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Crônica

A natureza nunca pede permissão

O texto explora a ideia de que ciclos se encerram. Uma flor pode cair sem que a planta deixe de florescer, assim como uma parte da nossa história pode terminar sem que precise ser esquecida.

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Elis Suzuki

4 min de leitura

•

28 de setembro de 2026

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O sol bateu forte contra a janela, mal abri meus olhos e o dia já havia chegado sorrateiramente. O dia começava sem cerimônia e sem anúncio, ou, pelo menos, eu não percebi os sinais, apesar dos passarinhos cantarem por horas antes do primeiro raio de luz.


Sem me pedir permissão, o sol iluminava as gotas de orvalho que descansavam nas folhas das árvores. Sem me pedir permissão, a minha cortina permitia que a luz entrasse no meu quarto e preenchesse o ambiente. Sem me pedir permissão, o sol tornava o ar angelical. Afinal, acho que ele é assim: não pede permissão pra ser bonito, só é.


Da mesma maneira, a orquídea que encontra-se ao lado da minha cama, emana um aroma quase calmante. Respiro fundo para ver se crio coragem de acordar: de manhã sua fragrância é delicada e adocicada. Resta uma só flor na planta, mas que exala uma essência mais que suficiente para preencher o quarto inteiro.


Me pego observando os tons de roxo de suas pétalas, como seria um vestido com esse padrão? Acho que se eu fosse uma fada, eu usaria um lindo jardim como meu guarda-roupa. O miolo amarelo parece que brilha mais forte com esse contraste. Um sorriso começa a se desenhar no meu rosto ainda sonolento.


Apesar da preguiça, o clima agradável e a felicidade dos passarinhos me convencem a sair da cama: estou pronta pra começar o dia.


Suspiro, criando coragem para me mexer, e a natureza decide suspirar junto. Observo enquanto a flor flutua como uma pena, até chegar ao chão. O caule tem um verde escuro. Na sombra se assemelha àcor preta. Sem a flor na ponta de seu galho, minha orquídea parece tão sem graça. Por um momento parece que até o sol ficou mais fraco.


Tenho certeza que a flor não está mais tão bonita quanto um dia já foi, mas a verdade é que ela não vai morrer depois dessa perda. Se eu regá-la com assiduidade, com água suficiente, mas sem afogá-la; se eu garantir uma boa luz natural, sem queimá-la embaixo do sol e se eu cuidar com carinho de sua terra: outras flores voltarão a nascer.


Não é porque um ciclo se encerrou que devo deixar de cuidar dela. Me animo novamente só pela possibilidade de ver o florear, sinto que vale a pena cuidar da orquídea que jaz na minha cabeceira.


E em uma tentativa de romantizar minha vida, decido preservar a flor já caída. Plantas secas duram pra sempre, mesmo que suas cores fiquem menos vibrantes, sua essência é paralisada no tempo, no hoje. Coloco ela entre folhas e deixo pressionada embaixo de livros. Mesmo que ela não esteja mais viva, a memória do que foi e a beleza que ela já teve, serão preservadas eternamente.


A mudança é a única constância na vida, e não posso me prender no passado, mas isso não quer dizer que tenho que deixar ele pra trás e jogar tudo fora. Sempre fui apegada ao que já tive, a quem já fui e ao mundo que experienciei. Eu não deixo de viver pelo passado, mas não vivo me opondo a minha história.


Revisado por Anna Eduarda

Escrito por

Elis Suzuki

Há 2 anos na Gazeta

Elis Suzuki é estudante de Direito-FGV e redatora da Gazeta. Escreve sobre a vida universitária, esporte e cultura, com sua vasta experiência como gvniana.

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