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Conto

Cartas para Yolanda #3 "Esther #1"

"Quem é ela? Aquela que apareceu do puro ar, sentou-se conosco e se encolheu em seu assento?"

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Enrico Recco

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Letizia Pitol Zanuso

4 min de leitura

5 de junho de 2026

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Esther,


As sextas-feiras sempre foram boas. E com vocês, mais ainda. Senti saudades de sentir saudades de momentos assim. Mas eu fiquei com uma pergunta: Quem é ela? Aquela que apareceu do puro ar, sentou-se conosco e se encolheu em seu assento?


Quem era aquela que fazia breves comentários, mas que sempre me faziam parar e pensar? Ela me lembra o pequeno príncipe, com um olhar diferente à minha mente mundana e crescida, odeio quando me lembro que o tempo passa e que eu não posso ser criança para sempre. Mas esses momentos me fazem crer que a idade biológica nada tem a ver com a sagacidade. 


Na verdade, não sei se deveríamos todos almejar não crescer. Isso sempre foi meio inútil. O melhor é quando sempre nos lembramos das crianças que temos dentro de nós, não é? A luz, a esperança, o brilho que somente quando se enxerga o mundo por olhos de criança, é capaz de brilhar. Isso era ela. Mas quem é ela? 


Quem era aquela que carregava com si toda a dor do mundo? Estava sempre curvada, como Atlas segurando o globo em suas costas como punição. Como poderiam ter punido alguém tão delicada? O que ela fez? Como ela é? Qual a sua cor favorita? São tantas perguntas...


Quem era aquela que, apesar de tudo, sempre nos olhava com seus olhos caídos e expressão de tristeza, mas sempre esperançosa? Pude apenas imaginar o que deveria estar se passando em sua cabeça. Não é capaz que alguém assim possa ser afligida por tantos terrores, mas até então a vida nunca foi justa.


Quem era aquela que mal me conheceu e já me levou para sua casa? Como é capaz que ela tenha confiado tanto assim em mim? Ou sou eu que ando desconfiado dos outros? Só sei que ela é amigável. A casa dela era tão incomum, um castelo escondido por entre as árvores, parado no tempo.

Sempre amei conhecer novas pessoas, mas ela me intriga. Quem é ela? Você precisa nos apresentar. A minha animação e a minha pujança são tantas que me lembram de quando eu te conheci. Você se lembra? Lembra de quando tínhamos aquela energia?


Vi a Stella esses dias, fomos em um piquenique no parque perto de casa. Rolamos na grama e eu acabei derramando o suco de laranja, me encharquei todo. Ela até que achou lindo, sempre teve um olhar doce para o mundo. Pensou que minha calça azul combinava bem com o branco alaranjado da minha camisa com suco derramado. Ela sempre fez bons piqueniques.


Lembra do Dylan? O estrangeiro? Ele sempre foi muito apático com tudo, não é? Há alguns dias, vi vocês conversando como antes. Você se lembra de antes? Espero que não. Eu lembro que ele estava com problemas no visto, talvez vá embora. Ando cansado de me perguntar se devo usar “y” ou não quando escrevo seu nome. Mais fácil ser estrangeiro, vem e não toma conta de nada, mas recolhe tudo que acha pela frente. Estou pensando em ir pra Londres…


Você não está pensando em ir embora, não é? Fica aqui, por favor, nem tente me convencer do contrário. Se não, eu até posso ir com você, compro as passagens e tudo mais. Mas antes de qualquer coisa, quem é ela? Quero saber tudo tudo tudo. Se esconder alguma coisa, eu nunca saberei, odeio não saber. E eu te amo.


FBA


__________

Imagem da Capa: Raquel Franco

Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Enrico Recco

Há 2 anos na Gazeta

O que torna Enrico especial é sua incessante busca pelas palavras certas. Em sua procura pelas palavras certas, escreve textos para a Gazeta Vargas desde 2024 e trabalha como pesquisador na FGV.

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Escrito por

Letizia Pitol Zanuso

Há 2 meses na Gazeta

Letízia é uma escritora colaboradora da Gazeta Vargas

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