Doutrina Donroe
O texto busca criticar e expor as ações do governo Trump no que diz a respeito à política de imigração e internacional

Quando Donald Trump assumiu novamente a presidência dos Estados Unidos no início de 2024, todos já sabiam qual seria a direção que o governo tomaria. A volta ao conservadorismo, um discurso sobre protecionismo econômico e a falsa narrativa do estabelecimento da paz mundial “propagada pelos EUA”. Tudo isso se concretizou no começo. Políticas anti-imigratórias; instauração de tarifas de importação para todos os países; discursos do presidente americano sobre como conflitos acabaram devido a sua intervenção. O que ninguém previu, entretanto, foi que Trump, a partir do uso dessas políticas, estava destinado a construir um governo imperialista em pleno século XXI. Para buscar entender como o atual presidente criou essas narrativas, é preciso analisar cada uma dessas políticas minuciosamente e compreender como as três instauram um viés imperialista no governo americano.
Tratando-se primeiramente da política imigratória americana atual. Desde seu primeiro mandato como presidente, Trump sempre se posicionou de maneira muito firme em relação à imigração, principalmente latina, para os Estados Unidos. O que pouco se esperava para seu segundo mandato era a proporção com que o governo americano começou a tratar esses indivíduos. O Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), que nunca recebeu tanta atenção dentro do sistema de governo americano, teve seus serviços impulsionados desde que Trump retornou à Casa Branca e vem atuando de maneira improcedente.
De acordo com o governo americano, a detenção e deportação de imigrantes atua com enfoque naqueles que são “criminosos” e “terroristas”, destacando sua narrativa em indivíduos que foram julgados e sentenciados pelo sistema de justiça americano. Entretanto, apesar do número de detenções para esses casos ter aumentado, também cresceram as ocorrências em que o imigrante alvo do ICE não possuía nenhum tipo de sentença nem acusação criminal. Além disso, o uso de violência tanto simbólica quanto física durante as ações da entidade também é outro aspecto em que o ICE parece atuar em uma linha tênue entre legalidade e clandestinidade. O assassinato de Renee Nicole parece ter sido a gota d’água para os americanos em relação à violência da instituição, encadeando uma série de debates e manifestações contra o ICE e o governo Trump em geral.
A partir disso, não é impossível entender a política imigratória de Trump, que enfatiza a legalidade e autoridade das ações da polícia imigratória, como uma expulsão sem critério de imigrantes do território americano. A falta de critério e o nível de violência usado contra imigrantes escancara a adoção de práticas autoritárias pela Casa Branca. As pessoas não possuem o direito de saber o porquê estão sendo detidas e não possuem direito de defesa. Se o governo quer você fora do país, ele vai te tirar. E, também, vai te humilhar, juntamente com sua família e seu país de origem. Se você resistir, podem disparar contra você e inventar mentiras tentando justificar a violência. A política trumpista não se trata apenas de uma tentativa de estabelecer uma imigração mais dura nos EUA, se trata, principalmente, de uma maneira “legal” de limpar o país de pessoas que não são fisiologicamente e culturalmente bem-vindas pelo presidente.
Transicionando a atenção agora para as tarifas e o discurso sobre a paz. Desde o retorno à presidência, Trump sempre enfatizou a necessidade de a economia americana voltar a ser forte e independente das demais. Visando tal objetivo, o presidente, em abril de 2024, no chamado Liberation Day, anunciou inúmeras tarifas de importação que seriam impostas para todos os países que gostariam de realizar negócios com a economia americana. A justificativa para o tarifaço foi exclusivamente econômica. Era necessário que a indústria e os empregos americanos fossem protegidos à custa do comércio internacional. Uma medida retrógrada e protecionista, entretanto, minimamente legítima. Dessa forma, as tarifas foram calculadas a partir do déficit comercial dos Estados Unidos com os demais países do mundo, índice que supostamente mede a desvantagem comercial dos EUA com o restante do globo – algo que não faz sentido econômico algum, ao ponto que um déficit não denomina nenhum tipo de vantagem comercial
Partindo agora para o discurso inicial sobre a paz. Já durante o período eleitoral, Trump sempre se mostrou como o presidente que mais se preocupa com a paz mundial, enfatizando que seu primeiro mandato foi muito positivo para atingir esse objetivo. O presidente também reforçou que em seu governo seria responsável por garantir a paz no Oriente Médio, com o fim da guerra em Gaza e do conflito entre Irã e Israel, e na Europa, com o fim da Guerra da Ucrânia. Trump lançou-se para o prêmio do Nobel da Paz devido a essa iniciativa de seu governo, tentativa que se mostrou falha posteriormente. Entretanto, tais iniciativas do governo que visavam aprimorar a economia e corroborar a paz mundial se mostraram como um passo para a volta do imperialismo americano, e para compreender isto, é necessário observar como essas políticas saíram do papel.
