VOLTA ÀS AULAS 2022: #AULAONLINENÃO OU #FICAEMCASA?

Após o início da pandemia de COVID-19, em março de 2020, as aulas em modelo de ensino à distância (EaD) foram institucionalizadas na Fundação Getulio Vargas. A expectativa do governo brasileiro era de que a pandemia fosse ter fim em poucas semanas ou meses. No entanto, depois de entender que este fim só chegaria com as vacinas e que elas demorariam ao menos um ano para serem produzidas e distribuídas para a população, dois anos de pandemia se passaram, bem como dois anos de EaD na faculdade.


Assim, no final de 2021, após a grande maioria dos estudantes da instituição estarem vacinados e os casos ativos de coronavírus no país apresentarem considerável queda, a expectativa era de que o modelo de aulas presenciais fosse retomado no início de 2022. Tal esperança ocorreu tanto por parte dos estudantes, quanto por parte da administração da faculdade, que comunicou no início de janeiro que pretendia retomar o ensino presencial para todos os alunos.


Entretanto, devido ao surgimento de uma nova onda de casos em virtude da variante ômicron, a coordenação da FGV EAESP, escola com o maior número de estudantes, decidiu postergar a retomada das aulas presenciais, prevista para o início do ano letivo, em 31 de janeiro, para a terceira semana de fevereiro, no dia 14, mantendo o ensino online durante as primeiras semanas.


Mas as perspectivas eram incertas, esperava-se que o mês de fevereiro começasse com uma diminuição significativa da curva infectados pelo coronavírus, o que não ocorreu em sua primeira semana. Até o momento desta reportagem (7 de fevereiro) o número de casos só veio a crescer. A respeito disso, a administração da FGV optou por postergar a volta das aulas presenciais em mais um mês, isto é, para 14 de março, coincidindo com a volta das aulas da USP (Universidade de São Paulo).


Em um e-mail divulgado para os alunos em 4 de fevereiro para anunciar o recente adiamento das aulas presenciais, a instituição ressaltou seu “compromisso com o retorno às atividades presenciais o mais rápido possível, sem, no entanto, negligenciar a prioridade de proteger a vida e a saúde de nossos alunos, professores e funcionários, além de seus familiares e da comunidade em geral”.


Entretanto, tendo em vista que muitas atividades com aglomeração de pessoas — como bares, shows, festas, restaurantes, jogos de futebol etc — foram retomadas já em 2021 com o avanço da vacinação, estudantes se organizaram nesta última sexta-feira, 4 de fevereiro, para protestar contra a decisão da FGV, uma vez que o ensino à distância tem sido duramente criticado. Até o valor da mensalidade da instituição privada foi usado como argumento para criticar a qualidade do ensino no modelo virtual, que não atendeu às expectativas dos estudantes.


Assim, uma manifestação inesperada com comentários massivos de estudantes em um post da FGV EAESP no Instagram iniciou-se na manhã da última sexta-feira. A publicação da instituição tratava da declaração de um professor sobre a vacinação de crianças no Brasil e o Ministério da Saúde. Nos comentários do post, centenas de alunos subiram a hashtag #aulaonlinenao.

Além disso, vários alunos têm se organizado em grupos de WhatsApp pedindo a volta às aulas mediante um modelo híbrido — online e presencial. Tal modelo aparentemente atenderia às necessidades de ambos os perfis de alunos: aqueles que ainda estão inseguros para voltar presencialmente devido ao aumento dos casos e os que pretendem assumir um risco, agora menor (tendo em vista o avanço da vacinação e a diminuição da taxa de mortalidade do vírus), de vir a ter complicações pelo coronavírus e priorizam um estudo presencial — alegadamente de maior qualidade.


Alguns graduandos organizaram uma manifestação presencial para as 9 horas de hoje (segunda-feira, 7 de fevereiro), em frente ao prédio da FGV EAESP. Para aqueles que não podiam participar do movimento presencialmente, alguns alunos realizaram uma espécie de “greve”, optando por não comparecer às aulas virtuais ou então mudando o fundo do Zoom, plataforma na qual as aulas são lecionadas, para uma imagem com mensagens de protesto. O grupo no WhatsApp em que o movimento se organizou contou com cerca de 250 estudantes.


Resultados da pesquisa feita com os alunos

Poucas horas após os primeiros rumores do adiamento das aulas para o dia 14 de março, representantes de sala da EAESP uniram-se para consultar os demais alunos da Fundação sobre o tema, compartilhando um formulário em diversos grupos de Whatsapp e Facebook.

