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Relato Pessoal

Em nome de Deus, me empurraram ao chão

Refletimos sobre as marcas que os retiros de “conversão” deixam na juventude queer – espaços que dizem curar, mas operam pela violência, pela culpa e pelo silenciamento.

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Vicky Auricchio Saes

10 min de leitura

29 de janeiro de 2026

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Junho de 2022.


Tudo começou quando uma amiga, cristã, me convidou para um retiro de jovens. Minha família é cristã. Cresci assim. O convite não soou estranho à primeira vista – a fé sempre esteve presente, como hábito, como vocabulário, como herança, desde que me entendo por gente. Ainda assim, resisti. Disse não mais de uma vez, mas acabei cedendo à insistência dela e da minha mãe. Não poderia ser tão ruim, pensei.


O retiro aconteceria em um lugar afastado, rural, a cerca de uma hora da minha cidade, não lembro exatamente onde. Mas lembro que havia apenas uma casa e uma igreja, com mais nada em volta. O isolamento não era detalhe logístico, eu sentia como método. Ao chegar, percebi que não haveria para onde ir, nem física nem simbolicamente.


Os jovens tinham entre treze e dezessete anos. Catequistas estavam presentes. Nenhum pai, nenhuma mãe. Os dias seriam rigidamente organizados, do início da manhã até a noite, preenchidos por pregações, palestras e atividades contínuas. Desde o primeiro momento, senti um deslocamento difícil de nomear. Não era necessariamente uma descrença. Todos à minha volta pareciam anestesiados – não como uma tranquilidade, mas amortecidos. Eu estava ali com o corpo inteiro, e isso me fazia parecer inadequado.


Na primeira noite, dormi mal. Usei fones de ouvido como se fosse me proteger de alguma coisa. Ouvi 3 O’Clock Things, em looping. Na manhã seguinte, veio a primeira palestra. Foi violento sair do ambiente escolar, onde ideias se debatem, para me ver preso a um banco de madeira, ouvindo um homem discursar sobre o papel vulnerável da mulher na sociedade. Distribuíram uma lista de duas páginas para leitura e reflexão na qual falavam de submissão, de real natureza, de destino. Senti certa náusea, o vômito subiu queimando a garganta enquanto as lágrimas ardiam nos olhos. Algo estava obviamente errado e ainda assim ninguém parecia autorizado a dizer isso em voz alta.


Enquanto ouvia, flashes do que eu tentava esconder voltaram com uma força que eu já não era mais capaz de controlar. Durante o oitavo e o nono ano do ensino fundamental, enfrentei um período complicado de depressão, crises de ansiedade e um tipo de cansaço estrutural. Já com minha entrada no ensino médio, algo começou a se deslocar lentamente. Comecei a suspeitar que talvez eu não fosse hetero. Talvez eu não fosse, sequer, mulher. Experimentei drag, cosplay, roupas emprestadas – sempre protegendo tudo sob a palavra “arte”. Afinal, minha família é de artistas, o que faria de mal tornar a arte meu abrigo? Ainda assim, quando me via no espelho, com roupas do meu irmão e contornos mal feitos no rosto, sentia algo difícil de entender: reconhecimento. Não alegria plena, mas uma verdade suficiente para assustar. Então guardei meu tão precioso nome. Guardei meu desejo. Guardei meu segredo. A segunda palestra foi semelhante a uma missa comum. Entediante, previsível. O mal-estar anterior, porém, não cessou. Ele apenas aguardava.


Na terceira palestra, algo no tom mudou. O palestrante era carismático, fazia piadas, criava proximidade. Entre todos os corpos sentados, escolheu o meu. Me chamou à frente do altar e eu subi ao palco. Nunca fui bom em esconder o que penso, então é de se esperar que meu rosto denuncie discordâncias com facilidade. Bastou isso. Tudo começa gentil. As piadas viram perguntas. As perguntas viram diagnósticos.


“Você está deprimido porque seus amigos não são cristãos.” “Seus pais brigam porque você quis beijar alguém que não devia.”


E, sem mera transição, a culpa é instaurada. Fazem você acreditar que tudo é culpa sua. Que você é miserável. Que quem você é condena não apenas a si mesmo, mas todos à sua volta. Olhei para a plateia com todos aqueles rostos tão jovens quanto o meu, em colapso. Alguns chorando em soluços descontrolados. Quando julgaram que haviam ferido o suficiente, ofereceram a cura. É simples assim. Primeiro o ataque, depois a promessa. Primeiro a quebra, depois a redenção. De que outro modo poderiam me convencer de uma solução se não há problema?


Neguei em silêncio e voltei para o meu lugar.


