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Cultura

60 anos de Revolver: o álbum que reinventou os Beatles

Em comemoração aos 60 anos de seu lançamento, Pedro Anelli traz uma resenha de Revolver, álbum revolucionário dos Beatles

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Pedro Anelli Bastos

14 min de leitura

19 de agosto de 2026

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1966 foi um ano singular. Para além das tensões políticas envolvendo as ditaduras na América Latina e a Guerra do Vietnã, um campo que mais se destaca nessas singularidades é a cultura. Seja na moda, por meio do surgimento do Swinging London ou dos movimentos hippies, no cinema, com movimentos que mudariam para sempre a perspectiva da sétima arte e, principalmente, na música, 1966 foi um ano revolucionário. É nesta última categoria, entretanto, que encontramos as maiores mudanças.


Em 1966, o mundo da música via uma inovação a cada segundo. Os Rolling Stones lançaram seu aclamado disco Aftermath, que contém as clássicas Lady Jane e Paint it Black; Bob Dylan lançara Blonde On Blonde, primeiro disco duplo da história do rock; Os Yardbirds e os Monkees entravam em cena com hits instantâneos; Os Beach Boys lançaram o aclamadíssimo Pet Sounds, saindo do surf rock tradicional da banda e explorando técnicas de composição, arranjo e produção que redefiniram toda a indústria musical da época – produto do gênio de Brian Wilson, membro da banda. Diante de todas essas novidades, é claro que a maior banda de todos os tempos não ficaria de fora.


Naquele tempo, os Beatles já estavam passando por mudanças. Em primeiro lugar, a mais marcante: cansados da rotina exaustiva de turnês e dos gritos infinitos das fãs, que os impedia de ouvir o que eles mesmos estavam tocando no palco, tomaram a decisão de parar de se apresentar ao vivo. Isso permitiu que eles pudessem explorar muitas técnicas de estúdio diferentes sem se preocupar com o “como vamos fazer isso ao vivo?”. Além disso, os membros da banda passavam por mudanças em suas vidas pessoais. Paul McCartney passara a estudar mais profundamente as ramificações da arte moderna, além de estar em maus bocados em seu relacionamento com a atriz Jane Asher. John Lennon e George Harrison aprofundaram ainda mais seus experimentos com o LSD, após serem apresentados ao composto pelo dentista de Harrison. George, inclusive, aventurou-se ainda mais na cultura indiana, adotando tradições do hinduísmo e tomando algumas lições de cítara com Ravi Shankar. Para além das vivências pessoais, a banda se envolveu em polêmicas, principalmente com o público americano, após a fala de John Lennon de que os Beatles seriam “mais populares que Jesus”. Por mais que o artista tenha se retratado logo em seguida, isso impactou fortemente não somente a banda, mas também o próprio Lennon, tendo sido utilizada como justificativa para Mark Chapman ter atirado no ex-beatle em 1980.


Motivados por suas vivências recentes e pela competitividade intrínseca de McCartney, que desejava desbancar Pet Sounds, dos Beach Boys, e guiados pelo clima de revolução, os Beatles se juntaram nos estúdios Abbey Road mais uma vez, e, dessas sessões, surgiu Revolver. Lançado em 5 de agosto de 1966, o álbum é, até hoje, considerado por muitos como “o melhor álbum de todos os tempos”, e representa o produto definitivo do contexto no qual surgiu. O título brinca, justamente, com a arma revólver: aquele disco seria o responsável por disparar o gatilho de inovação e revolução que marcaria o final dos anos 1960. A capa do álbum reflete a psicodelia: elaborada por Klaus Voormann, amigo do Quarteto de Liverpool desde os tempos de Hamburgo, mistura desenhos com fotos reais, passando uma visão de viagem bem legal.


Partindo para as faixas, o álbum abre com Taxman, escrita por um George Harrison enfurecido com a política de impostos do Reino Unido. Naquele momento, os Beatles estavam começando a ganhar mais e mais dinheiro, e, fazendo as contas, Harrison percebeu que quase 90% do que eles ganhavam era convertido em impostos para a Coroa. A letra ácida é complementada pelos instrumentos pesados e distorcidos, com destaque para o solo agressivo tocado por Paul McCartney.


