A ilusão da originalidade
A autora discute a influência dos algoritmos, a velocidade da circulação de referências e a construção da individualidade por meio da moda e das estéticas digitais.

Quando dizemos que gostamos de determinada música, de um filme, de um livro ou de uma peça de roupa, raramente pensamos naquilo como algo que foi aprendido. O gosto costuma ser entendido como uma manifestação espontânea da personalidade, quase como uma extensão natural de quem somos. Algumas coisas simplesmente nos atraem, outras nos repelem, e a soma dessas preferências parece formar nossa identidade. No entanto, antes de gostarmos de alguma coisa, precisamos ter sido expostos a ela e, antes de considerá-la bonita, interessante ou sofisticada, precisamos ter aprendido, de alguma maneira, a reconhecê-la como tal.
A questão ganha outra dimensão em uma época em que nunca tivemos acesso a tantas referências. A internet tornou possível atravessar diferentes décadas e geografias em poucos minutos. Podemos ouvir um disco lançado há cinquenta anos enquanto acompanhamos o desfile de uma maison em Paris, descobrir um diretor japonês dos anos 1960 através de uma recomendação no Letterboxd ou encontrar um livro por meio de alguém que vive do outro lado do mundo. O passado permanece disponível ao mesmo tempo em que o presente é produzido em tempo real, e ambos chegam até nós através das mesmas plataformas. Em princípio, essa multiplicidade deveria ampliar as possibilidades de formação de uma identidade própria, segundo a crença de que quanto maior o repertório disponível, maior deveria ser também a possibilidade de combiná-lo de maneiras particulares. Ainda assim, convivemos com a sensação de que, apesar da abundância de referências, as manifestações de individualidade parecem cada vez mais semelhantes.
A moda talvez seja o campo em que essa contradição se torna mais evidente, embora ela esteja longe de ser uma novidade. Muito antes das redes sociais, revistas, celebridades, cinema, publicidade, as próprias casas de moda já ofereciam modelos a partir dos quais indivíduos podiam construir sua aparência e parte de sua identidade. As modas sempre dependeram da circulação de referências e da tensão entre pertencimento e diferenciação. O que mudou não foi a existência desse mecanismo, mas sua velocidade e sua escala. Uma revista podia apresentar determinada maneira de se vestir e contribuir para sua disseminação entre milhares de leitoras, mas hoje uma plataforma pode colocar diante da mesma pessoa, em poucos minutos, dezenas de possibilidades estéticas vindas de épocas, lugares e grupos completamente distintos.
A diferença está também na facilidade com que essas possibilidades podem ser classificadas. Nos últimos anos, tornou-se comum transformar maneiras de se vestir em categorias reconhecíveis, acompanhadas de nomes, imagens e comunidades próprias. Clean girl, old money, coquette, office siren e tantas outras estéticas não são necessariamente criações da internet, mas encontram nela um ambiente especialmente favorável à sua organização e disseminação. Uma combinação particular de referências pode deixar de ser apenas uma escolha individual e passar a ser entendida como parte de um conjunto maior, que pode ser encontrado, reproduzido e abandonado por milhares de pessoas. A estética funciona, nesse sentido, como uma linguagem compartilhada para construir individualidade.
Essa transformação não se limita à roupa. Música, cinema e literatura também participam da construção de identidades culturais e sempre participaram. O que ouvimos, assistimos e lemos pode dizer tanto sobre nós quanto aquilo que vestimos, mesmo quando não existe uma intenção consciente de comunicar alguma coisa. A diferença é que essas referências circulam hoje em um ambiente no qual podem ser agrupadas e associadas com uma velocidade inédita. Uma banda pode ser apresentada como parte de determinada estética, um diretor pode ser associado a uma maneira específica de enxergar o mundo e um livro pode passar a integrar uma coleção de referências que representa determinado tipo de pessoa. O consumo cultural continua sendo uma experiência individual, mas as plataformas tornam cada vez mais visíveis as comunidades e os códigos que se formam ao seu redor.
Georg Simmel já havia identificado, no início do século XX, uma contradição fundamental na moda. Para ele, a moda permite simultaneamente a integração em um grupo e a diferenciação dentro dele. Vestimos aquilo que os outros reconhecem para participar de uma coletividade, mas procuramos maneiras particulares de fazê-lo para preservar uma sensação de individualidade. A moda depende dessa tensão entre imitação e distinção, e não há nada particularmente novo na existência de tendências ou na transformação da aparência em uma forma de expressão pessoal. O que torna o momento atual particular é a velocidade com que uma referência pode circular entre esses dois polos. Aquilo que começa como uma forma de diferenciação pode ser identificado, nomeado, reproduzido e comercializado em um intervalo muito curto.
A Fashion Week oferece um cenário privilegiado para observar esse processo. Os desfiles continuam funcionando como momentos em que as maisons apresentam novas direções estéticas e procuram antecipar aquilo que será desejado nas próximas temporadas, mas a coleção já não permanece restrita à experiência da passarela ou à cobertura especializada. Suas imagens são fotografadas, filmadas, recortadas e reinterpretadas quase imediatamente, enquanto determinadas peças ou elementos da coleção são transformados em conteúdo e apresentados ao público como possíveis tendências. A distância entre a criação e sua circulação diminuiu consideravelmente. Uma coleção concebida durante meses pode começar a ser absorvida pelo público poucos minutos depois de ser apresentada.
