Dark Horse
Resumo e comentários sobre o roteiro vazado de "Dark Horse", filme que retrata a campanha política de Jair Bolsonaro durante as eleições de 2018.
.png)
Na última semana, o mundo do cinema foi agraciado com o vazamento do roteiro daquela que promete ser a obra cinematográfica do século: Dark Horse, filme dirigido por Cyrus Nowrasteh e estrelado por Jim Caviezel (“A Paixão de Cristo”, “Som da Liberdade”) que conta a história da campanha eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018, passando por sua ascensão política, a fatídica facada e o final épico com a vitória nas urnas.
Pois bem, como amante da sétima arte e especialista nº 1 em analisar e ridicularizar os absurdos que um certo espectro político nos proporciona, é óbvio que separei um período do meu dia para ler as 107 páginas de ouro que se encontravam na minha frente. Venho, então, trazer minhas reações e análises, tanto do roteiro vazado quanto do trailer divulgado por Flávio Bolsonaro na última terça-feira, e tentar responder à pergunta: será que vale mesmo R$134 milhões?
Antes de iniciarmos nossa aventura, acho que cabe uma leva de curiosidades que, na minha opinião, colocam a cereja no bolo. A começar pelo título: não, não é por causa da Katy Perry. “Dark horse” vem de uma expressão em inglês – que, aliás, é a língua original do filme –, e significa algo como “azarão”, aquele em quem ninguém botava fé, mas que no final acaba ganhando. Basicamente, um resumo em duas palavra da situação do ex-presidente na época retratada no longa.
Além disso, tem toda a questão envolvendo a já conhecida participação de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, na produção do filme. Além de todo o escândalo envolvendo o ex-banqueiro e o zero-um, a jornalista Karina Ferreira da Gama, dona da produtora GoUp, responsável pelo filme, afirmou que Vorcaro bancou mais de 90% do filme – 12 dos 13 milhões de dólares utilizados até agora.
Falando nisso, inclusive, foi revelado recentemente pelo jornal O Globo que a produtora GoUp nunca lançou nenhum filme, seja em território nacional ou internacional. Mais: os demais empreendimentos registrados no nome de Karina Ferreira da Gama, Go7 Assessoria e a ONG Instituto Conhecer Brasil – esta última no centro de investigações criminais envolvendo a Prefeitura de SP –, também nunca lançaram nenhuma produção em nenhum meio audiovisual. A jornalista, portanto, inicia sua carreira cinematográfica assim, com os dois pés na porta – tal qual o coice de um Cavalo Negro.
Entretanto, Dark Horse não é a primeira produção sobre o Capitão a chegar às telonas. No último dia 14, estreou o documentário A Colisão dos Destinos em diversos cinemas espalhados pelo país. O longa foca em contar a história de Jair Bolsonaro, da infância e adolescência à presidência, mas claro que omitindo o máximo de detalhes marcantes da carreira política do Mito, como os escândalos na pandemia, a tentativa de golpe e a condenação, e faz isso por meio de entrevistas com o próprio ex-presidente, familiares e parlamentares próximos. Detalhe interessante, porém, é a quantidade absurda de pessoas que estão indo ao cinema para ver o documentário: dá uma média de 5 a 7 pessoas por sessão, isso quando são vendidos ingressos.
Antes de ir para a análise de fato, vale ressaltar que o filme tem estréia prevista para setembro de 2026, sem data específica definida no Brasil. Entretanto, é claro que a esquerdalha comunista já está tentando calar, visto que entraram com pedido ao TSE para barrar o lançamento da produção, por estar a algumas semanas do primeiro turno das eleições presidenciais.
Agora sim, vamos ao que interessa. ATENÇÃO!! ALERTA DE SPOILERS (se é que você se importa com isso).
O filme se inicia com um programa de auditório, no qual Jair (pronounced Ja-ear) Bolsonaro é o entrevistado. Isso é um detalhe comum no decorrer do longa: são inúmeras as cenas de entrevistas e conversas com jornalistas, sempre evidenciando o quanto a mídia desconsidera Bolsonaro como candidato relevante e o enxerga mais como figura polêmica, tentando ao máximo distorcer o momento e fazê-lo vacilar. Mas, é claro que o Mito nunca falha. Como o próprio roteiro descreve: “He knows the best way to deal with vultures is straight-on. And he can dish it out. But there’s always a side of him that is playful”.
