Ditadura algorítmica
O texto reflete sobre como os algoritmos deixaram de apenas organizar conteúdos para moldar desejos, opiniões e formas de enxergar o mundo.

Empresários de todo o mundo repetiram que a internet seria a maior expansão de horizontes da história humana. Pela primeira vez, qualquer pessoa poderia atravessar oceanos sem sair da cama, encontrar culturas diferentes, ouvir vozes de quem está distante e romper com qualquer barreira delimitada pela própria geografia.
De fato, o mundo faz-se presente em uma tela de 15 cm, mas as janelas prometidas, em algum ponto, tornaram-se funis. Hoje, o que a rede social dita como moda é repetida por todos os usuários, e aqueles que se atreverem a não seguí-la, não possuirão o mesmo alcance social. Na lógica capitalista, o espaço que se anuncia como infinito é usado para promover a necessidade de se adequar a um sistema e vender individualidades em série, com os mesmos padrões comportamentais e ideológicos que se mostram lucrativos.
Todos querem a mesma bolsa, a mesma calça e o mesmo óculos que viram a filha de uma influenciadora usando - uma jovem inserida, desde sempre, em um contexto de exposição que exige condições perfeitas e a transformação de humanos em máquinas de produção. Todas as crianças querem o mesmo brinquedo, aquele que apareceu em uma propaganda do celular, cheio de estímulos, cores e barulhos que buscam, mais do que nunca, jorrar dopamina na mente de crianças que, atualmente, não conseguem assistir vídeos de mais de 1 minuto. Todos os usuários das redes, iludidos pela milagrosa ascensão em um estrutura que é sustentada pela desigualdade, queimam seus salários mínimos nas bets, propagadas a cada esquina digital, na esperança de ganhar a reviravolta da vez e fazer parte de uma inventada elite.
Há quem tenha a ilusão de que as escolhas são feitas conscientemente, mas a máquina invisível trabalha incessantemente para eliminar qualquer encruzilhada no caminho ditado pela tecnologia. O algoritmo compreendeu a verdade mais desconfortável sobre a natureza humana: gostamos do familiar e da sensação morna de encontrar nossas próprias opiniões vestidas em palavras bonitas. Gostamos, mais ainda, de nos sentir pertencentes ao todo e, pior que isso, temos medo do diferente e da exclusão que a não alienação acompanha.
Durante séculos, o aprendizado e o conhecimento significavam fruto de uma longa caminhada em direção ao desconhecido. Exigia travessia de ruas estranhas, enfrentamento do medo ao novo, risco de desconforto e a possibilidade de descobrirmos que estávamos, na verdade, percorrendo na direção errada. Atualmente, o processo de conhecimento tornou-se confirmação virtual, em que a máquina mapeia todos os trajetos em alta e pavimenta os caminhos à nossa frente.
A internet abandonou a promessa de romper com as fronteiras e tornou-se uma esteira: caminha-se durante horas no mesmo lugar e nunca se encontra um destino novo. O algoritmo repete padrões e molda os anseios de cada usuário, nos alimentando com doses cuidadosamente calculadas de medo, êxtase e curiosidade, estimulando mais 3 horas seguidas de vídeos baseados em vontades que acreditamos, inocentemente, terem sidos construídas de modo autônomo.
Antes, o contato humano funcionava como uma espécie de atrito, em que teses eram desconstruídas e reinventadas durante o convívio. Essa fricção de pensamentos, oriundo da convivência, possuia a incrível capacidade de desgastar certezas e lapidar verdades, características importantíssimas para o desenvolvimento intelectual. No entanto, melhor do que ser contrariado, é a sensação de ser vangloriado, e o algoritmo entende disso.
Conteúdos produzidos para reforçar exatamente os mesmos medos, mesmas suspeitas e mesmos ressentimentos, tudo para prender os usuários em seus próprios egos. Aos poucos, a realidade deixa de ser a principal fonte de aprendizado e é substituída por uma sequência infinita de ecos, em que basta a validação de um vídeo de 15 segundos ou uma breve consulta no chat gpt com a frase “você não acha, chat?”.
Percorremos um corredor estreito cuidadosamente traçado e algoritmicamente calculado. Cada vídeo recomendado, cada publicação sugerida, cada compra online e cada usuário promovido funcionam como uma mão invisível reposicionando discretamente os trilhos de um trem, tudo isso enquanto o condutor dorme.
O algoritmo não filtra ideologias, muito menos atentados á democracia ou aos direitos humanos. O algoritmo ama retenção, mesmo que o engajamento dependa de influenciadores que vendem cursos propagando a misoginia e a homofobia. O importante é reter usuários, despertar o medo, a raiva e a sensação de pertencimento, aumentar o tempo de tela mesmo que promova grupos neonazistas, tudo isso desde que gere lucros.
Páginas de ódio são alimentadas por usuários incapazes de mudar de direção, presos em suas bolhas e na sensação de que estão seguindo verdades absolutas reafirmadas em todas brechas possíveis das redes sociais. O algoritmo não se incomoda em gerar usuários cada vez mais confortáveis de incitar o ódio e certos de que a doutrina que seguem, a que declara a decapitação de sociedades, é a hegemônica.
Seguimos acreditando que habitamos em um espaço infinito de possibilidades, em um canal seguro, com conteúdos escolhidos, individualmente, por nós mesmos. No entanto, a paisagem que parecia ampliada pelas redes é surpreendida pela tragédia digital, em que ocorre a lenta substituição do encontro pelo reflexo repetido de ideias mastigadas por corpos docilizados. A convivência deixa de ser humana. Paradoxalmente, as redes sociais, que prometiam o infinito, finitam o cognitivos de usuários e transferem a posse da vontade dos indivíduos, delimitando, cada vez mais, fronteiras para a busca da criticidade.
Caminhamos ruas previamente cercadas, percorremos trilhos já posicionados, consumimos desejos cuidadosamente escolhidos e contemplamos opiniões previamente distribuídas e repetidas. Nunca tivemos acesso a tantos caminhos e, mesmo assim, percorremos os mesmos corredores de abate. Na domesticação do imaginário, a internet prometeu horizontes e entregou loteamento de ideias, os quais dividem as paisagens em pequenos terrenos, até que ninguém consiga enxergar mais nada para além do próprio muro.
Revisado por Pedro Anelli Bastos
