Bordéis
Crônica sobre a infância

Eu sou apaixonada por bordéis. Honestamente, a literatura de bordel é fascinante. Eu gosto das rimas e das xilogravuras. Sem contar que me sinto nacionalista lendo textos nordestinos. Na escola, estou aprendendo sobre literatura de bordel. Eu me divirto à beça.
Na escola eu não falo "bordel", até porque eu simplesmente não falo. Mas teve um dia que eu falei. A gente estava lendo um bordel de adulto, a professora disse que nós éramos muito maduros e mais umas informações de que conseguiríamos levar as coisas a sério. Eu levantei a mão, esperei a palavra, perdi a coragem, abaixei a mão, levantei novamente e quando chegou meu turno eu soltei algo como:
Este bordel é “de luxo”. O texto é sofisticado e sonoro. A imagem complementa tudo muito bem. Eu gostei da mensagem da peça, é muito refinada.
A professora arregalou os olhos, sem reação. Minhas palavras tinham feito aquilo,
eu com a MINHA maestria com as palavras tinha feito aquilo, sorri orgulhosa, sabia que tinha feito algo melhor do que qualquer aluno de 4° ano ousou fazer, usei da eloquência para arregalar os olhos da minha professora. Ainda sem reação, ela me mandou para a coordenação, disse para eu repetir aquilo para a coordenadora, que ela saberia lidar melhor comigo.
Estava explodindo, significa que eu estou além da compreensão de uma professora? Uma professora formada, adulta, que se formou esperando ser surpreendida por crianças como eu todos os dias. Eu tinha extasiado daquele jeito?
Fui para a sala da Marina com um friozinho na barriga, eu nunca tinha ido falar com ela, ela era o cúmulo de todo poder, ela coordenava a escola inteira, ninguém é capaz de imaginar com o que ela lida.
Cheguei na sala e Marina estava digitando, com agilidade, sabia onde estavam todas as teclas, usava todos os dedos, digitava sem olhar para o teclado, é uma habilidade que só os adultos têm.
Expliquei com orgulho minha situação, falei que estava ali pelas minhas palavras e, evidentemente, ela me perguntou quais eram as tais palavras, com orgulho eu ajustei minha postura parecendo um soldado e disse:
-Este bordel é “de luxo”. O texto é sofisticado e sonoro. A imagem complementa tudo muito bem. Eu gostei da mensagem da peça, é muito refinada.
Ela estava extasiada, de boca aberta, maravilhada, olhos arregalados, impressionados. Me mandou de volta para sala com um bilhetinho pros meus pais assinarem, deveria ser algo como uma carta de autorização para eu pular um ano ou algo do tipo.
Na saída, minha mãe me perguntou como tinha sido o dia e eu entreguei a ela a carta. Ela pegou, leu, me olhou, leu de novo, me olhou de novo e me perguntou:
-O que você disse na sala?
-Este bordel é “de luxo”. O texto é sofisticado e sonoro. A imagem complementa tudo muito bem. Eu gostei da mensagem da peça, é muito refinada.
Não houve reação. Eu não sabia o que ela estava pensando, parecia que ela iria rir, mas também ia gritar com todas as forças da garganta.
Isso comprovava minha hipótese. As minhas palavras causavam um efeito jamais visto na humanidade, eu poderia atingir a paz mundial, eu seria a mais nova Greta Thunberg, só que mais eficiente. Seria ativista e resolveria não só o aquecimento global, mas também a Guerra do Irã, a fuga de cérebros e a Crise imobiliária da China.
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