Para a elaboração desta reportagem, a Gazeta Vargas teve acesso aos resultados dessa pesquisa na manhã de segunda-feira, 7 de fevereiro. Até tal momento o formulário já contava com mais de 1.030 respostas. Confira abaixo os principais resultados:





Entrevistas com as partes


Nós da Gazeta Vargas conversamos com diversos perfis de alunos da FGV para entender o que cada um pensa a respeito da protelação da volta das aulas presenciais e como eles avaliam a comunicação da faculdade nesse contexto. Além disso, entramos em contato com representantes do Diretório Acadêmico Getulio Vargas, os quais nos concederam uma entrevista. Não obstante, tentamos fazer contato com a administração da FGV, mas até o momento dessa reportagem não obtivemos resposta.


Entrevista com representantes do DAGV

Em meio à mobilização do alunato nas redes sociais que sucedeu o print vazado da EESP, na quinta-feira (3), e que foi intensificada com o anúncio oficial da FGV sobre o adiamento do retorno para o dia 14 de março, não foram raras as cobranças dos alunos a respeito de um posicionamento do Diretório Acadêmico. Em conversa com o presidente do DA, Gabriel Domingues, e com a secretária-geral, Gabriela Hwang, a Gazeta Vargas pôde apurar a questão sob o ponto de vista da entidade responsável pela representação do alunato.


Segundo os representantes, as conversas com a coordenadoria das escolas de São Paulo acerca do retorno intensificaram-se em meados de novembro de 2021, quando a EAESP passou a sinalizar o retorno do modelo 100% presencial para 2022. A partir desse momento, demandas diversas dos alunos passaram a ser recebidas.


Com o agravamento da curva de casos em janeiro, embora as escolas de São Paulo estivessem determinadas a retornar simultaneamente no dia 14 de fevereiro, a FGV do Rio de Janeiro já havia sinalizado a composição de um comitê científico e que haveria uma votação acerca do adiamento do retorno para o mês de março. O resultado oficial desse pleito foi aquele comunicado na própria sexta-feira, 4, muito embora a EESP já tivesse optado por esse adiamento de forma independente, situação que gerou a confusão após o vazamento do tal “print da EESP” que semeou toda a confusão.


Com o envio do comunicado oficial da FGV acerca do adiamento na sexta-feira, o DA finalmente pôde publicar o seu anúncio próprio sobre o tema em suas redes sociais: “A postura atual do DAGV é de volta às aulas [...] cobramos a coordenação a respeito disso e estamos tentando chegar na presidência.” - Gabriel Domingues.


Foi naquela sexta-feira que o DA compreendeu a complexidade da situação: a decisão pelo adiamento não foi de nenhuma das escolas da FGV Rio ou São Paulo — as quais, por sinal, eram a favor do retorno no dia 14/02 — mas sim da presidência da FGV. Dessa maneira, cobrar a coordenação não seria o caminho eficaz para representar a posição do alunato, e seria necessário juntar esforços com outras entidades com funções análogas. “Agora, estamos nos unindo com o CA de Direito, o CA de RI e com a Atlética, além do contato com os centros acadêmicos de Direito, Administração e Matemática Aplicada do Rio de Janeiro para uma mobilização interestadual entre as escolas da FGV para que possamos ser mais incisivos em alguma postura que possa adiantar as aulas presenciais.” - Gabriel Domingues. Segundo Gabriela Hwang pode-se esperar num futuro breve uma ação unificada de tais entidades para que sejam “mais incisivos em alguma postura que possa adiantar as aulas presenciais”.


Tentativa de contato com a FGV-SP


No esforço dessa reportagem, a Gazeta Vargas tentou estabelecer contato via e-mail para realizar perguntas à coordenação da FGV. Entretanto, até o momento dessa mesma publicação, não obtivemos resposta.


A despeito disso, a Fundação não deixou de responder à intensa mobilização do alunato nos últimos dias: na manhã desta segunda-feira, pouco antes do horário marcado para a manifestação, um comunicado foi enviado via e-mail justificando a decisão do adiamento para o dia 14 de março com base no “respeito à preservação da vida” e no princípio da precaução.


