Carne como Cenário: Helter Skelter e a Mulher Fabricada
Análise do filme Helter Skelter (2012) que busca explorar os temas de feminilidade e objetificação presentes na obra sob a lente de procedimentos estéticos.

Existe uma cena em Helter Skelter, filme de Mika Ninagawa lançado em 2012, em que Ririko olha para o próprio reflexo e não consegue decidir se o que vê é beleza ou ruína. O espelho devolve uma face perfeita, cirurgicamente reconstruída de cima a baixo, iluminada por aquela paleta de rosas e vermelhos saturados que assina cada quadro do filme. E ainda assim, algo falha. O olhar dela falha. É nesse hiato entre a superfície imaculada e o colapso interior que Ninagawa instala toda a sua análise com a lógica visceral de quem entende que forma é conteúdo e que o exagero visual não decora o argumento, ele é o argumento.
O filme é baseado no mangá de Kyoko Okazaki e acompanha a ascensão e a deterioração de Ririko, uma modelo que submeteu o próprio corpo a cirurgias plásticas totais para construir uma aparência que o mercado julgasse perfeita. O que a narrativa propõe, no entanto, não é exatamente uma história de vaidade punida – essa seria a leitura mais confortável, e Helter Skelter recusa sistematicamente o conforto. Como observou o Asian Film Archive ao apresentar o filme, Ririko é uma “representação transgressora da mulher japonesa”, uma exploração do feminino sombrio que subverte tanto os impulsos ocidentalistas quanto os orientalistas que costumam delimitar o que uma personagem feminina pode ser. O que Ninagawa disseca, portanto, é a lógica de um sistema que fabrica mulheres como se fabrica produto: com especificações e obsolescência programada.
Ririko não é uma aberração do mundo que habita. Ela é sua expressão mais honesta.
A diretora já era conhecida por sua fotografia de moda antes de estrear no cinema e isso atravessa cada decisão visual do filme com uma precisão quase cruel. As cores são deliberadamente excessivas: carmesins que sangram para fora do quadro, amarelos que queimam, flores que aparecem em profusão sufocante como se o próprio ambiente estivesse florindo sobre os personagens à força. Esse excesso não é gratuito – ele replica a lógica da indústria que o filme critica. A crítica de Josephine Maria na página Gayly Dreadful capturou bem essa ambivalência: Helter Skelter é uma “sobrecarga sensorial magistralmente construída” que opera como um filme de horror sobre a fama narrado por alguém que conhece o sistema por dentro. Ninagawa contamina a câmera com essa mesma lógica saturada e, ao fazê-lo, nos coloca dentro do sistema em vez de nos posicionar confortavelmente do lado de fora.
Há uma violência estética em assistir ao filme. Não a violência do sangue – embora ela apareça –, mas a violência de ser belo demais para ser suportado. De reconhecer, em algum momento, que você está admirando justamente aquilo que está sendo destruído.
A mulher em Helter Skelter existe sempre para o olhar do outro. Essa condição tem nome na teoria feminista: Laura Mulvey, em seu ensaio seminal de 1975, Visual Pleasure and Narrative Cinema, nomeou como male gaze a estrutura pela qual o cinema e a cultura visual de modo geral posicionam a mulher não como sujeito, mas como objeto a ser contemplado. O prazer feminino nessa equação, argumenta Mulvey, é narcísico: a mulher internalizou o olhar que a objetifica e passou a se ver através dele. Ririko não apenas vive esse processo – ela o exaspera ao ponto da ruptura. Sua identidade é inteiramente constituída pelo reflexo que os outros projetam sobre ela, e quando esse reflexo começa a rachar, quando o corpo recusado começa a rejeitar as intervenções, quando surgem as manchas e as assimetrias que o mercado não tolera, o que racha junto é a pergunta mais básica: quem sou eu quando ninguém está me vendo?