Naquela noite, houve uma cerimônia. Apagaram as luzes, nos mandaram ficar em pé no escuro. Mandaram fechar os olhos e pensar o mínimo possível. E então, um homem começou a falar ao microfone com tremendo fervor sobre pecado, arrependimento, sobre ainda haver tempo para consertar tudo. Ao mesmo tempo, amaldiçoava tudo em que eu acreditava. E por um instante, era como se falasse diretamente comigo.


Anormal.

Aberração.

Vergonha.

Doente.

Traveco.


Chorei, confesso, mas chorei de raiva. Um ódio denso, estruturante, que eu não sabia ser capaz de sentir até aquele momento. Quando abri os olhos, notei que pessoas começaram a cair. Deviam estar sendo redimidas, recebendo o Espírito. Mas não, elas eram empurradas. Membros do retiro circulavam, empurrando corpos ao chão, “para receber o Espírito”. Fingiram ser Deus e aplicaram força. Tentaram me empurrar e não cedi. Empurraram mais forte. Quando me colocaram no chão, tive a maior clareza da minha tão breve vida: aquilo não era fé. Era encenação. Não era espiritualidade. Era controle.


Foi ali, em meio às lágrimas, que fiz uma promessa silenciosa. Eu nunca mais iria negar, esconder ou me submeter a isso. Eu sou uma pessoa trans. Eu sou pansexual. Eu sou o que sou. Repeti isso baixinho, inúmeras vezes. Eu não vou desistir de mim. Posso perder o que for, mas não vou mais mentir sobre quem sou.


Passei a noite em claro. Na manhã seguinte, implorei aos meus pais que me tirassem dali.

Hoje, consigo nomear com precisão o que vivi. Essas práticas operam por meio de coerção psicológica, medo e culpa. Manobras como essa desconstroem a identidade de um sujeito até que a rendição seja oferecida como alívio espiritual para o mal que eles mesmos causam. E é tão organizado quanto um método: isolar, fragilizar, humilhar e, por fim, oferecer a submissão como salvação. Não é fé, é abuso em forma de doutrina.


Do ponto de vista jurídico, práticas de conversão como a que vivi violam princípios fundamentais da dignidade da pessoa humana, do direito ao livre desenvolvimento da personalidade e da proteção integral de crianças e adolescentes. Não possuem respaldo científico, psicológico ou legal. O que se mascara em mera expressão de fé é a propagação de um trauma geracional, assédio moral e violência institucional. Ao permitir que se escondam sob o manto da liberdade religiosa permitimos também que direitos fundamentais sejam relativizados por convicções particulares, algo incompatível com um Estado laico – se é que ainda podemos chamá-lo assim – e comprometido com os direitos humanos.


Não é acaso que, enquanto práticas de conversão seguem operando à margem da lei, pessoas trans lutam para chegar a espaços centrais de poder. A presença de Erika Hilton no Congresso não é exceção nem símbolo individual: é ruptura. Ela prova, na arena institucional, aquilo que tentam nos negar no âmbito privado – que somos sujeitos de direito, produtores de lei e incontornáveis na democracia.


Hoje, no dia da visibilidade trans, é imprescindível que lutemos também pela nossa juventude. Precisamos afirmar, com radicalidade, que o amor não é moeda de troca nem instrumento de correção. Quem nos ama, nos ama por quem somos — sem barganhas, sem promessas de cura, sem a exigência de desaparecimento. A chamada “terapia de conversão” não é cuidado, não é fé, não é opinião: é violência. É trauma sistematizado, abuso emocional e assédio institucional legitimados por discursos morais que se pretendem sagrados. Quando toleramos que a religião seja usada para impor esse tipo de prática, abrimos mão da proteção jurídica, política e social das pessoas LGBT+, permitindo que nossos corpos e identidades sejam tratados como erros a serem corrigidos. E afirmo: nenhuma religião, em seu cerne, legitima sofrimento deliberado e vil. Quando o faz, deixa de ser fé e passa a ser violação. Defender nossos direitos não é um gesto de tolerância, é um ato de resistência. É exigir que o Estado, a sociedade e as instituições reconheçam que nossa existência não está em disputa. Não se trata de crença, trata-se de dignidade. E dignidade não se negocia.


Depois dessa experiência, eu mudei meu nome.


E, ao fazê-lo, não me reinventei. Apenas passei a existir sem pedir desculpas.


Imagem de capa: Pinterest


Revisado por Ana Carolina Narios Clauss e Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Vicky Auricchio Saes

Há 8 meses na Gazeta

Sou uma pessoa não binária, amante de café e apaixonada por transformar o real em ficção. Sou natural de São José dos Campos, estudo Direito como bolsista na FGV, já publiquei dois livros.

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