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Relato Pessoal

Contradição

O texto discute a contradição intrínseca ao ser humano, e a impossibilidade de ser só bem ou mal. A dualidade faz pate de nós, e com isso temos falhas de personagem constantes.

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Elis Suzuki

4 min de leitura

9 de fevereiro de 2026

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Bem e mal, claro e escuro, amor e ódio, certo e errado, esquerda e direita, verdade e mentira: antônimos do dicionário. O ser humano é viciado em colocar tudo em caixinhas e, assim, define pessoas, lugares e experiências como positivas ou negativas. É fácil antagonizar alguém e não enfrentar as diferenças, assim como é fácil idolatrar e acreditar em tudo — novamente, não enfrentando as diferenças (que às vezes se encontram escondidas).

Num mundo de conto de fadas, de vilões e heróis, essa divisão é possível (mas nem sempre é tão simples). No mundo real, temos de entender que nada é tão simples como parece e as pessoas são muito mais complexas do que gostaríamos. Sempre me incomodou não saber onde enquadrar alguém que é a simpatia em pessoa mas tem opiniões bem problemáticas; alguém que insiste em discutir política da pior maneira de todas, mas fora desse contexto é uma companhia excepcional. 


As histórias que ouvíamos como criança sempre idealizaram os personagens: a Chapeuzinho Vermelho contra o Lobo Mau, a Maria e João contra a Bruxa da Casa de Doces, a Branca de Neve contra a Bruxa Má, os Três Porquinhos contra o Lobo (de novo), a Bela Adormecida contra a Malévola. Mesmo assim, o filme estrelado por Angelina Jolie vem quebrar essa ideia de conto de fadas: nunca sabemos o lado do “vilão”. Qual é sua história? Qual é sua motivação? Não acho que devemos escusar algum comportamento “ruim” em prol da compreensão, mas julgar uma pessoa por uma ocasião específica me parece um tanto quanto raso da nossa parte.


O vilão da história sempre varia dependendo de quem é o relator. A visão dos acontecimentos sempre vai ser diferente, a verdade sempre vai ser diferente - o que não significa que se tornou mentira. Tem um mundo inteiro entre a verdade e a mentira e cada um tem sua própria versão dos fatos (no entanto, afasto a possibilidade de chamar de verdade, sua distorção proposital, ou até a ignorância intencional). Assim como não há uma verdade ou uma mentira absoluta, não há coisa na vida inteiramente má ou boa, e as pessoas também não cabem nessas caixinhas. Somos seres tridimensionais, formados por milhões de pedaços: das nossas experiências e vivências, do que ouvimos, do que lemos e do que vemos, dos nossos amigos, colegas e inimigos.


Considerando isso, talvez tenha coisas mais importantes do que classificar alguém como bom ou mau. Ao escolher minha companhia, não limito minhas opções a pessoas que pensam igual, não me limito a pessoas imunes ao erro (até porque seria impossível). Distingo companhia de amizade, colegas de amigos, mas admito que não me oponho a relações leves, que têm problemáticas intrínsecas à pessoa, afinal: ninguém é bom ou mau. Quiçá eu acredite que a lealdade é o fator mais importante para formar nossas amizades, e o resto se acerta e se conserta até funcionar. Acredito que às vezes nem mesmo posso culpar a figura da lealdade, quiçá seja simplesmente uma questão de afinidade, extrapola a mera racionalidade e atinge o sentimental - possivelmente alheio à nossa vontade.


A dualidade das pessoas me confunde, me parecem falhas de personalidade, erros permanentes. Não consigo me distanciar de mim mesma pra dizer, mas não tenho dúvidas que, igualmente, sou uma contradição, afinal, tenho amigos diametralmente opostos e, como diz o ditado popular: diga-me com quem tu andas, que direi quem tu és.


Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira

Escrito por

Elis Suzuki

Há 2 anos na Gazeta

Elis Suzuki é estudante de Direito-FGV e redatora da Gazeta. Escreve sobre a vida universitária, esporte e cultura, com sua vasta experiência como gvniana.

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