YOGA: A FILOSOFIA DA PRESENÇA E DA INCLUSÃO


Por Dora Cavalcanti


Que a prosperidade seja exaltada

Que os governantes governem com justiça

Que o conhecimento e a divindade sejam protegidos

Que todos os seres do mundo sejam felizes e livres

Que haja paz, paz, paz

(Mangala Mantra, em uma das suas possíveis traduções)


A Yoga é uma prática milenar, de origem indiana. É possível realizá-la em um espaço pequeno, sem precisar de outros materiais além do seu corpo, e também é muito adaptável a capacidades corporais diferentes. Assim, a Yoga é — ou deveria ser — muito acessível. Para entender mais sobre o assunto, conversei com o ex-bailarino Luciano Rios, que hoje é um dos sócios do Estúdio Todocorpo, e com Vanessa Joda, que, além de amiga de Luciano, é formada em administração e criou o espaço Yoga para Todes. Os dois são professores de Yoga e pautam a diversidade em suas aulas.


Luciano foi bailarino por mais de 20 anos. Conta que sempre foi viciado em exercícios e, hoje, identifica que talvez tenha tido alguns transtornos de imagem que não foram diagnosticados. A vigorexia, ou o transtorno dismórfico muscular, por exemplo, é a preocupação constante com o corpo e com o desenvolvimento muscular, levando à prática exaustiva e potencialmente prejudicial de exercício físico, além de práticas alimentares extremamente restritivas e uso de anabolizantes. Luciano treinava muitas horas por dia e tinha um Índice de Massa Corporal (IMC) de subnutrição. Em sua família, era o “filho bicha”: seu avô e seu irmão eram jogadores de futebol, enquanto ele amava dançar. Em 2006, começou a praticar Yoga e, dois anos depois, aproveitando a facilidade em falar sobre consciência corporal, começou a dar aulas. Na mesma época, desencantou com a dança. Seu corpo já estava bem utilizado, com hérnia e problemas no joelho. Além disso, “viver de cultura e de edital no Brasil é insuportável, isso me saturou e comecei a parar de dançar”. Ele entrou na graduação de Educação Física, em que estudou a resposta hemodinâmica em relação à Yoga, comprovando que ela reduz pressão arterial e doenças cardiovasculares. Depois, mudou-se para São Paulo e voltou a dar aulas, não tendo parado desde então, sempre estudando muito e trazendo novas linguagens.


Vanessa trabalhava com comércio exterior na agência de despacho aduaneiro de sua família. “Eu venho de uma família extremamente conservadora, machista, misógina. Eu tenho um irmão gêmeo, então eu sempre cresci sabendo que ele podia fazer as coisas porque ele era homem, eu não podia fazer as coisas porque eu era mulher. Eu não escolhi a minha faculdade, meu pai e meu irmão que escolheram por mim. Eu odiava, não foi uma coisa que eu escolhi.” Ela tomou, por 12 anos, anfetaminas para emagrecer e, por mais de 20, fez dietas restritivas. Entre o descontentamento com o corpo, a frustração com a profissão e a perda do pai, Vanessa teve síndrome do pânico e foi “arrastada” por um amigo a uma aula de Yoga no Serviço Social do Comércio (o Sesc). “Eu comecei a rir, porque eu nunca pensei nessa possibilidade. Naquela época, não se falava de gordofobia, eu não me assumia como uma mulher gorda, porque eu não entendia aquilo, eu achava que meu corpo era transitório, que uma hora ele ia emagrecer, mas eu já sabia, só de olhar as pessoas praticando yoga, que não tinha um corpo igual ao meu ali. Então, eu já sabia que aquilo não era pra mim.” Mas, na aula, Vanessa sentiu um grande acolhimento por parte da professora: “parece que eu vivia totalmente fora do meu corpo e eu lembro que naquele relaxamento parece que eu voltei a habitar o meu corpo. Aquela aula fez parecer que eu tava reabitando o meu corpo, e foi a melhor sensação que eu tive na vida”. Nessa época, Vanessa começou a estudar a filosofia, resolveu mudar de vida e ser professora de Yoga. Fez um curso de formação e entendeu que, na teoria, era uma filosofia de inclusão, mas que não acontecia na prática.


O Todocorpo surgiu a partir da necessidade de falar sobre todos os corpos, em contraposição à ideia de um estúdio milionário, elitista, com “uma grande assepsia estética”. Luciano conta que, em seu estúdio, os sócios prezam pela diversidade, trabalhando para que ali tenham corpos negros, gordos, trans, não-binários e com deficiência, e que todas as pessoas se sintam confortáveis e respeitadas. A Yoga para Todes, de Vanessa, também tem a diversidade como premissa: “Yoga é esse mergulho de autoconhecimento e autocuidado. Você precisa estar num espaço seguro para isso. Imagina: você tá numa aula de Yoga e escuta o professor ou a professora ser gordofóbico, ou transfóbico. Como você vai fazer esse mergulho com segurança, tendo medo de sofrer preconceito?” Se, por um lado, São Paulo conta com esses e outros espaços que buscam acessibilizar a Yoga, por outro, a abertura e o discurso de apoio a essa diversidade não são suficientes. Luciano reitera: "A gente tá tentando democratizar essa prática, mas é um processo longo para que esses corpos se sintam confortáveis, sendo que são discriminadas o tempo inteiro”.