Na entrevista, Bolsonaro age quase como uma máquina de respostas curtas e engraçadinhas, tentando jogar uma graça e pagando de bom moço, apontando para a câmera e dizendo que “é com eles [o povo] que eu me importo!”. Na sequência, vem um flashback da história recente do Brasil, desde o fim da ditadura militar em 1985, um mapa da América Latina indicando lideranças esquerdistas surgindo em vários países, movimento conhecido como Guinada à Esquerda, a chegada de Lula ao poder em 2003 e sua condenação em 2017, o 7x1 (?) e, por fim, a aparição de um “novo candidato que emerge no Brasil. Um deputado federal obscuro, um ‘dark horse’ da coalizão direitista do ‘Boi, Bala e Bíblia’, que promete ‘quebrar o sistema’ que tem mantido o Brasil para baixo”.
Aparecem mais entrevistas, acusando Bolsonaro de estar ligado aos militares, a jornalista apontando rumores de que o candidato tentará restaurar a ditadura, ao que o Capitão responde que “rumores são como peidos, eles vêm de bundões”. Sim, isso é uma fala real. Eu não estou inventando. Se prepare. Ainda tem piores. Depois disso, vem uma fala sobre corrupção e o bordão: “Brazil above everything, God above everyone!”, seguido das já conhecidas arminhas.
Dá pra perceber claramente que essa primeira parte do filme serve para construir o personagem de Bolsonaro como, justamente, o azarão. O cara polêmico, que luta pelo povo, mas que é perseguido e minado pela mídia sensacionalista.
O longa então introduz os grandes vilões do filme: Tato e Jorge, dois criminosos, estão em uma mesa de bar conversando com Aurélio Barba (nome fictício para representar Adélio Bispo, autor da facada). O assunto é justamente esse: planejar um atentado contra Bolsonaro. Aurélio é experiente no assunto: “Já estive com os socialistas radicais, meu amigo. Depois a FLP [grupo esquerdista fictício inventado para o filme]. Andei até com os marxistas, mas eles usavam drogas demais. (...) Se tem que ser feito, Aurélio Barba cuida”. O plano original era usar uma arma de fogo, mas Aurélio repensa e sugere uma faca, por ser mais silenciosa e mais fácil de sair correndo. Tato e Jorge estão a comando de Paulo Pontes, um chefão do crime que foi preso por Bolsonaro em 1985, e que, além de planejar matar o Mito, planeja que Aurélio seja pego para que não precise pagar o serviço.
Voltamos para nosso Cavalo, agora em um momento de debate contra Francisco Alves, presidente da República no momento. Bolsonaro se apresenta, olha para a plateia e lá vê Michelle, Flavio, Eduardo e Carlos (Renan ficou de fora). No discurso, diz ser um homem de família – ama tanto a família que teve filhos nos quatro casamentos! –, e que veio destituir o terror comunista, e voltar a autonomia do povo. Após a fala de Francisco Alves, que promete seguir os caminhos de seus predecessores e liderar a nação à igualdade e justiça, Bolsonaro retruca: “same shit, new toilet”.
Após um momento carinhoso em família, voltamos ao talk show inicial, em que a jornalista questiona Bolsonaro sobre suas declarações homofóbicas, das quais o candidato se desvencilha com o jeitão de tiozão engraçado que o roteiro dá a ele, e sobre o incidente envolvendo a também deputada Glória de Rosales (não preciso nem dizer que representa Maria do Rosário), com direito, inclusive, a um flashback recriando o acontecimento. Depois disso, Bolsonaro, irritado porque a jornalista levantou a polêmica, demite Eduardo como assessor de campanha, e depois o recontrata, com um salário mais baixo que o anterior (que era de zero reais). Isso leva os dois a sair no soco no banco de trás – literalmente do roteiro: “they start wrestling in the backseat”.
Agora, o que talvez seja minha cena favorita: Bolsonaro está reunido com Michelle e apoiadores num restaurante, Laurinha (sua filha) no colo; música tocando; ambiente alegre; até que chega Dolores (leia-se, Damares, ao que tudo indica e eu gosto de assumir como verdade). Vem das sobras, se aproxima de Bolsonaro. Ela carrega uma Bíblia, Bolsonaro a chama de “grandmother”. Todos olham assustados. O candidato pergunta se ele tem seu voto, e ela diz que “muito mais do que isso”. Foi enviada por Deus, e avisa que “uma febre está chegando”. Entrega, então, comprimidos a Bolsonaro, dizendo que estes o protegem. Michelle hesita, mas o Capitão toma. Dolores desaparece misteriosamente, como um fantasma. Mais tarde, no quarto, o casal conversa. Michelle está preocupada. Bolsonaro assegura que tudo ficará bem, e depois os dois rezam juntos. É lindo. Brilhante. Poético.
