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Crônica

Corrida sem linha de chegada

Uma reflexão sobre a ansiedade cotidiana de uma sociedade super estimulada, a qual tem pressa e corre em busca de uma linha de chegada inexistente.

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Mariana Mendes

4 min de leitura

25 de março de 2026

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Vivi dezesseis anos no interior. Quando me mudei para estudar em uma das maiores capitais do Brasil, São Paulo, tive um choque cultural muito grande. Entre o cuscuz paulista, o sotaque e os prédios altos, o que mais me chamou atenção foi a pressa.


Na calçada, todos estão sempre correndo ou andando rápido, impacientes. “Deixe sempre a esquerda livre” foi o primeiro conselho que me deram quando cheguei na cidade. Sempre tem alguém que precisa passar mais rápido ao seu lado, todos muito atrasados, cansados e preocupados. 


No começo, fiquei assustada com essa pressa de viver. No entanto, aos poucos, o caos de São Paulo me devorou, e eu comecei a me comportar assim também, andando rápido e desviando das pessoas, em uma maratona sem linha de chegada, guiada por um alerta mental que me fazia correr e ter pressa de algo que nem eu mesma saberia explicar.


Até que um dia, apressada e correndo pela paulista, deparei-me com uma senhora caminhando lentamente e observando seu redor. Eu estava do outro lado da rua, esperando o sinal de pedestres abrir. Em meio às pessoas apressadas e com cara fechada, a senhora sorria com leveza e desejava bom dia aos que a ultrapassam com velocidade. Ela caminhava devagar, analisando os prédios, as pessoas e o movimento dos carros. Vez ou outra parava para elogiar alguém ou observar algum detalhe com mais atenção ainda.


Quando o sinal abriu, passei ao lado dessa senhora. Ela virou o rosto em minha direção e me desejou um bom dia, com um afeto e calmaria na voz e um sorriso muito aberto. Depois disso, retribui e diminui meus passos. 


Voltei a andar devagar e observar o fluxo humano ao meu redor. Pessoas apressadas, atarefadas e preocupadas, como se houvesse um relógio correndo atrás delas. Ninguém observava ao redor, nem ao menos para responder àquela senhora, sempre continuavam correndo. Isso me assustou. 


Depois daquele dia, percebi que a pressa corre fora e dentro das casas. Tudo muito rápido. Tudo descartável. Tudo ajustável ao algoritmo célere de redes sociais que regem o cotidiano e jorram dopamina e a urgência capitalista de sempre produzir.


Nos celulares, vídeos de no máximo 2 minutos, reproduzidos no 2x. Nos fones, músicas de plano de fundo, que dificilmente serão de fato ouvidas e muitas vezes serão puladas antes mesmo do refrão. Na TV, séries de rápidos episódios e curtas temporadas, que provavelmente nem terminarão. 


Nas relações, busca-se um amor rápido, fácil e instagramável. Qualquer tipo de compromisso ou conversa difícil rompe com o padrão de amor de feed. A regra é clara: se não gera likes, não atrai. Em função de sentimentos líquidos, distribuímos o amor em conta gotas e vivemos no automático, morando em uma busca incessante de preencher o nada - uma missão que só torna o vazio maior. 


Super estimulado, o ser humano parece não suportar se ouvir. Prefere o ruído constante, a sucessão infinita de estímulos, como forma de evitar o encontro consigo mesmo. Aplaudem a fuga do silêncio, chamam de atrasados quem se dá o tempo de escutar o mundo e rolam vídeo por vídeo para mascarar o medo.


Entre o caos e o domínio de tudo, talvez o gesto mais revolucionário de hoje seja o mais simples de outrora: andar devagar o suficiente para perceber o mundo ao redor e, pior ainda, perceber a si mesmo. 

Aquela senhora de cabelos grisalhos que fazia sua caminhada com certeza sabia disso.


Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira

Escrito por

Mariana Mendes

Há 4 meses na Gazeta

Redatora e membra institucional da Gazeta Vargas. Absorvo o mundo e transformo, principalmente, em poemas e artigos.

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