Deriva do amar
Percepção de amor
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Somos filhos do que nunca acaba
e não existimos para sermos escravos.
Eu, ignorando meus ancestrais, fui prisioneira do amor
e tive o gosto de não querer me libertar.
Cultuei o amor com devoção serena,
profetizando a imensidão do oceano,
como quem escuta o mar em sua voz mais amena.
Cultuei a profundeza de águas consagradas por Iemanjá,
onde o espírito, em meio à correnteza, haveria de se lavar.Se o Pai Criador fez o mundo e a alma de suas criaturas,
quem sou eu para contestar o amor de Oxalá?
Cultuei para que meu olhar se perdesse no horizonte do mar,
sem encontrar barreiras para ver o Sol e as ondas a se beijar.
Nossa alma, num nado fundo desse lugar, iria se aquietar.
O amar desconhece o sentido de ser prisioneiro.
Não é pirata que depende da maré para o passeio.
Fluxo de água em dança que atravessa a costa,
é onda que não acompanha a pressa nossa.
Assim como o mar é ilimitado de liberdade,
o amor também fez questão de se apresentar
como livre para quem verdadeiramente o mergulhar.
O amor liberta através da amarra do vínculo.
Na junção de duas vontades de o formar,
o amor, quando verdadeiro, é concebido.
Oposto disso é a junção em rancor escondido,
é o ódio que, mesmo fortemente reprimido,
consome e escraviza do jeito mais indevido.
Amor verdadeiro não funciona como a obediência do Sol,
o qual cumpre a pontualidade exata para queimar
e as escalas rígidas para controlar seu acender e apagar.
Amor funciona no fluxo indeterminado das águas,
na maresia intensa do salgado nas praias.
Se desgasta e balanceia, sendo necessário,
algumas vezes, decidir enfrentar o mar.
O amor não é obediente, é livre,
mas o condiciona a escolha do olhar,
e, sem a junção das vontades,
é hora do mar secar.
Revisado por Anna Eduarda