Chegamos, finalmente, ao fatídico dia 6 de setembro de 2018, na cidade de Juiz de Fora - MG. Acompanhamos o público efervescente para a chegada do futuro presidente. Acompanhamos os preparativos do evento. Bolsonaro, família e apoiadores arrumam tudo. Ele não precisa de um discurso, fala do coração, da alma, das bolas! (sim, isso está na fala). Aurélio Barba também está lá disfarçado, fingindo empolgação.
Bolsonaro começa a discursar, defendendo o povo, dizendo que preza pela Amazônia e pelas vinte milhões de pessoas que lá moram, que desejam apenas um sinal de wi-fi, que não deixará a floresta nas mãos de gringos (bem contraditório com a realidade). Após isso, ele é levantado nos braços do povo, levado à multidão. Aurélio se aproxima, puxa a faca da jaqueta, e PÁ! Uma pequena mancha vermelha aparece na camiseta verde e amarela do Capitão. O povo percebe, se desespera. Bolsonaro é levado de volta ao carro, ensopado de sangue.
– He twisted the blade… that motherfucker…
– Raise your legs, papai… raise ‘em up! – diz Carlos tentando colocá-lo no carro.
Aurélio é perseguido, se esconde no banheiro de um bar. Bolsonaro, à beira da morte, é levado ao hospital acompanhado por Carlos chamando-o de “papai” em meio a frases em inglês (essa é a melhor parte do filme). Chegando lá, Bolsonaro é atendido por uma enfermeira, a quem o candidato cumprimenta: “Eu gosto de você. Você deveria ser uma ex-esposa minha algum dia”. A imprensa chega, tenta invadir. É barrada pela equipe policial e pelos aliados de Bolsonaro. Na sala de cirurgia, nós conseguimos ouvir os pensamentos de Bolsonaro. Lá fora, espalham que Bolsonaro morreu. Dr. Tavares, médico responsável, desmente. Enquanto isso, Aurélio é interrogado pela polícia, e alega que Deus o mandou atacar Bolsonaro. De volta ao hospital, a cirurgia para salvar a vida de Bolsonaro segue. O doutor pede tesouras à enfermeira. O Capitão teme que eles sejam “adoradores de Lula”, todos tramando um plano em conjunto para matá-lo. Seguimos com diversos flashbacks: Quando Michelle e Jair se conheceram, o nascimento de Laura, um embate de palavras entre ele e Paulo Pontes, vilão maior do filme.
De volta ao presente, Dr. Tavares tenta acalmar a família, mas diz que Jair não está bem. Ele passou por cirurgia, está se recuperando, dormindo num coma devido às anestesias. Não conseguirá lidar com a campanha eleitoral. Michelle retruca: “Deus está com ele”. Antes de ir, o doutor questiona: “Ele tem tomado algum medicamento? Alguma droga especial?” Imediatamente nos lembramos de Dolores e de suas pílulas. Se não fosse pelos comprimidos mágicos, Bolsonaro não teria resistido ao atentado.
Um tempo depois, Bolsonaro recupera a consciência e logo clama pela família. Tem um momento romântico com Michelle, lembra de Laura, e – pasmem – demite Flavio, meio no “porque sim”. Pois é, o cara foi DEMITIDO pelo PRÓPRIO PAI no filme que ELE ESTÁ FAZENDO.
Bolsonaro está claramente debilitado, mas não desiste. Não quer esperar mais quatro anos para concorrer às eleições. Fora do leito de UTI, a mídia continua perseguindo. São inúmeras as cenas de conversas entre repórteres – uma em específico, Lara, que está, de certa forma, relacionada aos vilões que planejaram o atentado. Estes continuam planejando a derrota de Bolsonaro. Chamam a família de “os Corleone do Brasil”. Querem Bolsonaro morto, e não vão parar até conseguirem.
Nas ruas, a questão é diferente: o apoio e mobilização popular crescem cada vez mais a favor do candidato. Às vésperas de um importante debate, Bolsonaro tenta se movimentar, dá o primeiro passo para fora da maca – “and it feels like man's first step on the moon” –, mas não resiste. Grita em extrema agonia, e é resgatado por um enfermeiro chamado Gaspar – que faz questão de mencionar, sem contexto algum, que é gay. Saber dessa informação é MUITO importante e muda todo o curso do filme.
Bolsonaro, então, volta à sala do hospital. Não pode sair. Então, entram Michelle e Dolores, que fala como uma enviada de Deus. Bolsonaro pede mais comprimidos, ela os dá e garante que ele participará do tal debate. Após isso, um debate entre Bolsonaro e amigos próximos, apoiadores que ajudaram a moldar a campanha. As falas são lindas: Bolsonaro relata, como forma de contar uma história de superação, que precisou de seis saltos para conseguir seu distintivo de paraquedista, e que, no quinto salto, um vento forte o jogou contra a parede de um prédio, em alta velocidade. Seu colega de equipe responde: “É por isso que o chamam de ‘Big Horse’! Sabiam disso? Ele era ‘Big Horse’ antes de ser ‘Dark Horse’”. Eles finalizam com Bolsonaro bolando um plano para participar do debate: Big Horse has a plan.
