futuro no pós quarentena. Quem tenta prever, em sua maioria, diz que o vírus abalou nossos alicerces, mexeu com nossas estruturas; nada será mais o mesmo. Aulas não voltarão completamente ao ambiente físico, nem os trabalhos, nem os costumes. Me incluo nos que acreditam nisso. Mas quero propor outra linha de raciocínio. Ela se inicia nos jogos de videogame.

Nos últimos tempos, os e-sports cresceram exponencialmente, movimentando grandes mercados e com premiações astronômicas para os vencedores dos campeonatos. O mais curioso é que os jogos profissionais são organizados em eventos presenciais. A questão que fica é: o que ganha um espectador em sair de sua casa para assistir a um grande telão e ver (ou não ver) seus astros atrás de uma tela de computador?


A resposta que me vem à cabeça é simplesmente uma vontade forte que o ser humano tem de se juntar, de congregar, de vibrar em conjunto. Em sintonia. Sentindo o poder do grupo. O pertencimento. Quando não havia necessidade nenhuma de um evento físico, quando todos já estavam acostumados a assistir, jogar e se encontrar em eventos online, estádios lotaram para ver grandes finais de avatares se degladiando.


Esse padrão se repete em diferentes meios. Os grupos de Facebook marcam encontros. Até mesmo o futebol: estádios lotam, mesmo enquanto muitos tem a possibilidade de torcer de suas casas vendo os jogos em televisões 4k e aparelhos de som surround. Palestras não se tornam webinars. Os exemplos são infinitos.


Então talvez, mas só talvez, nada mude; a gente volte ao mesmo modus operandi do passado. Se quando pudemos escolher, escolhemos ficar juntos, mesmo sem necessidade, então quiçá esse seja o padrão humano. Se for esse o caso, o futuro que nos espera não é nada mais que o passado com idiossincrasias. Vamos voltar a nos aglomerar sem medo de sermos felizes. Tudo isso parece ter um grande sentido, mas não acredito nisso não. Provavelmente tudo vai mudar. E se mudar, espero que para melhor, porque já não aguento mais ficar em casa.


Foto de capa: Manuel Fuentes

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