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Crônica

Anjo de pedra lisa

Pois quão difícil é definir uma mulher? Porque é mulher alguma coisa imperativa Que veste isso e faz aquilo e que cultiva Todo o papel...

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Ornito Vargas

3 min de leitura

9 de maio de 2024

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Pois quão difícil é definir uma mulher?


Porque é mulher alguma coisa imperativa


Que veste isso e faz aquilo e que cultiva


Todo o papel que colocara-se a cumprir


E não se pode mais dizer de aberto peito


Que o diferente de repente legitima


Todo o labor que nos levou à obra prima


De defender nossos mais básicos direitos


Quando restava terminada essa tortura


Ante o ácido veneno indiferente


Já fez nascer-se, simultâneo ao sol poente


No horizonte, novamente, a linha dura


Quando a bandeira fez real, do puro medo,


Cegueira velha e calculada que se veste,


As gentes pálidas não viam no celeste:


O céu de branco era também um céu de preto


O sol de ouro era também um sol de lata


A depender de quem virava para cima


Aos vampirescos, confortável lamparina


Aos lobisomens, era um frio sol de prata


Mas isso há muito no terreno configura


A utopia do melhor-lugar-perfeito


E é tão grande o sentimento em vosso peito


De irrelevância, que nem mesmo vão à luta


Da terra fértil, nasce pó e pessimismo


A gente colhe, qual tesouro, o rico estrume


Para esculpir um anjo nu em pedra lisa


E entregá-lo de bandeja ao bom ministro


E desenvolve-se a estática maquete


Sociedade nua e crua e sem pressa


Não há desejo, nem pedido, nem remessa


Para andarmos, só na base do cacete


O “bom suicídio”, a depressão do forte homem


É um conforto tal qual é o amor de mãe


O mal costume de acatar o que se põe


Nas nossas mesas e comê-lo sem ter fome


O que seria então, irmãos, uma mulher


Senão conceito ou objeto inatingível


Senão ideia restritiva ou impossível


O existir de jeito outro ao que se quer?


A fraca fêmea que era mero animal


Já preparada pra nascer de uma moldura


Trata ser livre, impossível criatura


Trata ser forma diluída e dinâmica


Trata ser água ao invés de ser cerâmica


Que quebra fácil, maleável, construída


Pois é o anjo que se fez da pedra lisa


E mesmo assim, também, irmãos, se faz o homem


Autoria: Rodrigo Ferreira


Revisão: Ana Carolina Clauss e Artur Santilli


Imagem de Capa: Fotografia de estátua por Rodrigo Ferreira

Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Ornito Vargas

Há 7 anos na Gazeta

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