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Cultura

A Ilusão Napoleônica de Raskólnikov

A autora reflete sobre a teoria do "Homem Extraordinário" presente no romance "Crime e Castigo"

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Lara Celani

10 min de leitura

18 de fevereiro de 2026

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O romance Crime e Castigo, um dos mais celebrados de Fiódor Dostoiévski, acompanha Raskólnikov, um ex-estudante de direito que, após cometer dois assassinatos, entra num ciclo de culpa, racionalização e colapso psicológico. No centro de sua trajetória está uma ideia que ele próprio formula em um artigo e que funciona como justificativa para seus crimes: a teoria do “Homem Extraordinário”. A teoria aparece tanto no texto atribuído a Raskólnikov quanto no diálogo com Porfíri Petróvitch, o investigador do caso, e diz que a humanidade se divide entre pessoas ordinárias – “piolhos” e “vermes”, no vocabulário do personagem – e indivíduos extraordinários, raros e grandiosos. Estes indivíduos, os “grandes homens”, seriam aqueles que reivindicam o direito de ultrapassar a lei e a moral vigentes, podendo até derramar sangue se isso for necessário para abrir caminho ao “progresso” e conduzir a humanidade adiante. Para sustentar a tese, Raskólnikov menciona figuras como Napoleão, Newton, Kepler e Maomé. A teoria, assim, não é apenas uma descrição do mundo, mas também uma autorização moral, um tipo de exceção legitimada em nome de um futuro melhor.


Entretanto, o personagem desconsidera alguns critérios importantes, algo que Dostoiévski faz de propósito, justamente para a construção do protagonista. Em primeiro lugar, a teoria falha como critério moral porque o “extraordinário” só é identificável com segurança depois do ato, mais especificamente após o sucesso, de forma que não pode ser utilizada como um guia de decisões. Em segundo, ela não aparece no romance como uma filosofia neutra, imparcial, mas como um instrumento de justificativa para os atos do personagem e que não necessariamente pode ser sempre aplicado. Assim, em vez de estabelecer limites claros para a transgressão, a teoria cria um incentivo para o autoengano e confunde êxito com legitimidade.

A ideia de “grandes homens” já é discutida há muito tempo. Thomas Carlyle via a história como uma “biografia dos ‘grandes homens’”, alegando que esses indivíduos teriam qualidades inatas para mudar o percurso da história, impondo direção aos eventos. O Übermensch (“super-homem”) de Friedrich Nietzsche pode ser aproximado do homem extraordinário de Raskólnikov na medida em que ambos evocam a imagem de alguém capaz de se colocar acima da moral herdada e criar valores próprios. Ainda que o Übermensch não seja uma permissão direta para a violência instrumental, a comparação ajuda a explicar o fascínio exercido por figuras que parecem pairar sobre a regra comum. Há algo de sedutor na promessa de ser “exceção”, alguém acima das limitações ordinárias, alguém que “pode” o que os outros não podem. Dostoiévski explora justamente esse encanto e, ao mesmo tempo, o seu custo.


Por mais que saibamos então o que define um ser extraordinário, a teoria abre dois questionamentos: quem são, afinal, os indivíduos extraordinários? E, ainda mais importante: o que acontece quando os papéis se confundem – quando um ordinário acredita ser extraordinário e passa a agir como tal? Essas perguntas parecem simples, mas tocam no ponto mais frágil do argumento, porque ele exige um critério claro para reconhecer o extraordinário e, ao mesmo tempo, cria um incentivo para que qualquer um tente se declarar um Napoleão. Se a teoria pretende ser uma regra sobre quando é legítimo ultrapassar a lei, ela precisa dizer como alguém pode saber, antes do ato, que está autorizado a fazê-lo. Caso contrário, ela vira apenas uma narrativa retrospectiva, que chama de “necessária” a transgressão que venceu.


Raskólnikov, ao apresentar seus exemplos de homens extraordinários, acaba oferecendo uma problematização. Napoleão, seu principal modelo, reúne as características que ele mais valoriza: ele transgride a lei ao utilizar a violência para alcançar objetivos que moldam o curso da história, sem remorso; ele não só tem seus atos tolerados como até aplaudidos pelo público; e ele materializa, para Raskólnikov, a pergunta central sobre “ousar ou não ousar”. Napoleão não é só um exemplo histórico, uma vez que ele atua como um espelho para o protagonista. O problema é que esse espelho não é apenas intelectual: a teoria não se limita a explicar o mundo, mas serve, especialmente, para testar uma identidade, para responder se Raskólnikov pertence ou não a essa categoria rara. O progresso da humanidade deixa de ser o principal objetivo, e a capacidade de ousar ou não se torna o foco central. Ousar, para Raskólnikov, vai além da coragem, pois é também a passagem da ideia ao ato e a pretensão de se autorizar como exceção à regra.


