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Cultura

Ao perdedor, as batatas!

A autora explora a trajetória da batata, dos Andes até a Grande Fome Irlandesa, trazendo um paralelo da história do tubérculo com a sociedade atual.

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Lara Celani

6 min de leitura

3 de julho de 2026

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É comum que, ao pensarmos em globalização, pensemos na tecnologia, nos meios de transporte ou de comunicação, especialmente considerando a era em que vivemos. Ao fazê-lo, porém, ignoramos um de seus principais itens: a batata. Domesticada nos Andes por povos indígenas, levada à Europa após a chegada dos espanhóis às Américas e posteriormente transformada em um dos alimentos mais importantes do continente, e hoje, do mundo, ela ajudou a moldar a história econômica, social e demográfica do mundo moderno, e sua influência ainda é refletida na sociedade atual.


Inicialmente um tubérculo parcialmente tóxico, a batata foi domesticada pelos Incas e era um pilar da dieta e da agricultura no Império Inca. Sua importância era clara, dado que, além de extremamente nutritiva, a planta apresentava alta produtividade agrícola e podia ser armazenada por longos períodos após processamento, o que era fundamental para sustentar populações numerosas. Com a chegada de Cristóvão Colombo na América, os espanhóis passaram a observar o consumo do vegetal e então exportá-lo para a Europa. Entretanto, no Velho Continente, a batata levou tempo até ser finalmente aceita e difundida, uma vez que os europeus desconfiavam do alimento, associando-o a doenças, imoralidade ou pobreza. Durante esse período, a nobreza até chegou a utilizar a planta como decoração. Apesar da resistência inicial, as vantagens práticas da batata acabaram prevalecendo. Rica em nutrientes e altamente produtiva, ela permitia alimentar mais pessoas utilizando menos terra do que muitas culturas tradicionais. Em um continente sujeito a períodos recorrentes de escassez alimentar, essas características fizeram com que sua adoção se expandisse gradualmente entre camponeses e proprietários rurais. 


Embora raramente seja mencionada nas narrativas tradicionais da Revolução Industrial, a batata desempenhou um papel importante no processo. As fábricas precisavam de trabalhadores, os quais precisavam de uma fonte alimentar acessível que permitisse sua sobrevivência nas cidades em crescimento. Nesse cenário, o tubérculo funcionou como uma espécie de combustível humano da industrialização, ajudando a alimentar e até a aumentar demograficamente a mão de obra que movimentava as máquinas e produzia a riqueza da Grã-Bretanha vitoriana. A batata, muitas vezes vista como apenas um alimento, impulsionou um crescimento demográfico que, por sua vez, trouxe um crescimento econômico para a Europa.


Entretanto, essa grande adoção da batata na base alimentar logo se tornou uma dependência perigosa para a população. Na Irlanda do século XIX, um fungo chamado Phytophthora infestans infestou as plantações de batata no país, o que causou a doença requeima, que apodrecia os vegetais. Diante dessa infestação, a população irlandesa teve de abrir mão de sua principal fonte de nutrientes e calorias, o que resultou na perda de cerca de um quarto da população, seja por mortes causadas por inanição e doenças associadas ou pela imigração para outros continentes. Mais do que uma crise agrícola, a Grande Fome da Batata expôs as fragilidades de uma sociedade profundamente desigual. Embora a doença tivesse atingido as plantações de batata, outros alimentos como trigo, aveia e cevada continuavam sendo produzidos e comercializados especialmente para a exportação. Para milhões de camponeses irlandeses, entretanto, esses produtos eram economicamente inacessíveis. A tragédia demonstrou que a escassez nem sempre decorre da ausência de alimentos, mas também da incapacidade de acessá-los, um problema presente na sociedade até hoje. 


Embora os eventos descritos pertençam aos séculos passados, as questões levantadas pela trajetória da batata permanecem surpreendentemente atuais. Hoje, o tubérculo está incorporado em inúmeras tradições culinárias pelo mundo. Sua história demonstra como a circulação global de recursos pode gerar prosperidade, mas também como a dependência excessiva de determinados produtos e a desigualdade no acesso a bens essenciais podem produzir consequências devastadoras. Nesse sentido, a batata oferece uma lente interessante para observar desafios que continuam presentes no mundo contemporâneo.


Em paralelo com a situação na Irlanda do século XIX, países em desenvolvimento enfrentam desafios semelhantes quanto à distribuição de alimentos para sua população. O Brasil atual, apesar de não enfrentar uma catástrofe alimentar como a irlandesa, ilustra como um país pode registrar aproximadamente US$ 169 bilhões em exportações do agronegócio, consolidando-se como um dos principais fornecedores mundiais de soja, carnes, café, milho e açúcar, mas, ainda assim, enfrentar uma insegurança alimentar que afeta 24,2% dos lares brasileiros, segundo o IBGE.  


A batata, portanto, revela um dos processos de globalização mais significativos da história, ilustrando a importância do intercâmbio de itens internacionais, além de simbolizar eras tão importantes, como a colonização das Américas e a Revolução Industrial. Com um poder de crescimento demográfico e, em sua falta, grande redução populacional, a batata também mostra como um alimento pode ser capaz de mover economias e simbolizar divisões de classes sociais ao redor do mundo. 


Referências:


BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Agronegócio brasileiro fecha 2025 com recorde em exportações de US$ 169 bilhões e superávit de US$ 149,07 bilhões. Brasília, DF, 8 jan. 2026. 

ENGLISH HERITAGE. Victorians: daily life. [S. l.], [s. d.]. 

HISTORYEXTRA. What was life like for ordinary Victorians? Historian Ruth Goodman explains. YouTube, [s. d.]. 1 vídeo. 

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Mais de dois milhões de lares saem da insegurança alimentar em 2024. Agência de Notícias IBGE, 10 out. 2025. 

MANN, Charles C. How the potato changed the world. Smithsonian Magazine, nov. 2011. 

MOKYR, Joel. Great Famine. Encyclopaedia Britannica, 6 jun. 2026. 

ORTIZ, Diego Arguedas. How the humble potato changed the world. BBC Travel, 3 mar. 2020. 


Imagem de capa: Pinterest


Revisado por Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Lara Celani

Há 8 meses na Gazeta

“To define is to limit” - Oscar Wilde

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