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Cultura

Colorido em preto e branco

Uma prosa poética sobre a vida em preto em branco. O nosso redator Gabriel dos Anjos descreve como é viver na mesma rotina

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Ornito Vargas

4 min de leitura

1 de novembro de 2018

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Uma prosa poética sobre a vida em preto em branco. O nosso redator Gabriel dos Anjos descreve como é viver na mesma rotina cercado pela monotonicidade de uma cidade cinzenta e compartilha conosco o desafio de viver destacado do resto, com uma essência além de uma nuança grisalha.



Hoje descobri que sempre me levanto no escuro e só acordo com a luz.


É curioso. Entro no carro cinza, passo pelas avenidas pintadas de preto e branco, semáforos pretos piscando em três fases brancas iguaizinhas, entro na faculdade: desespero em preto e branco. Imito cada um dos seres humanos acinzentados olhando para baixo sorrindo e olho para mim mesmo: estou de verde claro e azul escuro; ou de azul claro e azul escuro, e minha pele na sua tonalidade natural de quem raramente toma muito sol. Acho muita graça como sou diferente!


Um parêntese: sempre escolhi bem as roupas. Combinações de cores que faziam sentido e agradavam o olhar, ainda que fosse só para mim. Se alguém pudesse ver, notaria.


Duas reações são imediatas. Preocupo-me, tiro-me do sossego. Me lembro: tenho cor e outros não. Me despreocupo. Inflo meu ego e do alto dele reconheço: sou mais inteligente, mais gentil, mais garboso, menos preso à rotina, menos desequilibrado, menos encantado pelo tédio. Por isso mereço a diferente coloração.


Ainda não convencido, olho atentamente para cada rosto. Correção: não é curioso, é assustador. Em meio à multidão, cada um que diariamente anda pelas ruas paulistanas tem aqueles olhos rotativos de desenho animado de criança. Reforço meu ponto: mereço ter cor. Não são perto do que sou. Sou consciente da felicidade, do amor, da dor, das perdas, dos exageros. Em suma: sou, enquanto não são.


Até que chegou hoje. O primeiro dia de luz do século. Não parecia diferente de ontem, senão por um detalhe: senti vontade de contar sobre minha consciência para todo mundo que era preto e branco e, finalmente, salvá-los. No caminho não olhei para os lados, na faculdade não observei os rostos, nem olhei para mim mesmo. Estava incomodado: para quem eu diria tudo aquilo? Quem eu escolheria para ser o primeiro a receber um pouco de cor? Quem estaria pronto para aquele derramamento sutil, mas que tiraria os olhos rotativos? Ninguém parecia merecer.


Estive fisicamente incomodado: cheguei a desmaiar. Minha visão girava – curioso, não costumava sentir-me mal. Não me preocupei: nem comigo e nem em explicar para os outros, e dei uma desculpa qualquer – não podia confiar em ninguém antes da minha decisão.


Já fazia luz há um tempão. Vaidoso que sou, olhei-me no espelho. E estou aqui. Incrédulo. Olhando para mim mesmo.


Demorei, mas notei que de manhã escolhi me vestir de preto e branco. Blusa preta amassada, feição cansada e pálida. Sorriso insatisfeito, mente preocupada: sem saber se levava o desassossego no bolso ou na alma. Não sabia se guardava no bolso da calça branca ou na alma descolorida de cinza.

Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Ornito Vargas

Há 7 anos na Gazeta

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