Cartas para Yolanda #1
Como vai você, Yolanda?...

Yolanda,
Escrevo para partilhar 3 coisas contigo: que minhas pernas doem constantemente; que acho que vou ficar livre às quintas-feiras; que eu não vou me acostumar em te ver ir.
Como vão as coisas em Paris? O céu de São Paulo já não é o mesmo desde que saiu daqui. O brilho radiante do sol e o verde das árvores parecem estar cada vez mais fracos e murchos. Me dizem que o clima aqui sempre foi assim, mas eu, pelo menos, nunca o percebi. Até viajei um pouco para tentar escapar da solidão. Recentemente, me lembrei de você quando uma mulher de Berlim me perguntou se eu conhecia algum cantor francês agradável. Eu menti, mas de nada serviu.
Devo confessar: sinto saudade dos seus textos, Yolanda, a vida sempre foi mais alegre com eles. Sinto falta das nossas brigas, dos nossos aconchegos. Sinto falta de quando você me mandava calar a boca, de quando eu mandava você ir me procurar na esquina, e de quando dividíamos um café à tarde. Sua casa brilhava com o pôr do sol quando a paz magicamente entrava pela janela e se sentava na sala conosco.
Como vai você, Yolanda? Esther anda cada vez mais estranha, antes ela costumava perguntar mais sobre você, mas hoje ela parece se esquecer de tudo às vezes. Eu sempre tento te trazer de volta para ela, mas já estou ficando sem assuntos para tratar. Você sempre foi melhor do que eu nisso, lembra?
Essa é minha 5ª tentativa de escrever essa carta, nunca consegui achar as palavras certas para descrever uma emoção. Ainda não li o seu livro, acho que talvez nunca o leia. Mas a razão eu não sei ao certo: acho que é porque estou guardando aquela sensação de ler uma coisa pela primeira vez para uma ocasião especial, ou porque o seu livro é chato mesmo. Deve ser a segunda.
Me cansei de não ter tempo para nada. A Esther já está pegando nos meus nervos com esse papo todo de esquecimento. E ainda por cima, esse seu Dylan me aparece por aqui sem mais nem menos. Ele me persegue, só pode. Sinto que ele quer escrever um livro, mas não sabe a quem plagiar. Sinto falta dos seus mistérios, das suas invenções e do seu tempo.
Os jornais me amolam todos os dias com notícias que não são as suas. Sempre compro esperando que eles relatem o mais novo caso sobre você. Infelizmente, eles nunca têm. Jornais impressos são realmente inúteis, parando para pensar.
Já bebi tanto para esquecer, Yolanda. Penso qual vício será meu próximo. O cigarro? As drogas? O chocolate? A Esther? Você? Gatos? Gatos me lembram de vocês.
A solidão tem sido uma grande parceira, às vezes ela não larga do meu pé, às vezes tenho pena dela. Você tem alguma dica para me dar?
Você não tem vontade de voltar? Eu tenho. Muita. Você não sabe o quanto. Meu trabalho está me matando. Tudo o que eu queria era poder voltar. A Esther está ficando doida aos poucos sem nós. Quero dizer, ou isso, ou nós já a perdemos…
Esses dias, fui visitar a Stella no hospital. Ela sempre tenta levantar o humor no quarto quando recebe visitas, não quer que os outros a vejam e fiquem tão tristes. Mas é inevitável. Eu lembro de quando passávamos horas sentados no parque conversando sobre o que faríamos no futuro, sobre como tínhamos tantas esperanças e vontades. Então, uma enfermeira trouxe o jantar dela. Comida de hospital não tem muito gosto, né? Não que ela percebesse muito também…
A página está acabando. Não sei se concordo com ela. Não sei se mandarei isso. Já sei, vou deixar que os correios decidam. Vou entregar aos cuidados de um carteiro. Se ela chegar, a culpa não é minha. Yolanda, sinto saudades de quando podia usar o seu nome.
FBA.
Revisado por Equipe de Revisão

