UM MANIFESTO PELA DESTRUIÇÃO DA DESESPERANÇA



Há todo um velho mundo ainda por destruir e todo um novo mundo a construir. Mas nós conseguiremos, jovens amigos, não é verdade? Nós conseguiremos! Como diz o poema: Não nos falta nada, minha mulher, meu filho, a não ser tudo que cresce através de nós, para sermos livres como os pássaros: nada, a não ser tempo! (Rosa Luxemburgo)[1]

Dentre aquilo que mais me incomoda na vida, estão as pessoas que aceitam o mundo tal como ele está. Não sei um termo que as contemple corretamente, por isso ficarei com “conformistas”, já que “adoradoras do status quo” não é exatamente isso. O curioso é que, até algumas pessoas com péssimas intenções se propõem a mudar o mundo, só não o fazem de uma forma boa. Já o conformista vê o problema, sabe do problema, e o aceita, “porque é assim e sempre será”. Eu seria incapaz de viver dessa forma.


Depois de ler o que Paulo Freire fala sobre a relação entre a alegria relativa à atividade educativa e a esperança[2], finalmente pude compreender esse meu incômodo com os conformistas. Freire entende que a esperança faz parte da natureza humana – ela é um ímpeto natural de todos nós, seres inacabados e conscientes do inacabamento. A esperança nos leva a viver uma constante busca. Além disso, sem esperança, não poderíamos falar de História, apenas de determinismo, pois a História só existe quando há tempo problematizado e não pré-dado. É por isso que, se não pensamos em um futuro capaz de transformação, um futuro inexorável, negamos a História.


Por outro lado, a desesperança não é natural do ser humano; ela é uma distorção da esperança: as pessoas se tornam desesperançosas por “n” razões, elas não o são de nascença ou naturalmente. A grande questão é que a desesperança é preocupante, pois imobiliza as pessoas. Acredito eu que, em diversos momentos, o que mais buscam alimentar em todos nós é a desesperança, porque pessoas desesperançosas não reagem, não protestam, não buscam mudança. Algo bem confortável para quem está no poder e dele se beneficia.


Freire aponta como é incoerente uma pessoa progressista e contrária às injustiças não ser criticamente esperançosa. Quando compreendemos o futuro como um mero resultado mecânico da História – isto é, adotamos uma perspectiva determinista da História – estamos condenando à morte o sonho, a utopia e a esperança. Creio que, assim como Freire, eu e outras pessoas progressistas que leem este texto não desejam viver uma incoerência.


Após comentar um caso terrível que ganhou repercussão na mídia, Freire aborda a reação fatalista de algumas pessoas conformistas quando se depararam com esse retrato da desigualdade social em nosso país. Pessoas que, diante da fome, da miséria e da dor, só sabiam aceitar aquela realidade:


A realidade, porém, não é inexoravelmente esta. Está sendo esta como poderia ser outra e é para que seja outra que precisamos os progressistas de lutar. Eu me sentiria mais do que triste, desolado e sem achar sentido para a minha presença no mundo, se fortes e indestrutíveis razões me convencessem de que a existência humana se dá no domínio da determinação. Domínio em que dificilmente se poderia falar de opções, de decisão, de liberdade, de ética. “Que fazer? A realidade é assim mesmo”, seria o discurso universal. Discurso monótono, repetitivo, como a própria existência humana. Numa história assim determinada, as posições rebeldes não têm como tornar-se revolucionárias.[3]


É por isso que nós, diz Freire, assim como podemos expressar amor e amar, também temos o direito de sentir a raiva e manifestá-la. Porque a raiva é a motivação para a briga que cada um trava contra as injustiças. Se a realidade fosse determinada – em uma História determinista – não haveria razão para ter raiva. A raiva justamente pressupõe que o amanhã não é dado adiantadamente, mas sim que ele é um desafio a ser enfrentado.


O mundo não é assim, ele “está sendo”; não podemos nos dar como condenados a esse mundo. Nós não apenas constatamos o que ocorre no mundo; do contrário, somos capazes de intervenção, e assim nos colocamos como “sujeitos de ocorrências”. Por isso, não podemos nos tratar como meros objetos da História, quando, na realidade, somos seus sujeitos. Ao constatarmos algo, nos tornamos capazes de intervir na realidade: não podemos nos conformar com uma simples adaptação a ela. Ninguém está alheio ao mundo em que vive, e nenhum de nós existe de forma “neutra”.


