Eu sempre me atraso
Uma crônica sobre o medo silencioso de deixar os instantes passarem e a tentativa de permanecer, só mais um pouco, em tudo aquilo que nos faz ser quem somos.
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Coleto, ao longo do dia, pedaços de mim.
A cada interação, cada conversa, cada palavra que entra por um ouvido e não sai pelo outro, eu viro mais eu.
Desde o momento em que acordo até quando vou dormir, teço um pouco mais de mim: minha personalidade, minhas manias, minha filosofia.
Eu sempre estou atrasada porque quero viver tudo.
Eu acordo e demoro a sair de casa porque gosto da minha própria companhia.
Chego atrasada na aula, e quando acaba eu demoro a sair, porque quero colocar o papo em dia, ouvir as fofocas que perdi e assim: viro mais eu.
No caminho pro escritório eu passo pela EAESP e do nada me vejo presa na salinha atlética como se tivesse uma força que me puxasse para aquele sofá (que é velho demais, mas com certeza guarda muitas histórias). Deixo minhas preocupações passarem como se fossem nuvens carregadas pelo vento e, sem pedir permissão, o tempo passa por mim.
Estou atrasada mais uma vez, mas valeu a pena: me tornei mais eu.
Até mesmo do trabalho eu peno em ir embora, porque temos um cliente maluco que está gerando um bom entretenimento ou porque eles me contam algum caso antigo do escritório que eu preciso ouvir.
E assim, atraso pro treino, e quando acaba, sinto que meu corpo me força a ficar uma vez mais. Quiçá tenha medo de perder a vida que está acontecendo ao meu redor.
Logo, me atraso para dormir, porque tenho medo de, ao ir embora, me perder.
Quando somos crianças, nossos pais nos pedem para parar de brincar e ir tomar banho e sempre reclamamos, “por que vou deixar de fazer algo que me entretém agora?” Finalmente obedecemos e, em seguida, parece que já nos mandam sair do banho, “mas agora é aqui que estou me divertindo, não quero mais sair.” Eu ainda sou essa criança, presa sempre ao passado e ao agora, com medo da mudança.
O agora está tão vivo: não quero trocá-lo pelo próximo instante, não quero perder a vida enquanto ainda está acontecendo, não quero abandonar versões de mim que ainda estão se divertindo.
Revisado por Pedro Anelli Bastos
