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Poder e Política

A cidade que nunca saiu do papel

O texto busca entender como a capital do país, atualmente, não significa e não relembra em nada aquilo que foi desenhada para sustentar.

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Arthur Visconde

13 min de leitura

27 de março de 2026

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Brasília. Localizada no centro geográfico do país. Uma tentativa do Brasil de fugir do incessável regionalismo que beirava sua estrutura econômica e política. Um aceno brasileiro para a modernidade. Um ideal de um país mais igual. Desenhada para sustentar sobre concreto as bases de uma democracia ainda frágil. Onde os três poderes seriam exercidos fluidamente, harmoniosamente. Onde o executivo seria um guia para o povo. O congresso, representativo. A justiça, cega. Arquitetada para comandar um novo país rumo à ordem e ao progresso.

 

Pensando assim, até se pode entender Brasília como um ideal que poderia facilmente ter sido retirado de um ensaio entre Clístenes, Péricles e Rousseau. Por que, então, 65 anos depois da sua construção, a casa institucional do governo nacional é sinônimo de atraso, de disruptura entre povo e política, de corrupção e de desordem? Como o desenho da estrutura política nacional não corresponde a uma prática ideal?

 

Parafraseando Marx, a política brasileira é construída através da luta de ideologias pautadas por dois principais traumas nacionais – considerados de maneira antagônica por cada ideologia. Toda narrativa da esquerda brasileira parece se basear na justiça social, na democracia e no liberalismo social, muito pautados no trauma que o governo militar instaurou dentro da estrutura dessa ideologia. Enquanto isso, toda narrativa da direita nacional parece se basear no conservadorismo ideológico, no liberalismo econômico e no desenvolvimentismo, pautados, principalmente, no combate ao trauma que o governo do PT representou para esse grupo político. Aqueles que não necessariamente se enquadram em nenhum desses grupos – por falta de concordância ou por não possuir poder político suficiente para impor sua ideologia – apenas se alinham à ideologia que domina a narrativa política do momento.

 

O impacto do Regime Militar dentro da esquerda parece ser o alicerce das ações desse grupo até os dias atuais. “O ato público está proibido [...] tá todo mundo preso”; “A censura é um mal necessário para preservar a revolução”; “Às favas, senhor presidente, todos os escrúpulos de consciência”; “O Brasil é uma democracia, mas uma democracia relativa”. Essas frases, propagadas por autoridades do regime, parecem representar bem como a ditadura construiu um fantasma no histórico político nacional. Perseguindo, torturando e matando, principalmente, adeptos do movimento esquerdista – dentre os quais, alguns, se tornaram líderes da ideologia posteriormente – os militares, de certa forma, declaram guerra à ideologia esquerdista. Suas armas, muito simples e efetivas: censura, fim das eleições diretas, violência física e psicológica, fim da liberdade de expressão e fechamento do Congresso. O impacto foi grande. Não é à toa que a narrativa esquerdista se baseia em reviver essa memória obscura do passado nacional. Na última eleição, por exemplo, a esquerda buscou muitos de seus votos apelando para um perigo iminente de repetição desse passado, praticamente baseando sua campanha na promessa de proteção do povo contra essas “armas” dos militares. Além disso, muitas das pautas trazidas hoje por políticos desse grupo possuem a ditadura como um certo motivo para serem discutidas. Logo, de certo modo, o regime militar, de tão impactante que foi, instaurou um trauma cujo qual a ideologia contrária parece basear suas movimentações políticas.

 

O governo do PT, por sua vez, parece ter impacto similar dentre os adeptos da ideologia de direita. Esse período econômico-político que se alastrou por mais de uma década representou, principalmente, um período marcado por escândalos de corrupção e má administração dentro da estrutura governamental, especialmente no que tange os poderes executivo e legislativo. O esquema criminoso, revelado pela Operação Lava Jato conduzida por Sérgio Moro, evidenciou ao povo diversas sujeiras e crimes, estruturados durante o governo petista, debilitando a percepção pública e a aprovação do governo. Juntamente com isso, o período de recessão severa da economia brasileira, durante a segunda metade do governo Dilma, estabeleceu, também, um problema econômico e político tão severo que culminou no início e consolidação de um processo de impeachment da presidente. Entretanto, a deposição do governo não foi o que simbolizou o fim desse período político. Esse título para a direita só se consagrou em 2018 quando Sérgio Moro oficializou o pedido de prisão do ex-presidente Lula, dando um ponto final – que posteriormente pode ser considerado uma mera vírgula – na época petista. Tais movimentos culminaram na reerguida da direita brasileira que conseguiu ocupar a cadeira da presidência pela primeira vez no século com a ascensão da base eleitoral de Jair Bolsonaro, em 2018, cuja campanha e governo se baseou, em certa proporção, em uma propaganda antipetista.

