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Conto

Cartas para Yolanda #5 "1/08/94"

Tempo nunca cura, Yolanda. O tempo esconde, esquece, alivia. A cicatriz permanece.

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Enrico Recco

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Letizia Pitol Zanuso

4 min de leitura

11 de setembro de 2026

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1/8/1994

Yolanda,


Revirei algumas gavetas minhas pela manhã. Quanta tralha a gente guarda sem saber, né? Memórias de épocas tão pouco esquecidas. Escondidas, na verdade. Lembra do Pequeno Príncipe? Meu coração já está cego e meus olhos cheios de lágrimas para ver direito. Que se dane o que é essencial, eu quero te ver...


A Esther é o maior amor da minha vida, e você uma das almas mais puras que conheci. As saudades imensuráveis rasgam minha mente e meu peito em agonizante terror, Yolanda. Volta, por favor. Paris não te merece mesmo com seus inúmeros palácios e incríveis boulevards. Você nem gosta de Paris, não se lembra?


Noite após noite, me encontro no balcão da Sabará que já não aguenta mais tanto sofrimento. Espanta a clientela. Mas foi gentil e me emprestou um sofá para dormir algumas vezes. Esses dias, só ela me escuta. Até mesmo a Esther está sem ouvidos...


Nem iria mencioná-lo, mas quero mais que o Dylan se dane. Sotaquezinho chique que sempre me encheu os nervos. Ele sempre acha que lá fora o mundo é melhor. Ele nunca foi brasileiro de verdade. Nunca dançou um samba que preste. Nunca sofreu por amor. Nunca aproveitou as praias serenas do Rio ou a magnitude de São Paulo. Só fala na neve de Nova Iorque. Deve sentir medo, isso sim.


Nós nunca deveríamos ter deixado esses franceses te sequestrarem. Retiraram a Primavera mais brilhante de sua terra para lhe tocar um La vie en rose sem personalidade qualquer.


Lembra da noite na qual andamos pela Gurgel pensando em viajar? Chutando latinhas e sonhos até a consolação? Você estava com aquele lindo vestido preto e eu tinha acabado de sair do trabalho, todo estrupiado. As lojas todas se fechavam conforme a noite surgia. Até paramos no Ararinha Azul para relembrar outros tempos. Nem dinheiro tínhamos para ir à Paris, só nossos sorrisos e latinhas de Coca-Cola.


Desde então, Yolanda, eu temo a felicidade. Sinto pavor de me sentir feliz, porque a felicidade me lembra da Gurgel, das latas, do bar, dos livros. Me lembra de você.

De um tempo que a Esther ainda me amava. De um tempo que eu e o Dylan tomávamos cervejas até as altas horas da noite. Quando íamos à Sabará contar nossas histórias incríveis. Quando o Albuquerque fazia suas piadas e palhaçadas. Quando a Lia trazia tanto conforto. Quando a Fran, a Joana e o Gabriel bebiam com a gente...


Quando a Stella estava viva...


Tudo está tão diferente e nem sei mais o que fazer. Ler não ajuda em nada, todos tiraram os telefones dos ganchos e as janelas todas se fecharam. Sinto falta de seus abraços. Sinto falta de seus conselhos. Yolanda, sinto tanta saudade de você.


Nunca esperei uma resposta. Agora tenho vontade de ir até aí buscá-la, mesmo que tenha de ir até a sordidão europeia.


Tempo nunca cura, Yolanda. O tempo esconde, esquece, alivia. A cicatriz permanece.


Me escreva.


Com saudade,

Com tudo,


Fernando


Revisado por Anna Eduarda

Escrito por

Enrico Recco

Há 3 anos na Gazeta

O que torna Enrico especial é sua incessante busca pelas palavras certas. Em sua procura pelas palavras certas, escreve textos para a Gazeta Vargas desde 2024 e trabalha como pesquisador na FGV.

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Escrito por

Letizia Pitol Zanuso

Há 5 meses na Gazeta

Letízia é uma escritora colaboradora da Gazeta Vargas

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