Uma história que cansamos de repetir: Bhopal, Mariana e Brumadinho, o descaso que parece acaso


Nossa redatora Laura Mastroianni Kirsztajn nos trouxe um tributo e uma análise de três grandes tragédias causadas por crimes ambientais, crimes trivialmente negligenciados em nossa sociedade.




Em 3 de dezembro de 1984, testemunhou-se um dos maiores acidentes industriais e químicos da história na cidade de Bhopal, Índia. Trata-se do vazamento de 42 toneladas de gás metil isocianato (MIC) em uma planta do pesticida Sevin, da empresa estadunidense Union Carbide. Ocorrido durante a madrugada, o resultado desse acidente foi a morte de ao menos 4 mil pessoas nas primeiras semanas, e uma marca eterna na população, que foi e continua sendo assolada por doenças e mortes muito tempo depois do ocorrido.

Assim que houve o vazamento, milhares de pessoas saíram às ruas com dificuldade para respirar, olhos queimando e tontura. Muitas vomitavam sangue e acabavam engasgando-se nele, posto que o gás inalado, ao atingir as partes mais profundas do pulmão, inunda-o de sangue. A perda da visão foi uma das principais sequelas deixadas. Algumas fontes apontam que o desastre resultou num total de 22 mil mortes. O evento que deu causa ao acidente foi o vazamento do MIC e o aumento da pressão dentro de um tanque de armazenamento, algo que poderia ter sido evitado com um dispositivo de segurança que fora desativado três semanas antes.

Voltando um pouco atrás, é preciso introduzir algumas variáveis. No final da década de 70 e início dos anos 80, o governo indiano buscou incentivar a vinda de empresas produtoras de especialidades químicas para aumentar a produção de alimentos e a oferta de emprego no país. Com isso, a empresa estadunidense Union Carbide Corporation realizou parceria com o governo e outros investidores privados.

No momento de avaliar esse caso, não faltaram falhas por parte da empresa para que o ocorrido fosse possível. Sabe-se que todos os sistemas e equipamentos de segurança da fábrica falharam ou haviam sido desligados antes de acontecer a tragédia; que os indicadores de pressão dos tanques na sala de controle não apontavam o valor real; que o sistema de refrigeração dos tanques fora desligado para reparo e a fábrica continuou a operar; e que o purificador de gases, que filtrava possíveis gases tóxicos, não estava funcionando e, mesmo se o estivesse, não seria capaz de suportar a quantidade de gás vazada.

Cerca de 31 anos depois, em 2015, o Brasil vivenciou o seu até então maior desastre ambiental: o rompimento da barragem de Fundão, da empresa Samarco. A Samarco é uma mineradora controlada por duas empresas, a Vale, nacional, e a BHP Billiton, anglo-australiana. A lama invadiu municípios de Minas Gerais e de Estados vizinhos, e os rejeitos atingiram o Rio Doce e seus afluentes, destruindo distritos e deixando a população sem água, moradia e fonte de renda. O processo na justiça envolve 22 pessoas físicas e quatro empresas.

O desastre liberou por volta de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração formados especialmente por óxido de ferro, lama e água. A lama cria uma cobertura que, quando seca, forma algo com consistência de cimento, que impede o desenvolvimento de uma série de espécies. Essa cobertura é pobre em matéria orgânica, de modo que a região fica infértil, e os rejeitos afetam o pH da terra, causando desestruturação química do solo. A fauna também foi afetada, pois, em virtude da lama, faltou oxigênio na água e obstruiu-se os órgãos respiratórios dos animais, levando-os à morte. Isso repercutiu fortemente na pesca, fonte de renda e de alimento muito importante para vários moradores da região.

A princípio, acreditou-se que o caso em Mariana serviria de alerta e símbolo para algo que jamais deveria acontecer em nosso país ou no mundo. Que haveria tamanha responsabilização que a negligência teria cada vez menos incentivo, e que o desgaste reputacional das empresas seria suficiente para que mudanças fossem feitas. Talvez essa crença existisse até 25 de janeiro de 2019.

No dia 25, as cenas que vimos em Mariana repetiram-se. Outra barragem da mineradora Vale rompeu-se em Brumadinho, Minas Gerais. Até o momento são contabilizadas quase 300 pessoas desaparecidas e 34 mortas. Segundo coluna do EL PAÍS, não foi promovida pela empresa qualquer manutenção adequada nas barragens rompidas. O tipo de barragem adotado pela Vale é justamente o mais barato e perigoso, pois trata-se de um aterro de terra que cede com o passar do tempo. A notícia afirma que há em Minas Gerais 500 barragens, o que nos leva a crer que temos 500 bombas-relógio aguardando o momento para disparar.

Ainda, conforme dito em notícia da Revista Galileu, a tecnologia utilizada na construção da barragem do complexo Mina do Feijão envolve edificar a barragem acima de um lago, com dispositivos para a filtragem e drenagem da água enlameada. Ocorre que não é incomum que esses dispositivos entupam e falhem no momento de tirar a água em excesso, o que pode dar origem a acidentes.

Destaca-se que o sistema de alarme da barragem de Brumadinho é feito manualmente: uma pessoa deve ler os equipamentos, identificar o problema e, com isso, ativar o alarme. Portanto, o sistema utilizado atualmente é extremamente demorado quando o comparamos com dispositivos automáticos.

Percebam que em meio a esse texto palavras como “desastre” e “acidente” apareceram com frequência, mas em todos os casos vimos que, seja através da legislação ambiental, seja através de conhecimentos básicos sobre segurança e ciência, ocorrências como essas eram previsíveis, esperadas. Porém, pouco foi feito para que não acontecessem. Eram como profecias realizáveis cantadas nos ouvidos das empresas e do Estado, mas que foram ignoradas e negligenciadas, porque “urgências” maiores talvez existissem. Urgências essas que estariam acima de vidas e do nosso meio ambiente. Uma bomba prestes a explodir, que enquanto apitava, foi deixada numa sala com isolamento acústico.

Os crimes ambientais estão sendo naturalizados de tal modo, que lhes tratam como furacões, tsunamis, erupções vulcânicas e terremotos: fenômenos da natureza que fogem do nosso controle. Contam-nos histórias sobre o acaso, porque querem que esqueçam o descaso. Quantas mais?

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