Dica de livro: "realpolitik: a history" (john bew)
Nossa colunista convidada, Nina Avigayil Lobato, apresenta uma crítica a um dos principais livros de teoria realista nas RIs.

O acirramento das rivalidades entre superpotências em regiões como a Península Coreana, o território da Síria, a Criméia e o Mar do Sul da China provocou o retorno de debates sobre “a armadilha de Tucídides” e a relevância de Maquiavel ao meio acadêmico. Pode-se afirmar que o início do século XXI foi marcado pelo aparente retorno da palavra Realpolitik no cenário internacional. Nesse contexto, o livro escrito por John Bew, professor de História e Política Externa do Departamento de Estudos de Guerra da King’s College London, é uma leitura obrigatória para alunos de relações internacionais. O livro em questão descreve a história, os erros e os acertos da escola de pensamento Realista das Relações Internacionais.
Realpolitik pode ser usado tanto de forma pejorativa, para descrever uma interpretação pessimista, maquiavélica e cinismo de um dado cenário político, ou de forma positiva, para descrever uma interpretação pragmática de um dado cenário político.
O retorno dessa palavra para o cenário internacional contemporâneo, principalmente no meio acadêmico anglo-saxão, ocorre devido a uma descrença no excepcionalismo das potências ocidentais, em especial, os Estados Unidos e do retorno da rivalidade entre superpotências.
A palavra Realpolitik é comumente usada, porém, pouco compreendida. No mundo anglo-saxão, em especial, nos Estados Unidos, ela é usada como sinônimo de uma corrente de pensamento e pensadores realistas que se estende de Tucídides, na Grécia antiga, até Henry Kissinger, no século XXI. Contudo, originalmente, Realpolitik surge na Alemanha do século XIX, a partir da colisão entre: iluminismo, formação dos Estados nacionais da Europa e política externa.
O termo foi cunhado por Ludwing August von Rochau. Rochau era um crítico de utopias mas não do idealismo, pois ele se recusava a negar o poder das ideias e das ideologias. Ele publicou a obra "As Fundações da Realpolitik", em 1853, na qual cunhou a palavra Realpolitik.
Este livro descreve que a Realpolitik está baseada em quatro suposições. A primeira suposição; a lei do mais forte é um fator determinante na política, portanto, a soberania não é um direito natural, mas um elemento resultante do poder de um Estado. A segunda suposição; a mais efetiva forma de governo é aquela que incorpora as forças sociais mais fortes dentro do Estado, colhe a energia proveniente dessas forças e consegue alcançar um equilíbrio entre elas. A terceira suposição; as ideias têm um papel importante na política, contudo, é necessário compreender que nem sempre as ideias mais nobres têm mais poder e as ideias são tão relevantes quanto o número de pessoas que acreditam nelas (e a perseverança com que acreditam nessas ideias). A quarta suposição; a opinião pública e o espírito dos tempos (Zeitgeist) são os fatores mais importantes no planejamento das políticas de um Estado (BEW, 2016).
“As Fundações da Realpolitik”, escrito por Rochau, era um livro voltado para a política doméstica e não para a política internacional, e para a Alemanha do século XIX. O mundo no qual Rochau escreveu sobre Realpolitik era marcado pela colisão de ideias de liberdade, rápida industrialização, rivalidades entre superpotências e ondas de nacionalismo, em suma, era um mundo parecido com o que observamos na primeira metade do século XXI. O objetivo da Realpolitik, que surge na Alemanha do século XIX, era fornecer uma ferramenta que Estadistas poderiam usar para gerir e mediar as forças ideológicas, sociais, econômicas e internacionais, dentro da arte da política.
A grande aspiração de liberais como o Rochau era uma Alemanha unida e com uma sociedade baseada no império da lei mas, após a união da Alemanha, não foi o constitucionalismo e um governo representativo que prevaleceu, mas sim Otto von Bismarck. Este último forjou o Império Alemão em 1871. Nesse mesmo período, outros países da Europa eram afetados por rebeliões e pela instabilidade de governos representativos.