O e-mail contém um link que direciona o aluno ao site da Health Data, revelando uma projeção que aponta um pico nos números em um momento próximo ao dia 14 de fevereiro. E adiciona: “Poderíamos planejar a volta passada a previsão do pico de mortes, não fosse a ocorrência, logo na sequência, do feriado do carnaval – um feriado de cinco dias no qual dificilmente as pessoas ficarão isoladas. O carnaval termina dia 02/03 e, dez dias depois, prevê-se a retomada das aulas presenciais. Nesse sentido, adiar quatro semanas o retorno às aulas, aumenta as chances de que a volta se dê em um momento mais propício.”


Aluno do primeiro semestre de Administração de Empresas


[O que você acha do adiamento no retorno das aulas presenciais anunciado hoje pela FGV?]


“Eu discordo completamente da decisão de adiamento das aulas presenciais [...] Enquanto vemos, por todo o Estado de São Paulo, a liberação de festas, restaurantes com capacidade máxima e eventos em estabelecimentos fechados, a instituição escolhe realizar a educação, principal alicerce para a formação do indivíduo, de forma online. Outras escolas pelo Brasil e pelo mundo optaram pela efetivação de aulas presenciais respeitando as regras sanitárias impostas em suas respectivas regiões, proporcionando um ambiente seguro para o corpo docente e o alunato, de modo a tornar o ensino mais efetivo e proveitoso em comparação ao online. Espero que a FGV leve em consideração as manifestações dos alunos e exemplos de outras instituições, porque todos ansiamos pela volta presencial das aulas o mais rápido possível.”


[Como você avalia a comunicação da FGV em relação a esse retorno?]


“Acredito que o comunicado sobre o adiamento das atividades presenciais poderia ter sido feito de maneira mais antecipada. Digo isso não apenas por mim, mas por colegas que não são da cidade de São Paulo e já haviam alugado residências para irem presencialmente à faculdade. Seus planos e mudanças devem ser subitamente revertidos ou postergados devido a decisão de adiamento e, dessa forma, são muito prejudicados.”


Aluna de Administração de Empresas do quinto semestre


[O que você acha do adiamento no retorno das aulas presenciais anunciado hoje pela FGV?]


“Eu sou completamente contra esse adiamento por uma série de motivos. O primeiro é a forma com que ele foi feito, de modo muito repentino [...] as pessoas que se matricularam o fizeram com a garantia de que haveria esse ensino presencial, e o pronunciamento do atraso de 14 dias, dois dias após da matrícula, foi uma atitude de muita má-fé que prejudicou bastante gente que já tinha fechado contratos e agora está gastando uma grana para não ter o ensino com a qualidade que foi prometida.


Tem pessoas que trancariam o curso, caso fosse online, e eles [a FGV] impediram qualquer oportunidade de escolha a esse respeito por terem feito o anúncio após a matrícula. [...] vai na contramão de várias outras instituições [...], como o Insper, que desde o ano passado vem retomando o presencial através do ensino híbrido de forma muito mais efetiva. Isso é importante para a vivência dos alunos, para a saúde física, psicológica, para o aprendizado e o networking.


O fato de você ir para a faculdade é um dos fatores que agrega no curso, se eu quisesse eu estaria pagando para estudar online. Alguma hora a gente vai ter que se mexer, os trabalhos estão presenciais, restaurantes, eventos, por que a nossa educação não está? [...] Acho, inclusive, que seria muito legal fazer como a ESPM fez, que anunciou até certa data o híbrido para as pessoas irem se programando, e a partir de certo momento o estudo presencial. [...]”


[Como você avalia a comunicação da FGV em relação a esse retorno?]


“[...] muito escassa. Eles não nos escutam [...] sempre mandam e-mails muito em cima da hora, não têm uma preparação, não se mostram abertos à negociação. [...] acho uma comunicação muito ruim, tanto com a secretaria em geral, quanto com a coordenação.”


Aluno bolsista de sétimo semestre em Administração de Empresas


[O que você acha do adiamento no retorno das aulas presenciais anunciado hoje pela FGV?]


“A FGV tem alunos de diversas características, que moram na região da Bela Vista, no interior e que moram longe da faculdade, que é o meu caso. Hoje eu moro a 37 km de distância da faculdade e utilizo transporte público, gastando em média 2,5 horas para chegar na faculdade. [...] a demanda de cada aluno é diferente.