Em sequência, o disco coloca um dos maiores clássicos da banda: Eleanor Rigby usa a história de uma senhora solitária que falece e não recebe ninguém em seu funeral além do padre que conduz a cerimônia. A música, entretanto, aborda a solidão e a tristeza que vem com ela – bem diferente do yeah yeah yeah romântico de alguns anos atrás. McCartney narra que o nome Eleanor Rigby veio da junção de nomes entre a atriz Eleanor Bron, que trabalhou com a banda no filme Help! (1965), com uma loja de vinhos em Bristol chamada Rigby & Evans Ltda. A coincidência vem quando, alguns anos mais tarde, foi descoberto um túmulo de alguém chamado Eleanor Rigby em um cemitério de Liverpool, no qual Paul costumava passar tempo quando adolescente, trazendo uma camada de mistério para a música. Outra curiosidade é que essa é a primeira música dos Beatles na qual nenhum deles toca algum instrumento. As vozes de Paul, John e George são acompanhadas por um octeto de cordas conduzido por George Martin, maestro e produtor da banda.


Após, I’m Only Sleeping vem num ritmo arrastado, quase sonolento. Lennon apresenta uma narração justamente sobre preguiça, a falta de vontade de levantar da cama e seguir o dia. Muitos fãs colocam essa faixa dentro de uma espécie de “trilogia musical” que se inicia com Help!, do álbum homônimo de 1965, se desenvolve aqui, e ganha continuidade em I’m so Tired, do chamado “Álbum Branco”, de 1968, e que descreve um quadro depressivo se agravando aos poucos. Não há manifestação oficial sobre isso, mas, na minha opinião, é uma ótica interessante. Em questões de produção, os Beatles inovam mais uma vez com um solo de guitarra invertido: George Harrison tocou as notas em um ritmo, porém o que foi para a versão final foi a fita invertida, dando essa impressão arrastada que casa bem com o clima da faixa.


Seguindo, Love You To apresenta um Harrison se aventurando ainda mais na música indiana e na cultura hindu, e representa uma tentativa ainda mais forte de colocar elementos não-ocidentais na música pop. A letra trata de amor, porém de forma mais transcendental, como uma espécie de força mística, com uma forte influência das filosofias orientais, foco de estudos do compositor.


Em sequência, Paul McCartney apresenta uma das músicas mais românticas da carreira dos Beatles. Here, There and Everywhere é uma balada fortemente inspirada por God Only Knows, clássico dos Beach Boys presente em Pet Sounds, e é considerada por muitos como a melhor faixa do álbum. Os instrumentos são impecáveis, e a voz de McCartney toma um tom quase angelical cantando alguns dos versos mais lindos da banda. 


Logo depois, a banda mostra um de seus maiores clássicos, conhecido por quase qualquer ser humano vivo. Yellow Submarine iniciou como uma composição de Lennon em um tom bem mais dramático e sombrio, provavelmente um protótipo do que viria a ser Strawberry Fields Forever, lançada no ano seguinte (a gravação original, apenas voz e violão de John, está disponível na versão Deluxe do álbum!), até ser modificada por Paul para ter uma pegada mais infantil. Quem assume os vocais é Ringo Starr, e, ao final, muitas vozes se juntam ao coro de “We all live in a Yellow Submarine!”, como Pattie Boyd, esposa de George Harrison, e Brian Jones, multi-instrumentista dos Rolling Stones.


Fechando o lado A, John Lennon apresenta She Said She Said, pra mim um dos melhores trabalhos da banda. Num tom completamente psicodélico, a música foi inspirada numa viagem de ácido que ocorreu numa festa em 1965, na qual o ator Henry Fonda começou a contar uma história de quando seu coração parou por alguns minutos quando criança. Inspirado na maluquice de ouvir isso enquanto chapado, John apenas trocou “He” para “She”, e fez um estouro psicodélico. Além da letra, os instrumentais também se destacam demais: as guitarras pesadas, distorcidas, num riff insano, e a bateria explosiva de Ringo Starr, que, na minha opinião, é um dos melhores trabalhos do baterista (seguido de Rain, que saiu como single promocional do álbum), são destaques. Ainda na composição, a canção arrisca uma mudança de tempo de 4/4 para 3/4 no meio da música, dando um toque a mais para os nerds de ritmo.


Inspirado na banda americana The Lovin’ Spoonful, Paul abre o lado B com Good Day Sunshine, uma balada otimista só com bateria e piano que revigora a tristeza de qualquer um. O destaque instrumental aqui vai, na minha opinião, para o solo de piano tocado por George Martin. É a faixa perfeita para aqueles dias em que nos sentimos para baixo e precisamos de um toque de alegria extrema para nos ajudar.