Então, o termo Realpolitik se tornou sinônimo da política de Bismarck e de antissemitas como Heinrich von Treitschkle. No ano passado, durante a minha visita à Europa Central, eu tive a oportunidade de conhecer o que restou do prédio da Sinagoga Oranienburger Strasse. Esta última, fundada em 1866, foi a primeira sinagoga da Europa cuja fachada do prédio era visível das ruas da cidade. A sinagoga em questão foi construída dessa forma para representar uma comunidade de judeus berlinenses que era tão orgulhosa da sua identidade Judaica quanto da sua identidade alemã. Na época, a estrutura da sinagoga foi alvo de várias críticas, entre elas, o seguinte comentário “... a mais bela e mais esplêndida casa de orações da capital da Alemanha é uma sinagoga, então é difícil negar que os Judeus são mais poderosos na Alemanha do que em qualquer outro país da Europa Ocidental”, feito por Treitschkle, em 1879.
A Realpolitik nasce como uma forma de interpretar a política pragmática para obter valores iluministas e termina no fim do século XIX, como sinônimo de cinismo, traição ao espírito cristão de benevolência, pensamento à curto prazo, ações políticas incivilizadas e falta de respeito às leis e aos tratados internacionais.
Esta é uma das razões pelas quais alguns estudiosos de Relações Internacionais podem associar o termo Realpolitik ao nacionalismo ou mesmo ao antissemitismo, mas isso seria uma análise superficial de um complexo período histórico. Rochau acreditava que o antissemitismo repugnante, absurdo e delirante, tanto quanto o teórico conservador Oswald Spengler, também um membro da Realpolitik, argumento que as teorias antissemitas que circulavam entre membros do Partido Nazista alemão eram mesquinhas, superficiais, tacanhas e indignas (BEW, 2016, p 169-170).
Pode-se considerar que, até hoje, Rochau e Bismarck representam duas tendências opostas mas que coexistem entre estudiosos que adotam uma visão de mundo baseada na Realpolitik: a primeira, representada por Rochau, que adota uma interpretação pragmática da política sem perder de vista os valores iluministas e a segunda, representada por Bismarck, que adota uma interpretação tão cínica da política ao ponto que os valores iluministas não são mais uma referência.
Antes da Segunda Guerra Mundial e depois da mesma, os E.U.A receberam vários imigrantes intelectuais Alemães, entre eles: Hans Morgenthau (1904-1980), Henry Kissinger (1923-...) e Nicholas Spykman (1893-1943). Eles contribuiram para o estabelecimento da Realpolitik no mundo anglo-saxão, em especial, nos Estados Unidos. Agora não mais utilizando o termo "Realpolitik", mas sim "Realismo" ou "Realista". Um dos principais responsáveis pela popularização da visão realista, nos Estados Unidos, foi o Walter Lippman (1889-1974), editor da revista New Republic and uma voz influente nos debates sobre política externa Americana.
O Realismo, dentro do estudo das Relações Internacionais, é uma disposição filosófica que enfatiza as limitações impostas pela natureza humana e pela condição anárquica do sistema internacional, ao que a política pode alcançar. Esta natureza humana é egoísta, anseia pelo poder e é inclinada a falhar apesar de, em vários momentos, aspirar à justiça e a uma condição moral superior.
A natureza anárquica do sistema internacional, ou seja, a ausência de uma autoridade política hierárquica que promova a diferença entre civilização e barbárie, encoraja os aspectos negativos das limitações inerentes ao homem. A interação entre a anárquica do sistema internacional e a natureza humana tem como consequência uma realidade na qual a base da vida política é a busca por poder e pela segurança.