A resposta que o filme oferece é perturbadora: não há ninguém lá. Não porque Ririko seja rasa, mas porque o sistema não reservou espaço para a constituição de um interior. Ela foi construída de fora para dentro, e o interior nunca chegou a ser habitado.
O corpo em Helter Skelter é território político. Cada cirurgia de Ririko é um ato de conformidade radical – a aceitação de que o corpo que ela nasceu tendo não era suficiente, que a suficiência precisava ser comprada e implantada. Naomi Wolf, em O Mito da Beleza (1991), argumentou que os padrões estéticos impostos às mulheres não são neutros, mas funcionam como mecanismo de controle que mantêmas mulheres num ciclo de insatisfação e autocrítica, desviando sua energia de outras formas de poder. O que Helter Skelter faz é levar essa tese às suas últimas consequências e torná-la carne. Literalmente. O corpo de Ririko se deteriora visivelmente: manchas, colapsos, necrose, rejeições do organismo que o filme não poupa do espectador, trazendo a ideia de que a decomposição é o preço da conformidade total.
Essa dinâmica ecoa em todas as relações femininas do filme. As assistentes de Ririko existem em órbita ao redor dela, definidas pela proximidade com a estrela. A investigadora que conduz o inquérito paralelo representa uma ruptura: uma mulher que existe fora da lógica da aparência, cujo poder deriva de outro lugar. Ninagawa não romantiza esse contraste – não há heroína e vilã aqui –, mas o coloca em tensão produtiva, deixando que o atrito entre as duas lógicas gere a faísca que ilumina o argumento.
Há algo de profundamente contemporâneo nessa premissa, mesmo que o mangá original date dos anos 1990. Literaturas feministas, como O Mito da Beleza de Naomi Wolf, têm demonstrado que a auto-objetificação, processo pelo qual as mulheres passam a medir seu próprio valor pela aparência que projetam para os outros – e não por suas capacidades ou caráter – está associada a uma série de consequências negativas, incluindo disfunção da imagem corporal e transtornos alimentares. Vivemos num momento em que os procedimentos estéticos foram democratizados ao ponto de se tornarem expectativa, em que o filtro é o rosto padrão e o rosto real é o desvio. Helter Skelter antecipou esse horizonte e o levou até sua conclusão lógica: se o corpo é plástico o suficiente para ser reformado infinitamente, o que acontece quando ele começa a cobrar a conta?
O que acontece, Ninagawa responde, é o colapso – não apenas físico, mas ontológico. A identidade construída sobre a superfície não tem fundação para resistir quando a superfície cede.
Assistir a Helter Skelter é uma experiência que não se resolve facilmente. O filme não oferece catarse limpa ou moral enunciada. O que oferece é algo mais incômodo: o espelho. Não o espelho de Ririko, que devolve a perfeição que vai apodrecendo, mas um espelho voltado para o espectador, para a indústria e para o sistema de olhares que todos habitamos e reproduzimos. Ninagawa filma a beleza com o mesmo amor e a mesma frieza com que a indústria a consome e, é nessa ambiguidade irresolvida, que o filme se torna grande.
Ririko não é vítima nem monstro. É o produto mais acabado de uma cultura que nunca quis saber quem ela era por dentro. E o filme tem a honestidade de não fingir que essa cultura ficou para trás.
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Referências
Asian Film Archive. Helter Skelter (ヘルタースケルター) (2012). Disponível em: asianfilmarchive.org.
Gayly Dreadful. Helter Skelter is the Femme Mayhem We’ve Needed. 2020.
Mulvey, Laura. “Visual Pleasure and Narrative Cinema”. Screen, v. 16, n. 3, 1975.
Wolf, Naomi. O Mito da Beleza: Como as Imagens de Beleza São Usadas Contra as Mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
Sathvika et al. “Challenging the Male Gaze: A Critical Analysis of Gender Representation”. Pakistan Journal of Language and Linguistics Studies, 2024.
Revisado por Equipe de Revisão e Erick Martins
