Cartas para Yolanda #2
Como vai você, Yolanda?...

Yolanda,
Já faz mais de um mês que não nos falamos. Estaria mentindo se dissesse que não sinto saudades. Mas também seria melhor que você não voltasse, pelo menos não ainda…
A Esther anda bem estressada ultimamente, brava com você, também. Achei que ela já teria amenizado um pouco, nunca foi muito do jeito dela ficar tão brava assim. Talvez você mereça, talvez esse seja só mais um surto de raiva dela. A verdade é que já não nos falamos como antes. Tudo parecia mais fluido, mais simples. Uma ligação tão vívida, mas que agora não passa de um tom audível.
Não se esqueça que o aniversário dela é mês que vem, talvez queira mandar um presente. A verdade é que eu não sei, ela se trancou no quarto dela de novo e nem consegui perguntar a ela ainda. Ela também trocou a fechadura da porta, achei estranho.
Como vai o Dylan? Eu sinto uma vontade enorme de pedir desculpas, mas não sei o porquê e nem de que, só queria conversar com ele. Acho que alguma parte de mim ainda se lembra daquele tempo em que tudo era melhor entre nós. Uma parte de mim ainda quer acreditar que tudo foi só um pesadelo ruim. Mas como ignorar tudo que aconteceu? Como ignorar que ele te levou para aí? Eu fiz tudo o que podia…Não? Fiquei de ensinar a ele que aqui dirigimos do lado direito da rua, você lembrou de contar isso a ele?
Hoje em dia, só a Sabará nessas causas mesmo. A coitada está muito ocupada no bar, toda hora aparecem pessoas pedindo um Martini “mexido, e não batido” achando que estão em algum filme de Hollywood. Pior é quando pedem conselhos, ela já não aguenta mais ouvir as intermináveis mágoas de todo mundo que bebe por lá. Acho que ninguém perguntou a ela o que ela quer falar sobre. Será que esse é o problema? Às vezes eu frequento o bar para dar um oi, mas já cansei de importunar a coitada. Disse que vai viajar durante suas tão merecidas férias, ainda não sabe onde, só disse que a Buenos Aires nunca mais.
Eu já não cozinho mais como antes, sabe? Perdi a vontade de fazer meus confeitos, afinal todos acabavam comendo enquanto eu lavava as louças, e não sobrava nada para mim. Meu irmão disse que se vier visitar algum dia, me paga um jantar de retribuição. Estou curioso para saber com que dinheiro ele vai fazer isso.
Consegui convencer meu chefe a me dar algumas semanas de férias, agora não sei direito porque eu pedi isso a ele, não sei o que fazer. Não tenho o que fazer. Acho que vou trabalhar um pouco mais. Será que Dylan quer fazer alguma coisa? Que bobagem… eu vendi meu violão para poder comprar mais tinta pra essa caneta, esquece. Vou tentar guardar um pouco para as próximas vezes.
Quem sabe eu visito a Stella, faz algum tempo que não vão vê-la mais. Todos querem, mas não conseguem. Já não é mais o mesmo, e nós também não somos mais os mesmos…
Bobagem, vou passar por lá, por que não? As paredes brancas já devem estar deixando ela louca… Se bem que nem sei mais se ela percebe…
Carteiro que está lendo, por favor, depois de se entediar, ponha ela de volta com as demais na caixa e não se preocupe que ela fique amontoada, já estou acostumado.
FBA
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Imagem da capa: Raquel Franco
Revisado por Pedro Anelli Bastos