 

Durante o governo do ex-militar, a direita também se preocupou em criar um ambiente polarizador severo na política nacional, demonizando todos aqueles que se enquadravam dentro da ideologia esquerdista. Enquanto isso, a própria esquerda fez questão de responder de maneira similar, não tão radical, a esses ataques vindos da ideologia contrária. O cenário estava pronto para um grande embate, ainda mais com a anulação da prisão de Lula, o âmbito político estava mais que dividido, estava violento, inabitável, a decisão seria tomada nas urnas. Lula e Bolsonaro. O trauma militar contra o trauma petista. Dois extremos do espectro político. Uma eleição que decidiria o rumo futuro do país. O resultado? Uma das disputas mais acirradas e polêmicas da história da democracia nacional.

 

         Lula venceu com 50,9% dos votos sendo eleito pela terceira vez presidente da república. Bolsonaro e a sua oposição não aceitou a votação, desferindo insultos ao sistema eleitoral brasileiro, ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e seu presidente regente Alexandre de Moraes, intriga que durou exatos 70 dias até o estopim no dia 8 de janeiro de 2023. Com Lula já empossado, a oposição bolsonarista toma as ruas e ataca prédios públicos da União em uma manifestação que culminou em 1430 prisões. Mais importante que isso, o ato simbolizou, juntamente com as operações Punhal Verde e Amarelo e Copa 22, uma tentativa de “golpe de estado” e “abolição violenta do Estado Democrático de Direito”. Evidenciou também a completa barbárie que se tornou a política nacional no que tange o poder Executivo. Uma estrutura insalubre e doentia formada através de um longo conflito ideológico que calhou de explodir inevitavelmente. O Executivo que deveria ser um guia do povo para com o país se transformou em um campo de guerra, arquitetado por extremos, onde o povo guerreia, sem nenhum tipo de salvação ou chance de vitória.

 

       E aqueles que não se enquadram nesses grupos ideológicos de maneira direta? O centrão. O vírus que domina o Congresso brasileiro. Um conjunto informal de parlamentares de partidos políticos definidos que domina o poder Legislativo ocupando a maioria das cadeiras da Câmara dos Deputados, principalmente após a redemocratização brasileira em 1988.

 

         Um grupo que se autogoverna. Que captura a estrutura estatal e o funcionamento público para favorecimento particular. Uma característica primordial da política nacional. Desde os primórdios do sistema governamental brasileiro sempre existiram aqueles que utilizavam do escopo público para satisfação privada. De acordo com o ensaio de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, tal característica patriarcal deriva das características coloniais brasileiras e se estenderam desde então através do parlamentarismo imperial e coronelismo republicano, por exemplo. Entretanto, durante esses períodos, essa manifestação privada dentro da máquina pública foi de certa forma escondida e sorrateira, enquanto na atualidade parece que esse conjunto nem sequer tenta esconder a captura do Estado. A PEC da Blindagem, a necessidade quase eterna de o Executivo satisfazer vontades advindas do Legislativo, a compra de votos para aprovação de projetos de lei no Congresso são algumas das maneiras explícitas em que o Centrão atua dentro da estrutura política nacional. Consequentemente, o poder Executivo, já completamente debilitado pelo ambiente polarizado, no que tange a governança nacional, se encontra permanentemente subordinado a um conjunto majoritário do poder Legislativo o que torna o país, caso não haja um casamento político entre ambos os poderes, ingovernável. O poder que deveria administrar à vontade do povo se torna obrigado a atuar de acordo com vontades particulares que supostamente foram eleitas de acordo com o povo, e é isso que torna a dissolução desse grupo extremamente difícil.

 

     O populismo é um dos fatores cruciais para que esse sistema corrupto se estabeleça. Advindo, principalmente, da ignorância popular em relação ao funcionamento governamental, o populismo transforma de fato o sistema eleitoral em um “concurso de beleza”. Vence aquele mais arrumadinho, com o discurso mais popular, com a voz que o povo que ouvir ou com mais seguidores nas redes sociais. Em que outro país do mundo se elegeria personagens como Tiririca, Romário, Bebeto, Celso Russomano e Alexandre Frota? Somente em um país que não liga ou pelo menos não busca saber, mesmo no nível mais baixo, o funcionamento do governo nacional. Tal caráter da população advém tanto de ignorância proposital quanto involuntária. Sim, é verdade que muitas pessoas não buscam nenhum tipo de entendimento público, mas a grande maioria dessas simplesmente não tem oportunidade de aprender, o que parece ser ótimo e pensado pelo Centrão, mantendo-se eternamente no poder.

 

       Dessa forma, a política nacional vira um ciclo vicioso. Sempre pautada em troca de favores, rachadinhas, desvios de orçamento público e superfaturamentos. O Estado se torna um circo para a democracia, onde aqueles eleitos pelo povo se governam e parecem que fazem questão de mostrar isso para a população geral, porém a maioria parece assistir de olhos fechados ou tapados.

 

         O STF também enfrenta um problema estrutural: a ascensão de sua descredibilidade. A casa jurídica do Estado que deveria defender imparcialmente a Constituição e ser um ponto de equilíbrio entre os três poderes parece cumprir de forma a realizar as duas tarefas imperfeitamente. Em relação a sua imparcialidade, o debate sobre a presença de viés dentro da Corte ganhou muita ênfase principalmente durante e após o governo de Jair Bolsonaro. Entidades civis, como a OAB-PR (Ordem de Advogados Brasileira do Paraná), já manifestam insatisfação com a atuação do Supremo no que tange possíveis excessos e desequilíbrios em decisões judiciais. A população em geral também tende a concordar com esse argumento, principalmente a parcela bolsonarista do país, ao ponto que 54% dos brasileiros consideram ruim a atuação dos ministros em relação à imparcialidade em relação a rivais políticos, de acordo com uma pesquisa da Atlas/Bloomberg. Se tratando agora do equilíbrio entre os poderes, o STF parece se manifestar como um poder moderador, ora determinando ao Executivo políticas públicas ora dispondo-se a reescrever leis, extrapolando os direitos e missões constitucionais da casa. Desse modo, o Supremo perde exponencialmente a base de sua atuação, sua credibilidade como órgão institucional da justiça nacional, instaurando no país uma crise de confiabilidade nas instituições e nas bases da democracia.

 

         Uma cidade que deveria ser um exemplo ideal de governança e equilíbrio institucional parece nunca ter saído do papel. Brasília não conseguiu superar a estrutura da política nacional e acabou sucumbindo internamente. Uma cidade que ainda é muito ativa, mas que simbolicamente significa uma ruína. Um vestígio de um ideal democrático que deveria ter liderado o país a estabilidade econômica e política. Onde a desunião e má conduta dos três poderes instauraram um ambiente completamente inabitável. Uma arquitetura institucional perfeita, onde a engenharia nunca funcionou. Uma planta que nunca virou obra.

 

REFERÊNCIAS:


Estadão. Disponível em: <https://www.estadao.com.br/politica/maioria-avalia-negativamente-atuacao-stf-imparcialidade-entre-rivais-politicos-pesquisa-atlas-bloomberg-nprp/>. Acesso em: 27 mar. 2026.

Estadão. Disponível em: <https://www.estadao.com.br/opiniao/a-credibilidade-do-stf-em-queda-livre/?srsltid=AfmBOooQYHa3-0Cbu_MTf-VeX6qBaMqnl8fMarFYf7rwvgvsf2Hmv7Yz>. Acesso em: 27 mar. 2026.


Revisado por Ana Carolina Narios Clauss

Escrito por

Arthur Visconde

Há 4 meses na Gazeta

Aluno de Economia da EESP.

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