A minha opinião é de que as aulas têm que ser híbridas, pois eu, como bolsista, não tenho condições de ir para a FGV no transporte público sem ter o risco de ser contaminado pelo Covid [...] o problema maior do retorno é que a GV pode ter um controle dos alunos, mas o percurso que eu utilizo até a chega da GV é distante, no qual eu corro o risco de ser contaminado por pessoas que não passaram por um controle sanitário [...].”


[Como você avalia a comunicação da FGV em relação a esse retorno?]


“Acredito que a GV comunicou com antecedência, mas poderia ter esperado as aulas iniciarem no remoto e depois ter publicado um parecer, pois muitos alunos organizaram seus horários de forma a fazer no online em algum momento”


[...] “de certa forma eu escolho as minhas matérias ponderando se vão ser presenciais ou não [...] não tem como eu escolher matérias para ser no presencial até às 23h, pois não conseguiria chegar em casa, já que o transporte público vai mais ou menos até meia noite.”


[...] “se voltar presencial, a GV ainda não consegue comunicar para a gente quais vão ser as políticas além de usar máscaras e distanciamento. Não há uma política de avaliação” [...] “se o aluno pega Covid, haverá um período que ele ficará em isolamento. Como ele será avaliado pelos professores?”


Aluno Administração de Empresas, residente fora do estado de SP, no quinto semestre


[O que você acha do adiamento no retorno das aulas presenciais anunciado hoje pela FGV?]


“Foi um completo descaso da coordenadoria da FGV. A gente já espera voltar presencialmente há muito tempo, já estou no quinto semestre e já são mais de dois anos quase 100% online. E o aprendizado nunca é o mesmo, acredito que os alunos da FGV vão sair muito menos preparados para o mercado de trabalho por causa desse tipo de situação e o adiamento de hoje foi o estopim, após vários outros que a gente aceitou passivamente, o de hoje gerou um pouco mais de insatisfação, e justamente.”


[Como você avalia a comunicação da FGV em relação a esse retorno?]


“É extremamente péssima. Eles não se planejam, adiam com pouca antecedência, então uma semana antes vão lá e falam ‘as aulas do dia 14 [de fevereiro] foram suspensas’ sendo que eu, que não moro em São Paulo, já comprei passagem, pago aluguel tem quase dois anos e só passei 4 meses aí no máximo tendo praticamente uma aula por semana no semestre passado. É um completo descaso.”


Aluno de Direito no sétimo semestre e bolsista


[O que você acha do adiamento no retorno das aulas presenciais anunciado hoje pela FGV?]


“[...] é uma medida necessária. [...] o alvoroço dos alunos me surpreendeu, já que essa foi uma medida tomada por outras faculdades e universidades de São Paulo. Para mim, é importante considerar que a logística de centenas de alunos depende de dezenas de funcionários que também são de responsabilidade da FGV. Voltar às aulas presenciais agora implicaria tanto colocar em risco a saúde desses funcionários, quanto a própria manutenção das aulas na instituição [...].”


[Como você avalia a comunicação da FGV em relação a esse retorno?]


“[...] me incomoda a imprevisibilidade da instituição. Se, por um lado, o cenário é ainda pouco previsível; de outro, a comunicação da coordenação com os alunos poderia ser menos ruidosa e uniforme. Uma possibilidade seria apontar datas em que decisões seriam revistas de modo a conferir maior confiança e proximidade com a instituição, bem como estabilidade para os alunos se programarem. Outro ponto que poderia melhorar é entender quem define as políticas das escolas, em um momento parece que elas têm autonomia nesse ponto, em outro a decisão parece ter sido tomada por ‘algo’ superior a elas.”


Resultado do movimento até então

Apesar do protesto presencial que ocorreu na segunda-feira de hoje, a FGV EAESP manteve-se, até o momento, na posição de dar início às aulas presenciais apenas no dia 14 de março. Em um novo comunicado publicado hoje de manhã, a instituição explicou em maior detalhe a sua decisão de manter as aulas totalmente online, reiterando que estão levando em consideração a "preservação da vida”, o “princípio da precaução” e os “fatos concretos evidenciados nos indicadores mais recentes referentes à vida”. “[...] passado o pico de mortes previsto para meados de fevereiro e decorrido o prazo de quarentena do feriado do carnaval, o cenário deve ser bem mais positivo para estarmos de volta, presencialmente, no dia 14/03”.




Autores: Gabriel Linares e Gabriel Santos

Revisão: André Rhinow e Guilherme Caruso

Imagem de Capa: Instagram @presencialgv


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