Mas, é claro, precisamos sobreviver, e não é só de revolta que se vive. Em face da problematicidade do amanhã, existe muita dor e adaptação ao agora, manifestas na resistência física, cultural e orgânica à injustiça.


É preciso, porém, que tenhamos na resistência que nos preserva vivos, na compreensão do futuro como problema e na vocação para o ser mais como expressão da natureza humana em processo de estar sendo, fundamentos para a nossa rebeldia e não para a nossa resignação em face das ofensas que nos destroem o ser. Não é na resignação mas na rebeldia em face da injustiças que nos afirmamos.[4]


Precisamos alimentar a rebeldia - a denúncia da situação desumanizante -, mas ela, sozinha, não basta, é somente um ponto de partida. É necessário que o que há de rebelde se alongue em uma posição mais crítica e radical, que constitui justamente a posição revolucionária e o anúncio da superação da situação desumanizante. Esse saber é colocado por Freire como “mudar é difícil, mas é possível”, e é através dele que se programa a ação político-pedagógica independentemente do projeto que se propõe.


Um dos fatores que matam a esperança, apesar de Freire não os colocar diretamente como assassinos, é a crença de que a situação concreta é um destino certo ou uma vontade de Deus, de modo que não pode ser alvo de transformação. Nesse ponto, tomo as ideias que Paulo Freire destrinchou e tento trabalhar as minhas próprias. Acredito que, assim que colocamos ações fruto da responsabilidade humana nas mãos de “forças divinas”, abandonamos qualquer ideal de transformação. O potencial de mudança do mundo não é apenas destruído por aqueles desesperançosos convencidos de uma História determinista. Há aqueles – muitos, infelizmente - que abrem mão da sua responsabilidade enquanto ser causador de consequências para a sociedade em cada uma de suas ações. Porque indiferença também é uma ação – geralmente negativa, uma omissão -, e, ainda que exija pouco movimento, é algo que pode transformar-se numa onda.


Stuart Mill (em citação atribuída por muitos a Edmund Burke, erro cometido até por Kennedy) dizia que homens ruins não precisam de muito para atingirem seus objetivos além de “bons homens” que observam e não fazem nada a respeito[5]. O historiador Ian Kershaw afirmou, em reflexão semelhante, que a estrada para Auschwitz foi construída por ódio, mas pavimentada com indiferença[6]. Isso é questionado a partir do momento em que se entende que o nazismo sobreviveu a partir do colaboracionismo de muitos, não de seu silêncio[7]. A questão é que muitos não reconhecem seu papel ativo e acreditam na neutralidade das suas ações; não se veem como colaboradores, mas como meros seguidores ou pessoas bem intencionadas que ocasionalmente estavam envolvidas naquilo. Para eles, o ódio era neutro, logo, o que eles faziam era nada mais do que seguir um comando. Eximiam-se da responsabilidade por seus atos, por sequer considerá-los propriamente ações. Ignoravam o fato de que o silêncio e a omissão são tão pensados e refletidos quanto ações positivas e que exigem movimento.


Até as pessoas com as melhores intenções do mundo se veem em algum momento sustentando um discurso de desesperança, que as deixa imóveis e certas de que a vida é uma questão de ser suficientemente obediente, ordeiro, domesticado, até acabar. Para alguns, talvez num plano divino seja possível alguma recompensa pela monotonia da existência. Às vezes, é mais fácil se conformar e dizer que a vida não tem sentido, abraçar um niilismo azedo (perdão pelo pleonasmo) e aceitar tudo o que há de ruim.


Creio que o individualismo tem muito do que se aproveitar de pessoas desesperançosas, porque é extremamente individualista observar o mundo através do próprio umbigo, e se dar por satisfeito com o que existe no agora. Esse individualismo é mil vezes mais tranquilo quando o “agora” não é tão danoso para você, imerso em um mar de privilégios.


Penso que aqueles que mais sofrem na pele o que é o “hoje” são os que mais buscam sustentação no fato de que nós seres humanos podemos “ser mais” do que o agora. Eles carregam consigo uma esperança muito forte, mesmo sendo todos os dias bombardeados com desesperança.


