Carta para abstrações (Culpa)
Uma carta à culpa que acompanha a vida universitária. Entre cobranças, cansaço e insuficiência, o texto reflete sobre a dificuldade de existir sem se sentir em dívida consigo mesmo.
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Olá, Culpa.
Sou eu de novo.
Engraçado… eu sempre penso que um dia vou escrever seu nome e você não vai responder. Que dessa vez você vai fingir que não ouviu, que vai estar ocupada em outra mente, em outro peito, em outra vida.
Mas você nunca está.
Você sempre esteve aqui, velha amiga.Sentada ao meu lado enquanto eu escrevo trabalhos, enquanto eu abro textos que não consigo terminar, enquanto eu olho o calendário como quem olha para um abismo. Você me observa em silêncio, como se eu fosse um projeto mal feito, tal como essa carta. Como se eu fosse uma promessa quebrada.
E eu já nem sei mais quando foi que te deixei entrar. Você lembra?
Talvez tenha sido no primeiro semestre. Ou no primeiro “você precisa ser alguém”. Ou quando eu entendi que o mundo não aplaude esforço — ele só aplaude resultado.
Eu queria te pedir um favor, Culpa.
Eu sei que você me acompanha faz tempo. Eu sei que, de algum jeito torto, você acha que está me protegendo. Me empurrando. Me mantendo acordado. Me lembrando que eu posso mais.
Mas será que dá pra você pegar mais leve?
Só por um tempo.
Porque, ultimamente, eu sinto que tudo o que faço chega atrasado, até pra mim. Eu estudo, e ainda assim me sinto despreparado. Eu entrego, e ainda assim me sinto insuficiente. Eu tiro notas boas, e mesmo assim escuto você dizendo: “podia ter sido melhor.”
Eu me esforço, Culpa.
Eu juro que me esforço.
Mas você faz parecer que nunca é o bastante.
E o pior é que você não se limita à faculdade. Você não fica só nos textos, nas provas e nas apresentações. Você atravessa as paredes da minha vida como se fosse dona dela.
Quando eu não vou numa festa, você diz que eu estou desperdiçando minha juventude.
Quando eu vou, você diz que eu devia estar estudando.
Quando eu fico em casa, você me chama de covarde.
Quando eu saio, você me chama de irresponsável.
Você transforma qualquer escolha em erro.
E eu sei… eu sei que o mundo lá fora não para. Eu sei que tem gente produzindo mais, lendo mais, sendo mais. Eu sei que tem gente se divertindo mais, vivendo mais, aproveitando mais. E eu fico no meio disso, tentando equilibrar tudo como se eu fosse uma ponte frágil.
E você, Culpa, fica em cima de mim.
Como se eu tivesse que ser perfeito para apenas merecer existir.
Às vezes, eu olho pros outros e parece que eles respiram sem pedir desculpas. Eles erram e seguem. Eles descansam e não se odeiam por isso. Eles vivem como se não precisassem justificar cada minuto.
Eu queria saber como é isso.
Eu queria poder estudar sem sentir que estou falhando.
Eu queria poder descansar sem sentir que estou roubando tempo de alguém.
Eu queria poder rir numa mesa de bar sem ouvir você sussurrando que eu não mereço.
Eu queria poder ser só… humano.
Então, Culpa… velha amiga…
será que você pode me dar uma trégua?
Não precisa ser pra sempre. Eu sei que você não vai embora de verdade. Eu sei que você é teimosa, e talvez eu também seja. Mas eu queria pelo menos um intervalo. Um pequeno silêncio. Uma semana sem você me chamar de insuficiente. Um dia sem você pesar no meu peito como se eu tivesse cometido um crime por existir.
Eu não quero te expulsar, sei que não consigo fazer isso.
Eu só quero te pedir, com educação, com carinho, quase como quem pede desculpas por pedir:
não me aperta tanto, não me faz chorar quase todos os dias.
Porque eu estou cansado, Culpa.
E eu estou tentando, juro que estou!
E eu acho que você sabe disso, não sabe?
Com sinceridade,
um estudante tentando não se perder mais ainda.
Imagem da capa: Pinterest
Revisado por Pedro Anelli Bastos