Logo em seguida, John apresenta And Your Bird Can Sing, um dos melhores trabalhos de guitarra da história do rock. Em alguns momentos, as guitarras de Paul e George tocam em harmonia. Em outros, duelam entre si. Essa dicotomia dá arrepios para qualquer fã do gênero. A letra é enigmática, tendo diversas fontes de inspiração, mas, em suma, trata da sensação de estar preso e do sonho de liberdade do homem moderno.


Em contraste com sua composição anterior, Paul McCartney agora apresenta For No One, inspirado pelo momento de seu relacionamento com Jane Asher. Se em Here, There and Everywhere o amor reinava, este é o completo oposto. A música trata do término de um relacionamento, em que o personagem principal continua preso ao passado e amarrado a uma mulher que já não o quer mais e seguiu a vida sem o antigo parceiro. Um dos melhores trabalhos líricos de McCartney, que infelizmente dura menos de dois minutos, sendo a música mais curta do álbum, porém não menos poderosa.


Em sequência, John apresenta Dr. Robert, música que puxa muito do rock n’ roll clássico, misturado com uma pitada de psicodelia. A letra fala, é claro, do Dr. Robert, médico que receita alguns remédios “diferenciados” para seus pacientes ficarem alegres, se é que me entendem. Não se sabe ao certo se há alguma inspiração real para o tal Dr. Robert, mas a música é bem animada e traz um ritmo groovy bem interessante.


Pela primeira vez, George Harrison consegue espaço suficiente para apresentar sua terceira composição em um álbum dos Beatles. I Want To Tell You fala sobre a dificuldade de comunicação do músico, apelidado pela imprensa e pelos fãs de “Beatle Quieto”. A música traz instrumentos propositalmente destoantes em seu ritmo, com um piano alternando em contratempos, para justamente ilustrar o descompasso de comunicação que o Beatle sentia dentro da própria mente.


Após, Paul McCartney apresenta Got To Get You Into My Life, composta após o beatle assistir a um show de Stevie Wonder naquele ano. Segundo o próprio Paul, a letra trata de um “ode à maconha”. Diferente de John e George, Paul nunca foi o maior fã das viagens de ácido, e preferiu ficar no colega natural apresentado por Bob Dylan em 1964. O som animado, acompanhado por trompetes, dá um tom otimista ao álbum, semelhante, na minha opinião, a Good Day Sunshine.


Fechando com chave de ouro, a banda apresenta sua maior inovação musical de todas: Tomorrow Never Knows foi a primeira faixa a ser gravada, ainda em abril de 1966, e é um amálgama de psicodelia sem precedentes. A bateria explosiva de Ringo Starr se soma à letra reflexiva de John Lennon, e ambas são complementadas pela instrumentalidade completamente experimental: o ritmo é guiado pelo áudio invertido e distorcido de um quarteto de cordas regido por George Martin, e é complementado por um solo invertido gravado por George Harrison. O som de gaivota que aparece de vez em quando na faixa é, na verdade, uma gravação de Paul McCartney rindo distorcida para ficar o mais aguda possível. Já não é novidade que não existiria música pop como conhecemos hoje sem os Beatles, mas é nessa faixa que a maioria das técnicas de produção que moldaram o mercado surgem pela primeira vez. Na minha opinião é uma obra-prima à parte, e de longe a melhor faixa do álbum.


Revolver é um álbum difícil de se resumir. Sou suspeito para falar, pois é meu álbum favorito da minha banda favorita, mas, de qualquer maneira,  sua influência é inegável. Existe uma música pré e pós-Beatles, e existe uma música pré e pós-Revolver. Depois daqui, nada mais foi o mesmo. É um álbum simplesmente perfeito, que se reinventa a cada segundo. Diverso, agrada todo tipo de público, mas fica bem melhor para os fãs de rock psicodélico. Revolver reinventou os Beatles, a música, e a cultura pop em geral. Não há melhor descrição, além de simplesmente “obra-prima”.


Imagem da capa: Spotify

Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira e Equipe de Revisão

Escrito por

Pedro Anelli Bastos

Há 1 ano na Gazeta

Estudante de Direito na FGV, sou Diretor de Revisão, redator e membro de Recursos Humanos na Gazeta. Apaixonado por livros, música, filmes e natureza :)

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