Às escondidas dos médicos, Carlos inicia uma transmissão ao vivo, em que seu pai, debilitado, discursa para toda a nação. A audiência deixa de assistir ao debate para se centralizar no vídeo do Mito, sua primeira aparição pública após a facada. Com o discurso, todos, dentro e fora do hospital, se emocionam. Os bandidos, que vinham tentando bolar mais um plano para matar Bolsonaro, percebem que têm pouca chance de sucesso. A Nação está com ele.
O plot twist vem agora: comovida com o discurso e cansada de trabalhar para o lado negro da Força, a jornalista Lara, que vinha lutando para destruir Bolsonaro, decide ajudar. Ela ainda não gosta do Capitão, politicamente, mas o desgosto pelos bandidos é ainda maior. Ela vai ao hospital e entra em contato com os três irmãos, alertando que Luis, assistente de Bolsonaro, está vazando informações para a mídia, e supostamente trabalha com os bandidos vilões. Luis, então, é demitido, e a mídia volta a cair em cima: QUÃO MAL ESTÁ BOLSONARO? FOI TUDO ARMADO? A POPULAÇÃO BRASILEIRA FOI VÍTIMA DE UM GOLPE?
Bolsonaro, então, conversa com seus filhos. Ele quer sair do hospital, ir às ruas, ir ao povo!! Mostrar a todos que ele realmente sofre, e que é uma vítima da perseguição política e midiática. Os filhos temem pela vida do pai, mas ele insiste. Lembra dos bons momentos de quando os dois eram crianças. Quando iam pescar, quando foram acampar, quando ele os fazia marchar até ele e saudá-lo (fetiche meio esquisito, mas ok). Devagar, ele anda pelos corredores do hospital, apoiado num andador e acompanhado dos enfermeiros, todos aplaudindo comovidos.
Os bandidos, então, preparam seu plano final. Armados até os dentes, rumam ao hospital em que Jair está internado. Eles encontram a multidão, e expulsam todos de lá. Alguns vão, entretanto, muitos ficam, e protestam. Dentro do hospital, o Capitão ouve o tumulto. Sim, caro leitor, é isso mesmo que acontece. O filme tem uma batalha final dentro do hospital, pique Gente Grande 2. O hospital começa a ser invadido, mas a Nação resiste! Ah, e é tudo tratado como uma grande guerra mesmo. Não é exagero.
No dia seguinte, todos já se foram. O exterior do hospital parece um campo de batalha após o término da guerra. Bolsonaro se prepara para sair do hospital e retomar a campanha política. O tratamento não acabou, mas ele já pode sair de Juiz de Fora e ser encaminhado a São Paulo. Ao sair do hospital, ele se despede da equipe médica e, em “dialeto da Amazônia” – seja lá o que isso queira dizer –, se despede de Dolores.
A tela escurece. Imagens reais da posse de Bolsonaro aparecem e o texto nos informa de que ele venceu as eleições presidenciais de 2018, e que as investigações apontaram que Aurélio Barba agiu sozinho. A posse passa na televisão de Paulo, vilão principal do filme e mandante do atentado. Junto dele, está um homem esbelto, careca , sério, centrado em seu comportamento. Ele poderia ser um ministro da Suprema Corte. Poderia”. Sim, ao que tudo indica, teremos uma continuação com Darth Alexandre de Moraes perseguindo nosso Escolhido.
Mais dizeres na tela narram sobre as eleições de 2022, apontando possibilidades de fraude nas urnas, além de dizer que Bolsonaro foi condenado a 43 anos de prisão pela Suprema Corte brasileira por tentativa de golpe de Estado.
Essa foi minha tentativa de resumir as 107 páginas do roteiro de Dark Horse. Foi um trabalho duro, porque a cada coisa que eu lia, eu não podia deixar de comentar. A piada vem pronta. Se tiverem um tempo livre – e muito senso de humor – recomendo que leiam. De início, pensei que o roteiro fosse falso, mas quando Flávio Bolsonaro divulgou um trailer do filme, com falas que condizem com o que está escrito, não tive mais dúvidas. Dark Horse é real e estará entre nós em breve. Ficamos, então, no aguardo para averiguar onde foram gastos os investimentos de Vorcaro, visto que no roteiro não foram. Bom é que são muitos, porque para salvar isso, precisa de muita – MUITA – grana.
Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira
