Cartas para Yolanda #4 "A Noite"
A noite às vezes me lembra você, encantadora, mágica, assustadoramente infinita. Mas distante.

A noite
Yolanda,
A noite é um horário fascinante, não? Com suas nuances e seus mistérios a mil. Eu olho pelo céu, sempre procurando o Cruzeiro do Sul. Pior de tudo? Nunca consegui achá-lo. Mas imagine se um dia eu conseguir. A sensação de alívio, felicidade e calma que fluiria pelo meu corpo? Você também adoraria vê-lo, eu tenho certeza.
Já faz algum tempo desde que te escrevi pela última vez, não é? Esses dias tomei um susto quando recebi uma carta pelo correio, achei que era sua resposta, pensei que finalmente tinha voltado, mas era só uma conta de luz qualquer. Mesmo assim, faz tempo que eu converso com você e você não me responde de volta.
Eu perguntaria como vão as coisas, mas agora acredito ser tarde demais para isso. A Esther já pegou o avião dela, foi tentar te encontrar aí em terras europeias. Tenho medo de que ela não encontre o caminho para casa de volta, você ainda se lembra? Os dias estão ficando assustadoramente comuns por aqui, cada vez mais normais e tranquilos na sua ausência. Me lembro de quando não conseguia dormir pensando no que vocês estavam aprontando. Hoje, perco o horário para acordar.
É tudo um pouco triste, se parar para pensar. Ao mesmo tempo que sentia falta de noites bem dormidas, sinto mais falta de você. Ainda não se convenceu de que francês não é sua língua mãe? Ouvi dizer que está começando a fazer aulas, um pouco tarde demais, não? A Sabará fica preocupada com você às vezes, mas ela logo releva, afinal, você é uma mulher resolvida (e um gentil cliente decidiu arrumar confusão na última vez que fui lá). Agora conversamos mais do que bebemos, o que sempre é um avanço.
Você sente falta de mim? Sinto que nunca te perguntei isso de verdade, me utilizando de eufemismos e desvios de conversa que faziam com que minhas paranoias atiçassem e começassem a interpretar cada pedaço de sua resposta, ao invés de só fazer uma simples pergunta que resolveria tantos conflitos de noites em claro. Engraçado, voltamos para esse assunto, a noite. Tenho escutado muito a trilha de La La Land, adoro o piano desse filme, e parear e a trilha com a Avenida Paulista no pôr do sol é uma sensação que poucos podem ter a alegria de sentir.
Penso na última vez que eu te vi, sentada naquela praça perto da mansão abandonada aqui no bairro. Você sempre foi muito intrigada por ela, cheia de assombrações e fantasmas esquecidos que você não via o momento para entrevistar e descobrir suas fatídicas histórias. Eu gostava de rir com você sobre isso, mas agora temo que são apenas os fantasmas dessas risadas quem moram naquela mansão.
Eu já não sei mais quanto tempo a Stella deve aguentar. A última vez que fui lá, ela nem conseguia falar direito, o cansaço era tanto e eu não tinha a coragem de fazer ela tentar pronunciar um simples “como você está?”. Fiquei sentado ao lado dela, acabei dormindo na cadeira. Logo pela manhã, a luz que vinha de uma fresta da janela batia na pele dela de uma forma tão radiante, tornando-a mais quente e viva. Parecia que estava bem de novo. Eu saí do quarto para pegar um café e esticar as pernas. Não tive coragem de voltar. Estou sentado em uma cadeira de espera, decidindo se entro no quarto de novo. Tem médicos correndo para aquela direção, olhares de desespero. Acho que não consigo.
Sinto falta de você, sinto falta da sua risada, sinto falta do seu sorriso.
A noite às vezes me lembra você, encantadora, mágica, assustadoramente infinita. Mas distante.
Olha só, voltamos.
Fernando
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Imagem da capa: Raquel Franco
Revisado por Equipe de Revisão