Tanto para Vanessa quanto para Luciano, Yoga não é esporte. O ex-bailarino e bacharel em Educação Física explica que “futebol, por exemplo, é uma prática física sistematizada, com um objetivo, com regras estruturantes e sistemas para que isso dure um tempo determinado. Todos os esportes têm esse viés. A mesma discussão também se dá com a dança, ela não é uma expressão do que está se querendo dizer, assim como a escrita, as artes visuais? Isso não é esporte”. A prática, diferente dos esportes, não é competitiva e nem voltada para espectadores externos, mas apenas para a pessoa que pratica. Para Luciano, o esporte de base é para todo mundo, mas, no esporte competitivo, que está na mídia, cada modalidade abrange um tipo muito específico de corpo, que geralmente é magro e forte, com poucas exceções.


Quando perguntados sobre a diversidade na Yoga, os professores, na contramão da exclusão estrutural de determinados corpos, foram incisivos ao dizer que a Yoga é inclusiva em sua origem, mas, ao ser trazida para o Ocidente, como contou Vanessa, “a Hatha Yoga chega através da elite, nos Estados Unidos, através das pessoas ricas que tinham dinheiro para viajar para a Índia e poder beber na fonte dessa filosofia. E aí, ela já chega deturpada aqui. Quando chega no Brasil, é através de militares, então cê imagina a merda. O que a gente pratica no Brasil hoje tá muito longe do que é a raiz dessa filosofia, porque o certo é a prática ser uma filosofia que abrange todos os corpos, mas isso não acontece. Eu sempre fui a única pessoa gorda praticando nos lugares, sempre. Nunca vi um corpo preto praticando, um corpo trans, um corpo com deficiência… E aí quando eu fui estudar a Yoga, eu fiquei pensando, porra, mas se essa filosofia é uma filosofia de inclusão, se ela vem desse movimento libertário, porque que ela só tá na mão da galera padrão, rica, branca, magra, cis-hétero, de corpo normativo? Tá errado.” Luciano conta que a Yoga “vem de uma minoria não branca e não rica, na Índia. No Ocidente, chega como prática corporal através de brancos, e, aí, há uma mudança dessa linguagem. Quando higienizam e sistematizam essa prática, ela deixa de ser abrangente. Na maioria dos estúdios, as mensalidades são elitizadas, há distância da realidade da maioria das pessoas. Não acho que a Yoga seja democrática, senão veríamos mais pessoas pretas e gordas dentro de uma sala. O problema não está na prática e, sim, em como ela é pulverizada.” Tanto Vanessa quanto Luciano abordam a representatividade ao falar de diversidade: “é muito mais prático e comum brancos, magros e cis chegarem a mim, mesmo eu sendo gay. Mas conforme isso é cada vez mais discutido, aparece uma pessoa trans, uma preta, uma gorda, porque vou falando sobre”. E, para Vanessa, a Yoga para Todes é onde ela faz sua militância, e é por isso que tem muitas pessoas gordas ali.


Vanessa contou um pouco da história dessa filosofia e nos explicou o que ela é: “a Hatha Yoga, que é a Yoga Clássica, vem de um movimento chamado tantrismo. Esse movimento é ligado ao hinduísmo, mas a Hatha Yoga não é ligada diretamente ao hinduísmo. O tantrismo foi um movimento de contracultura à era védica, que foi extremamente conservadora. Somente homens de castas mais altas poderiam praticar Yoga. E aí, a Hatha Yoga surge para falar que qualquer pessoa pode praticar, é a partir daí que as mulheres são incluídas na prática e que qualquer casta e qualquer pessoa podia praticar. Então, a Hatha Yoga é uma filosofia milenar, libertária e eu costumo até ligar ela ao anarquismo, porque ela é horizontal, libertária, e vem inserir todos os corpos na prática. Essa filosofia tem um grupo de coisas ali no meio: os asanas, que são as posturas; exercícios de respiração, que são os pranayamas; tem a meditação… É um conjunto de práticas que forma essa filosofia.”


Já Luciano traz uma definição interessante, baseada em uma possível tradução do sânscrito para a palavra Yoga: “atenção na ação”. Quem difundiu essa ideia foi Hermógenes, um dos militares precursores da Yoga no Brasil. Luciano também explica que “o passado, o presente e o futuro estão numa coisa só, é a presentificação da ação. Se você parar para pensar, dança também é yoga. O Maurice Béjart, francês, foi pra Índia e disse para um guru que era bailarino, e o guru falou ‘você já faz yoga’.” Para o professor, Yoga pode ser o ato de cortar um legume, ou de ler um livro.


Ouvir Luciano, Vanessa e outras pessoas que empenham seus esforços para criar ambientes diversos, acolhedores e respeitosos para a prática é fundamental. Muitas vezes, adotamos e reproduzimos discursos em prol da diversidade, mas sem trazê-la como prática para nosso cotidiano e para nossa vida profissional. Os dois entrevistados são exemplos muito simbólicos de luta pela diversidade na profissão, na educação e na prática de Yoga, além de mostrarem, com suas histórias, mudanças de profissão e de vida a partir da filosofia. Que cada vez mais a Yoga possa ser acessível e um ambiente para representatividade, e, assim, levar outras práticas, como a dança e os esportes, para um ambiente mais atual e cada vez menos opressor, considerando todos os corpos.


Revisão: Bruna Ballestero e Letícia Fagundes

Imagem de capa: Gustavo Carvalho

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