Independe da aspiração individual à ética, para os Realistas, o Estado - principal ator do sistema internacional, mas não único - tem que agir dentro de um universal moral mais restrito que o indivíduo (DONNELLY, 2000). Note, os Estados, mesmo as superpotências, possuem recursos limitados, então os Estados não podem basear a sua política externa apenas em aspirações morais (KAPLAN, 2001). Neste caso, o Estado é o principal ator, pois é a única comunidade política capaz de reunir e aplicar os recursos necessários para sobreviver em um sistema internacional que é anárquico (GODDARD & NEXON, 2016).
Dentro de uma ordem internacional existem leis internacionais (tratados) e instituições que são as ferramentas para a aplicação práticas desses conceitos, bem como oferecem fundamentos para a legitimidade dos arranjos dessa ordem internacional, contudo são percebidas pelos Realistas como um reflexo do equilíbrio de poder e não como limitações ao comportamento do Estado.
As leis internacionais só podem ser aplicadas (só é possível coagir um ator a cumprir a lei) através dos poderes do Estado, o que não é possível no sistema internacional, pois este último não possui autoridade hierárquica que centralize em si o poder de força independente dos Estados e seja capaz de coagir os Estados. Na interpretação Realista, as leis internacionais e as instituições não determinam a razão pela qual um Estado age da forma como age.
Os estudiosos que adotam o Realismo na análise de política internacional podem ser sub-divididos, didaticamente, em: Realistas clássicos e Realistas estruturais ou neo-realistas. O primeiro grupo enfatiza a relevância de uma natureza humana imutável, uma natureza que produz forças sociais, problemas políticos, e conflitos. O segundo grupo enfatiza a anarquia internacional, uma realidade que produz forças sociais, problemas políticos, e conflitos (DONNELLY, 2000).
Dentro do neo-realismo (ou realismo estrutural), o sistema internacional é anárquico (sem uma autoridade central com o monopólio da força) e a compreensão de como o ambiente de segurança e insegurança internacional afetam o comportamento de Estados nos permite entender os arranjos de alianças, guerras e cooperações.
O crescimento econômico de um Estado ou aspirações militares do mesmo para implementar o seu "destino manifesto" é uma causa de nível unidade-Estado que possui consequências estruturais em termos de "dilema de segurança". Este último deriva do fato de que, no sistema internacional anárquico, o aparente aumento de poder de um país pode vir a aumentar a preocupação dos outros que o cercam, o que pode ou não levar a uma guerra entre as unidades Estatais que compõem o sistema internacional. A guerra, dentro da perspectiva neo-realista, é um fenômeno normal devido à estrutura do ambiente no qual a interação entre Estados acontece.
Ao contrário do que pessoas que adotam uma interpretação Realista dos fatos da política internacional gostariam de pensar, a escola de pensamento Realista das Relações Internacionais não é uma longa corrente histórica que se estende de Tucídides até o General James Mattis. Na verdade, esta é uma escola de pensamento que tem suas casas e lições retiradas das históricas e políticas do mundo anglo-saxão e da Alemanha, em especial, entre os séculos XIX e XX. O livro “Realpolitik: A History”, escrito por John Bew, é extremamente envolvente e uma verdadeira aula sobre as falhas e vitórias das principais mentes do século XX no estudo das Relações Internacionais.
BIBLIOGRAFIA
KAPLAN, Robert D. The Coming Anarchy. 1 Ed. New York: Vintage Books, 2001.\
BEW, John. Realpolitik: A History. 1 Ed. New York; Oxford University Press, 2016.
BEW, John. The Real Origins of Realpolitik.
Revista The National Interest. 1 de março de 2014. Disponível em: <https://www.jstor.org/stable/44153278?seq=1#page_scan_tab_contents>. Acesso em 29 de maio de 2018.
WALTZ, Kenneth. The Origins of War in Neorealist Theory. Journal of Interdisciplinary History. The MIT Press, Vol 14, No 4, pp. 615-628.
GODDARD, Stancie E. & NEXON, Daniel H. The Dynamics of Global Power Politics: a Framework for Analysis. Journal of Global Security Studies. 1(1), 2016, 4-18.
Revisado por Equipe de Revisão