XÍCARA DE CAFÉ



Numa manhã dessas de isolamento, acordei e tomei café da manhã, como de costume. Literalmente tomo um café, aliás, como faço quase todos os dias, desde o começo da quarentena. Nessa tomada de café, pela primeira vez, reparei que meu dedo não cabe no buraco da asa da xícara. Já viram essas xícaras, com asinha tão minúscula que você usa seus dedos de pinça para tomar um gole? Eu tomo café todo santo dia, nessa xícara. Como pode meu cérebro nunca ter reparado numa coisa dessas?


Passei os próximos minutos incomodado, mas por sorte, meu cérebro rapidamente redirecionou minha atenção para outra coisa. As escolhas que o cérebro faz são bastante curiosas, parece até que ele está incomodado de ser o tema de meus pensamentos. Aliás, aí está mais uma coisa que meu cérebro não me permitiu reparar até mais recentemente: o fato de eu tratar do meu cérebro na terceira pessoa. Eu gostava de pensar que sou meu cérebro, controlando todo o resto do meu corpo. Mas essa coisa da xícara de café… estou controlando ou estou no time das partes controladas, junto com o resto do meu corpo?


Demorei algum tempo pra admitir pra mim mesmo a existência de uma coisa que tem influência direta sobre meus pensamentos e decisões, mas que não sou exatamente eu. Pra ser sincero, as vezes sinto que estou apenas me assistindo conversar, ou me assistindo escrever, afinal, não sou eu quem escolho meticulosamente cada palavra dos meus textos. Modéstia a parte, eu tenho uma biblioteca na cuca com uma porção de sinônimos para a maior parte das palavras que uso, e, antes de usá-las, eu não vasculho que palavras eu poderia usar em cada situação - algo simplesmente filtra cada palavrinha que parece mais adequada para expressar aquilo que eu quero. Ou aquilo que eu penso que quero, ao menos.


Essas ideias não são minhas, são de Nietzsche ou de Freud, se é que eu li bem nas páginas da Wikipedia. Conceitos de subconsciente/inconsciente são amplamente conhecidos e bastante difundidos, aliás em filmes que se popularizaram quase inteiramente por tratar de assuntos da consciência, como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Na verdade, é bastante comum assistir filmes ou ouvir músicas que retratam esse embate entre o personagem e sua própria mente.


Uma das frases mais famosas de Freud sumariza exatamente a angústia daquilo que realizei tomando café: “o eu não é senhor em sua própria casa”. Não controlamos por completo aquilo que se passa na nossa cabeça, quais memórias vêm à tona, que elementos da realidade nos prendem atenção. Na verdade, não consigo mais tomar café naquela xícara sem reparar no tamanho irritante daquele buraco.

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