Pessoas com uma noção básica de coletividade, ainda que não sejam as mais afetadas pelo “mundo como está hoje”, não se darão por satisfeitas diante das injustiças que não as concernem. Martin Luther King Jr., em 1963, escrevia: “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares. Estamos presos em uma rede inescapável de mutualidade, atados em um único laço do destino. Algo que aja sobre alguém diretamente age sobre todos indiretamente”[8].


Um projeto de sociedade que não envolva solidariedade humana é um projeto que depende da constante dispersão da desesperança. Quanto mais as pessoas se sentirem em um labirinto sem saída, crentes em um mundo cuja desigualdade e crueldade são meros resultados “divinos” e “naturais”, mais bem sucedido é essa proposta de imobilização das pessoas.


Parece algo etéreo comentar essa questão, mas não o é: pense em quantos momentos de sua vida figuras políticas e públicas alimentaram o discurso da desesperança. Considere as várias personalidades religiosas que possuem palanque para justificar a desigualdade como uma punição divina ou fruto de indivíduos que “não alcançaram o mérito”. Elas colocam toda uma carga de culpa em cima das pessoas mais marginalizadas em seu projeto de manutenção da desigualdade, justamente para esconder os aspectos estruturais que as beneficiam. Cantam e doutrinam que “o mundo não é errado, você é; não mude o mundo, mude você. Não reclame, transforme sua mente, e verá a verdade (que eu quero)”. Tornam seus alvos em pessoas culpadas e que carregam consigo um sentimento de que “pecaram”, fazem com que acreditem que foram condenadas ao mundo em que vivem. É uma mentira servida no café da manhã, almoço e jantar, mesmo em tempos de jejum e falta de alimento.


Há uma certa crença de que quanto mais tempo vivemos, mais desesperançosos nos tornamos. Essa máxima é plenamente questionável, mas não deixa de ser verdade o fato de que a juventude é promotora de boa parte da esperança pela transformação. Ao mesmo tempo, nos damos conta de que a nossa juventude nasceu cercada pelo discurso da desesperança, nos mais diversos âmbitos que frequentamos. Se você incita a desesperança nos jovens, corta pela raiz os principais responsáveis pela mudança de como o mundo “está sendo”.


Como lavagem cerebral e/ou proselitismo, o discurso da desesperança se apresenta para nós e, em tempos em que parece que o mundo está acabando, ele aparenta mais verídico do que nunca. É extremamente tentador de ser agarrado o quanto antes, para evitar mais desgaste. Só que é nosso papel não apenas desviar da desesperança, como destruí-la, por meio da tal rebeldia seguida de posição revolucionária. Somos nós os responsáveis pela denúncia das situações desumanizantes em que o mundo “está”, e não podemos nos permitir imobilizar por todos esses dardos anestesiantes.


Ninguém no poder desafia o niilismo e o individualismo, porque eles são extremamente adequados ao status quo. O quanto antes, é preciso aniquilar a desesperança, presente em todos os momentos da história da humanidade, e desafiada por aqueles cuja esperança sempre foi resistente. A História não-determinista em que vivemos traz consigo a mensagem que Luxemburgo propagou: o que nos falta é apenas o tempo para destruir o velho mundo e construir um novo. Não permita que ensinem aos pássaros que a gaiola é seu destino.


Referências:

[1]LUXEMBURGO, Rosa. A Socialização da Sociedade, 1918. The Marxists Internet Archive. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/luxemburgo/1918/12/socializacao.htm [2]A obra em questão é a “Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa”. [3]FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996, p. 30. [4]FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996, p. 31. [5]A frase exata é esta “Bad men need nothing more to compass their ends, than that good men should look on and do nothing.” Para maiores detalhes quanto à autoria, acessar: https://quoteinvestigator.com/2010/12/04/good-men-do/ [6]The road to Auschwitz was built by hate but paved with indifference.” [7]Concordo com vários pontos do texto, como quando diz que é mais lógico exigir que pessoas normais não sejam heroínas, e que o essencial seria que não ajudassem os vilões. Só que a interpretação realizada pelo autor da ideia de Kershaw me parece equivocada. É possível acessar o artigo por este link: https://www.nytimes.com/2020/01/21/opinion/auschwitz-bystander-theory.html [8]KING JR, Martin Luther. Carta da Prisão de Birmingham, 16 de abril de 1963. Disponível em: http://www.reparacao.salvador.ba.gov.br/index.php/noticias/822-sp-1745380961

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