Em relação às tarifas, é muito claro que Trump decidiu usá-las como uma arma diplomática do que um instrumento econômico. Mesmo antes de deixar essa finalidade clara, já era possível enxergar padrões sobre a dimensão das tarifas para certos países. Por exemplo: nações economicamente próximas à China; com uma situação diplomática deteriorada com os EUA; que pertencem ao BRICS, possuem estatisticamente uma tarifa maior do que as demais. Além disso, no último mês, casos em que o uso explícito das tarifas se tratou de um instrumento coercivo se tornaram mais claros. Nenhum desses casos é mais severo do que as ameaças impostas aos países europeus que não apoiam a invasão de Trump na Groenlândia. Dessa forma, as tarifas trumpistas foram disfarçadas inicialmente como um mecanismo que buscaria tornar a economia industrial americana forte novamente. Contudo, suas verdadeiras finalidades são realmente em exercer um poder econômico sobre os demais países para que estes reforcem posições americanas em dinâmicas internacionais.
Em relação ao discurso da paz, essa também foi uma narrativa utilizada por Trump para buscar satisfazer seus interesses no âmbito internacional. Analisar os casos iranianos e venezuelanos são cruciais para o entendimento dessa dinâmica. Primeiramente, se propaga o discurso. “O governo autoritário de […] precisa ser deposto pelo bem da democracia e liberdade”; “O governo terrorista de […]”; “Os Estados Unidos precisam garantir a liberdade para o povo de […]”. Essas frases sempre instauram a narrativa heróica dos EUA e criam uma suposta legitimidade à intervenção americana. Logo depois se inicia o combate. Ou melhor, ataque. Deposição de governos ilegítimos e/ou ataques ilegítimos à bases militares foram os escolhidos pelo governo americano contemporâneo. Finalmente, a paz é estabelecida. Que paz? Uma paz construída à base de sangue. Trump não busca a paz. Ele busca apenas o interesse geopolítico americano às custas de um discurso sobre a paz. Como é possível garantir a paz no Oriente Médio bombardeando bases no Irã? Como se instaura a paz depondo um governante chavista, mas mantendo seus principais sucessores no país? Apenas se a paz é representada por aniquilar o governo iraniano ou por 50 milhões de barris de petróleo. Dessa forma, é evidente a distorção que o governo trumpista utiliza quando se refere à preservação da paz. Para Trump, a paz é apenas um instrumento de falácia para atingir interesses próprios e se impor diante dos demais países emergentes, algo recorrente na história americana.
Dessa forma, as bases que supostamente iriam impor uma ordem na economia americana e a propagação da paz através da ação dos Estados Unidos se transformam em instrumentos que incentivam a reinserção do país como uma potência imperialista. Isso se concretiza ao ponto que os três âmbitos explicitados corroboram um discurso de superioridade étnica; uma imposição econômica; uma artimanha que “legitima” ações violentas perante outros Estados soberanos. Através disso, os Estados Unidos retornam a uma posição familiar da sua política internacional. Novamente, operam na geopolítica para impor sua ideologia se utilizando do uso da força como já realizaram no começo do século XXI.
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REFERÊNCIAS:
JOHNNY HARRIS. Why the US is deporting so many people. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=aDbtrdfYqBc>.
ARTHUR VISCONDE, ATHOS SOTTOMAIOR. Avaliação Empírica da Política Tarifária dos EUA: Entre Déficits Comerciais e Estratégia Geopolítica
Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira e Ana Carolina Narios Clauss
