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Mundo

Ditadura algorítmica

O texto reflete sobre como os algoritmos deixaram de apenas organizar conteúdos para moldar desejos, opiniões e formas de enxergar o mundo.

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Mariana Mendes

7 min de leitura

29 de junho de 2026

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Empresários de todo o mundo repetiram que a internet seria a maior expansão de horizontes da história humana. Pela primeira vez, qualquer pessoa poderia atravessar oceanos sem sair da cama, encontrar culturas diferentes, ouvir vozes de quem está distante e romper com qualquer barreira delimitada pela própria geografia.


De fato, o mundo faz-se presente em uma tela de 15 cm, mas as janelas prometidas, em algum ponto, tornaram-se funis. Hoje, o que a rede social dita como moda é repetida por todos os usuários, e aqueles que se atreverem a não seguí-la, não possuirão o mesmo alcance social. Na lógica capitalista, o espaço que se anuncia como infinito é usado para promover a necessidade de se adequar a um sistema e vender individualidades em série, com os mesmos padrões comportamentais e ideológicos que se mostram lucrativos.


Todos querem a mesma bolsa, a mesma calça e o mesmo óculos que viram a filha de uma influenciadora usando - uma jovem inserida, desde sempre, em um contexto de exposição que exige condições perfeitas e a transformação de humanos em máquinas de produção. Todas as crianças querem o mesmo brinquedo, aquele que apareceu em uma propaganda do celular, cheio de estímulos, cores e barulhos que buscam, mais do que nunca, jorrar dopamina na mente de crianças que, atualmente, não conseguem assistir vídeos de mais de 1 minuto. Todos os usuários das redes, iludidos pela milagrosa ascensão em um estrutura que é sustentada pela desigualdade, queimam seus salários mínimos nas bets, propagadas a cada esquina digital, na esperança de ganhar a reviravolta da vez e fazer parte de uma inventada elite. 


Há quem tenha a ilusão de que as escolhas são feitas conscientemente, mas a máquina invisível trabalha incessantemente para eliminar qualquer encruzilhada no caminho ditado pela tecnologia. O algoritmo compreendeu a verdade mais desconfortável sobre a natureza humana: gostamos do familiar e da sensação morna de encontrar nossas próprias opiniões vestidas em palavras bonitas. Gostamos, mais ainda, de nos sentir pertencentes ao todo e, pior que isso, temos medo do diferente e da exclusão que a não alienação acompanha.


Durante séculos, o aprendizado e o conhecimento significavam fruto de uma longa caminhada em direção ao desconhecido. Exigia travessia de ruas estranhas, enfrentamento do medo ao novo, risco de desconforto e a possibilidade de descobrirmos que estávamos, na verdade, percorrendo na direção errada. Atualmente, o processo de conhecimento tornou-se confirmação virtual, em que a máquina mapeia todos os trajetos em alta e pavimenta os caminhos à nossa frente. 


A internet abandonou a promessa de romper com as fronteiras e tornou-se uma esteira: caminha-se durante horas no mesmo lugar e nunca se encontra um destino novo. O algoritmo repete padrões e molda os anseios de cada usuário, nos alimentando com doses cuidadosamente calculadas de medo, êxtase e curiosidade, estimulando mais 3 horas seguidas de vídeos baseados em vontades que acreditamos, inocentemente, terem sidos construídas de modo autônomo.


Antes, o contato humano funcionava como uma espécie de atrito, em que teses eram desconstruídas e reinventadas durante o convívio. Essa fricção de pensamentos, oriundo da convivência, possuia a incrível capacidade de desgastar certezas e lapidar verdades, características importantíssimas para o desenvolvimento intelectual. No entanto, melhor do que ser contrariado, é a sensação de ser vangloriado, e o algoritmo entende disso.


Conteúdos produzidos para reforçar exatamente os mesmos medos, mesmas suspeitas e mesmos ressentimentos, tudo para prender os usuários em seus próprios egos. Aos poucos, a realidade deixa de ser a principal fonte de aprendizado e é substituída por uma sequência infinita de ecos, em que basta a validação de um vídeo de 15 segundos ou uma breve consulta no chat gpt com a frase “você não acha, chat?”.


Percorremos um corredor estreito cuidadosamente traçado e algoritmicamente calculado. Cada vídeo recomendado, cada publicação sugerida, cada compra online e cada usuário promovido funcionam como uma mão invisível reposicionando discretamente os trilhos de um trem, tudo isso enquanto o condutor dorme. 


O algoritmo não filtra ideologias, muito menos atentados á democracia ou aos direitos humanos. O algoritmo ama retenção, mesmo que o engajamento dependa de influenciadores que vendem cursos propagando a misoginia e a homofobia. O importante é reter usuários, despertar o medo, a raiva e a sensação de pertencimento, aumentar o tempo de tela mesmo que promova grupos neonazistas, tudo isso desde que gere  lucros.


Páginas de ódio são alimentadas por usuários incapazes de mudar de direção, presos em suas bolhas e na sensação de que estão seguindo verdades absolutas reafirmadas em todas brechas possíveis das redes sociais. O algoritmo não se incomoda em gerar usuários cada vez mais confortáveis de incitar o ódio e certos de que a doutrina que seguem, a que declara a decapitação de sociedades, é a hegemônica.


Seguimos acreditando que habitamos em um espaço infinito de possibilidades, em um canal seguro, com conteúdos escolhidos, individualmente, por nós mesmos. No entanto, a paisagem que parecia ampliada pelas redes é surpreendida pela tragédia digital, em que ocorre a lenta substituição do encontro pelo reflexo repetido de ideias mastigadas por corpos docilizados. A convivência deixa de ser humana. Paradoxalmente, as redes sociais, que prometiam o infinito, finitam o cognitivos de usuários e transferem a posse da vontade dos indivíduos, delimitando, cada vez mais, fronteiras para a busca da criticidade. 


Caminhamos ruas previamente cercadas, percorremos trilhos já posicionados, consumimos desejos cuidadosamente escolhidos e contemplamos opiniões previamente distribuídas e repetidas. Nunca tivemos acesso a tantos caminhos e, mesmo assim, percorremos os mesmos corredores de abate. Na domesticação do imaginário, a internet prometeu horizontes e entregou loteamento de ideias, os quais dividem as paisagens em pequenos terrenos, até que ninguém consiga enxergar mais nada para além do próprio muro.


Revisado por Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Mariana Mendes

Há 7 meses na Gazeta

Redatora e membra institucional da Gazeta Vargas.

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