Ao olharmos para os demais exemplos, percebemos que nem todos operam do mesmo modo que Napoleão. Kepler, por exemplo, não derramou sangue para provar suas leis. Se tivesse cometido violência, ela teria sido aceita? Hoje, após o sucesso de suas teorias, é fácil concluir que o mundo tende a perdoar o vencedor e explicar sua violência como “custo inevitável”. Mas, em seu tempo, essa violência poderia não só deixar de ser aplaudida como ser rejeitada de modo definitivo. Logo, podemos mesmo afirmar que Kepler é um indivíduo extraordinário no sentido forte da teoria, isto é, alguém cuja transgressão seria legitimada? Raskólnikov diz que sim, mas aqui a aplicação da teoria parece depender do julgamento posterior da história, e não de um critério claro antes do ato. O extraordinário corre o risco de virar uma categoria definida pelo sucesso.


Essa diferenciação, por sua vez, se volta contra o próprio Napoleão. Teria ele os mesmos “direitos” de derramar sangue caso tivesse fracassado? Aqui, é importante destacar que, mesmo com a derrota do imperador francês, Raskolnikov ainda o considera um homem extraordinário por suas vitórias antecedentes e capacidade de alterar o curso da história. A admiração de Raskólnikov sobreviveria se a trajetória napoleônica terminasse apenas como uma lista de derrotas, sem venerações? Se a resposta for “não”, então o traço decisivo não é a capacidade de ousar nem a pretensão de abrir caminho ao progresso, mas a legitimação retrospectiva que o sucesso fornece. A teoria, nesse caso, não funda uma moral, ela apenas registra a forma pela qual a sociedade costuma batizar a violência vencedora como grandeza.

Podemos expandir essa reflexão ainda mais. Raskólnikov se apoia em exemplos de indivíduos posteriormente venerados pelo público, mas o que acontece quando alguém ousa ultrapassar a lei e a moral para atingir seus objetivos e alterar o curso da história, sem, contudo, obter aprovação coletiva? Ele ainda seria taxado de extraordinário, ou apenas um tirano? A própria teoria fica encurralada, uma vez que, se ela chama de extraordinário todo transgressor que ousa impor uma nova palavra, então ela abre as portas para justificar qualquer violência como “inovação”. Se, ao contrário, ela exige o aplauso posterior como selo de grandeza, então o extraordinário vira um produto da consagração social, não uma condição moral do ato. Seguindo essa lógica, a característica mais importante de Napoleão não seria o rompimento com a moral comum, mas o fato de ter sido celebrado. E, nesse ponto, a teoria revela não conseguir dizer por que algo é justo, apenas por que algo foi aceito.


Sobre a segunda questão, no romance, Porfíri questiona Raskólnikov justamente sobre o que acontece quando indivíduos ordinários e extraordinários são confundidos. O grande perigo dessa confusão está nos “piolhos” que acreditam ser Napoleões. Raskólnikov tenta minimizar essa ameaça dizendo que essas pessoas nunca vão longe, logo não seria necessária tanta preocupação. Mas essa resposta entrega, de novo, a fragilidade do critério: “não vão longe” acaba se referindo àqueles que fracassam e, portanto, serão chamados de criminosos. Ou seja, a teoria volta a depender do resultado. Além disso, o próprio Raskólnikov encarna o risco que pretende descartar. Ao início do romance, ele acredita estar acima dos demais e ter o direito de cometer o crime em nome de um bem maior. Contudo, com o passar do tempo, sua consciência o consome cada vez mais, de forma que sua própria teoria o aprisiona. 


No fim, a teoria do “Homem Extraordinário” se mostra menos como uma moral, mas como um mecanismo de legitimação após o sucesso, dado que ela só consegue reconhecer com segurança o “extraordinário” quando a história já consagrou o vencedor. Com isso, em vez de oferecer um critério para distinguir justiça e crime, a teoria corre o risco de apenas explicar por que certas violências foram aceitas e categorizadas como grandeza. Dostoiévski explora o perigo da ilusão napoleônica, na qual indivíduos como Raskolnikov cometem crimes acreditando que estão fazendo atos históricos e revolucionários e que não serão punidos por isso. O “homem extraordinário” acaba sendo mais um rótulo para vencedores do que uma permissão moral para agir em nome do progresso.


Revisado por Erick Martins e Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Lara Celani

Há 4 meses na Gazeta

“To define is to limit” - Oscar Wilde

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