Isso também modifica a relação entre a indústria e o consumidor. A moda não funciona mais apenas como uma estrutura em que determinadas instituições estabelecem tendências e o público as reproduz posteriormente. Os consumidores participam ativamente da circulação dessas tendências através daquilo que compartilham, salvam, recriam e transformam em conteúdo. Ao mesmo tempo, as próprias plataformas selecionam aquilo que será visto com maior frequência. O algoritmo não precisa determinar diretamente aquilo de que gostamos para participar da formação do gosto. A exposição repetida a determinadas imagens, músicas, pessoas ou objetos pode torná-los familiares e, a partir dessa familiaridade, aumentar a possibilidade de que sejam incorporados às nossas preferências. Quando uma preferência se consolida, torna-se difícil distinguir completamente aquilo que encontramos por acaso daquilo que aprendemos a desejar através da repetição.
Essa lógica não significa que a internet tenha criado a influência sobre o gosto, até porque revistas, publicidade, televisão e cinema já exerciam funções semelhantes. A diferença é que o circuito contemporâneo é muito mais amplo, veloz e responsivo. Uma tendência pode ser observada, reproduzida e modificada em tempo real, enquanto os próprios mecanismos de recomendação aprendem com aquilo que escolhemos e nos apresentam novas referências a partir dessas escolhas. Isso gera um ambiente cultural em que tendências podem surgir e desaparecer rapidamente, enquanto diferentes épocas e estilos permanecem disponíveis simultaneamente. A novidade já não precisa substituir completamente aquilo que veio antes. Tudo pode retornar, ser combinado e ganhar uma nova classificação.
Essa aceleração torna particularmente interessante a relação entre gosto e autenticidade. Se nossas referências sempre vieram de fora, não existe um ponto completamente isolado a partir do qual possamos construir uma identidade sem influência. A pessoa que descobre uma banda através de um amigo, que passa a gostar de determinado diretor depois de assistir a um filme indicado por alguém ou que começa a se vestir de determinada maneira depois de encontrar uma coleção que admira não possui um gosto menos verdadeiro por ter sido influenciada. A influência não torna uma preferência falsa. Ela apenas revela que aquilo que entendemos como gosto próprio é formado a partir de encontros com outras pessoas, obras e códigos culturais.
Oscar Wilde escreveu que a maioria das pessoas é composta por outras pessoas. A frase parece especialmente adequada a uma cultura em que a construção da identidade depende de uma quantidade quase inesgotável de referências. Podemos incorporar uma década, um escritor, uma banda, um diretor ou uma maison à maneira como nos apresentamos e, a partir dessas escolhas, construir uma imagem que parece exclusivamente nossa. Mas as referências continuam sendo compartilhadas, e talvez a individualidade nunca tenha dependido de escapar completamente delas. Ela está mais próxima da maneira como cada pessoa seleciona e combina aquilo que recebeu.
Essa questão possui uma importância particular para a indústria do luxo, que trabalha justamente com a construção de significados em torno dos objetos que produz. Uma bolsa não carrega apenas seu material e sua função, assim como uma coleção não se resume às roupas que aparecem na passarela. As grandes maisons constroem seu valor também através de histórias, códigos visuais, arquivos e associações culturais acumuladas ao longo de décadas. Em um ambiente no qual qualquer estética pode circular rapidamente e ser reproduzida em diferentes níveis do mercado, essa continuidade se torna uma forma de diferenciação. A história de uma marca não pode ser criada pela mesma velocidade com que uma tendência aparece em uma plataforma.
Existe, portanto, um problema de coordenação entre a velocidade do ambiente contemporâneo e o tempo necessário para construir uma identidade duradoura. Para uma maison, isso significa encontrar novas maneiras de interpretar seus próprios códigos sem perder aquilo que a torna reconhecível. Para um indivíduo, significa construir uma identidade a partir de referências compartilhadas sem reduzi-la a uma estética pronta. Nos dois casos, a originalidade não parece depender da ausência de influência, mas da capacidade de transformar aquilo que já existe em alguma coisa que adquira um significado particular.
Aqui percebemos a principal diferença entre o presente e os períodos anteriores. Não passamos a construir nosso gosto através de referências apenas porque existem algoritmos, nem começamos agora a usar a cultura para construir uma imagem de nós mesmos. O que mudou foi a velocidade com que encontramos essas referências, a quantidade de possibilidades disponíveis e a facilidade com que elas podem ser transformadas em categorias reconhecíveis. A experiência de formar um gosto tornou-se mais rápida e, ao mesmo tempo, mais consciente de sua própria aparência.
Reconhecer esse processo pode significar compreender que o gosto nunca foi completamente separado do mundo ao nosso redor. A individualidade está menos em encontrar alguma coisa que ninguém mais conhece do que em desenvolver uma relação própria com aquilo que nos foi apresentado, distinguindo entre o que realmente permaneceu conosco e aquilo que apenas passou diante de nós com a força de uma tendência. Em uma cultura que oferece cada vez mais maneiras prontas de parecer diferente, a originalidade pode estar justamente no tempo que levamos para decidir o que, entre todas essas referências, realmente queremos chamar de nosso.
Referências
MOSS, Jack. Women’s Fashion Week S/S 2027 is coming. Here’s what to expect. Wallpaper*, 2 set. 2026.
POWELL, Alicia; KAYE, Danielle. New York Fashion Week leans into American legacy brand revival. Reuters, 3 set. 2026.
ROSA, António Machuco. A evolução e democratização da moda moderna: de Frederik Worth à fast-fashion de Karl Lagerfeld. Comunicação e Sociedade, v. 24, p. 62–78, 2013. DOI: 10.17231/comsoc.24(2013).1776.
SIMMEL, Georg. Fashion. International Quarterly, v. 10, n. 1, p. 130–155, 1904.
THE GUARDIAN. ‘Have I been influenced, or is this actually me?’ How personal taste fell out of fashion. 14 jun. 2026.
Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira
