UMA CARTA SOBRE DANÇAR E MUDAR


Há alguns anos me fiz uma promessa: nunca parar de dançar sozinho. Nunca fui daqueles que sentiam sentimentos, a ignorância me era suficiente. Não sou daqueles que processam, passam pelas cinco fases do luto ou entendem a responsabilidade de ir à terapia, apesar de que é meu primeiro, e muitas vezes único, conselho para aqueles que me vêm fazer confissões sentimentais. Nunca fui de chorar. Andava estático, sempre estático, com uns dois passos de estresse, umas três piruetas de curiosidade e alguns fouettes sem técnica nem precisão, de madrugada no meu quarto para lidar com tudo aquilo que negava.


Vivia meu mundo, sem interferências externas, sem lidar com histórias de amor que me inscrevia para audicionar para o papel principal. Até que me inscrevi. Audicionei para Romeu. Me encheram de elogios e disseram que eu era o único ator que estava interessado no papel. Alguns dias antes de assinar contrato, a diretoria me informou que tinham escolhido outro, agradeceram com um bocado de palavras bonitas pela tentativa e desligaram minhas ribaltas. Mentiram, mas entendi que a mentira faz parte da arte.


Fiquei na escuridão, com a pequena plaquinha verde neon apontando para a saída me iluminando. Tentei entender o porquê da minha performance não ser satisfatória para a crítica. Chamei a uma amiga poetisa para entender a dinâmica do mundo artístico, afinal o poeta é quem sabe de arte, não tinha saída: teria que sentir. Senti. Chorei. Demorei um pouco pra sair do palco. Transicionei pelas cinco fases do luto, bem rápido. Não me ignorei, e até em terapia fui, me descobri um pouco, marquei presença e nunca mais voltei.


Mas não dancei. Mudei. Perceber isso me doeu mais do que qualquer parte do roteiro. Não era mais o que um dia fui. Mas não dancei. Voltei ao início: sempre estático, com uns dois passos de estresse, umas três piruetas de curiosidade mas dessa vez sem fouettes noturnos. Comecei a acreditar nos astros, era mais fácil do que lidar com meus roteiristas internos, e eles me impuseram um passo novo: um demi-plié de melancolia que me lembraria de coisas que havia aprendido com a psicologia. Mudei minha trilha sonora, voltei à antiga, passeei por meus lugares favoritos, comecei novos hobbies, aprimorei outros, experimentei de tudo (e todos), fiz novas amizades, terminei outras, me conheci, me desconheci, não voltei a ser quem era.


Me forcei a dançar em um ritmo que já não era o meu. Descompassado, tentando dançar em quatro por quatro com os pensamentos fluindo em doze por oito. Não funcionou, fiquei sem os fouettes da madrugada e os demi-pliés de melancolia pouco a pouco se transformando em grand-pliés e ganhando protagonismo no meu andar. Entendi que não poderia voltar a ser quem era. Desisti de dançar, me desculpando longamente com minha versão de anos atrás por ter quebrado nossa promessa. Tentei explicar que somos o mesmo, com uns centímetros a mais e um pouco de barba, mas ainda andando com dois passos de estresse e umas três piruetas de curiosidade. Agora sentimos, ainda que tentemos voltar atrás e ignorar-nos, sentimos.


Não entendia mais meus rumos, mas uma vez em contato com a arte e tantos posicionamentos astrais na casa sete, tentei entrar em contato com ela de novo. Dessa vez não procurava papéis protagonistas, apenas uns bicos, talvez um coadjuvante, mas nunca mais Romeus, não queria morrer novamente no final. Achei, papéis que sabia serem passageiros e que não me traíram nenhuma fama. Contente com minha situação, não pensava em mudar tão rápido.


Audicionei um dia para um trabalho temporário. Fui aceito. No meio da peça, nossos roteiristas decidiram mudar o enredo e nos colocar como protagonistas em um amor de verão. Me deixei. Afinal, naquele palco, debaixo de uma amoreira que tinha uma sombra prestes a me cobrir de qualquer ribalta traiçoeira, encontrei um conforto que não sabia que procurava. Mutualidade. Decidimos estender nossos papéis para fora da arte.


Retomei meu hábito de anos atrás. Dancei. Pela primeira vez em tempos, dancei. Sozinho com uns jetés de tempos em tempos e acompanhado de alguém que não sabia sequer valsar. Dancei. Não voltei a ser quem era e ainda não sei quem sou. Queria te pedir desculpas porque você amaria me conhecer com os três fouettés da madrugada e sem os agora já consolidados grand-pliés de melancolias. Suspeito que gostaria mais do que a versão de agora. Mas danço no meu compasso, a alguns km de você, às vezes com alguns jetés de um sentimento que ainda não entendi, mas sempre esperando os finais de semana para valsar em nossos duetos enquanto você pisa em meus pés pedindo desculpas. De certa forma, quebrei minha promessa de anos atrás, mas continuo dançando. Afinal, minhas promessas devem acompanhar minhas mudanças.


Desestático, com dois passos de estresse, três piruetas de curiosidade, grand-pliés de melancolia e, às vezes, jetés incompreendidos, mas sempre valsando.



Autoria: Rafael Monteiro

Revisão: André Rhinow e João Vítor Vedrano

Imagem de capa: Germaine Krull

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