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Cultura

Fantastic Mr.Fox: a masterpiece mais única do cinema

O texto realiza uma resenha sobre Fantastic Mr Fox para entender como o filme é uma das obras-primas mais únicas da história do cinema

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Arthur Visconde

7 min de leitura

29 de abril de 2026

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   Todo diretor tem a sua masterpiece. Kubrick tem 2001: Uma Odisseia no Espaço; Scorsese tem Goodfellas; Nolan tem Interstellar. Todos esses longas têm diversas características em comum. São comerciais. São complexos. Abrangem diversos temas e enquadram diversos níveis de personagens. Para um filme ser considerado uma obra, parece que ele deve sempre cumprir com os mesmos requisitos. Todas elas são extremamente parecidas, ao ponto que sempre se consegue saber se um filme se enquadra como uma masterpiece logo no seu primeiro ato.


            Quando tratamos de Wes Anderson, entretanto, é preciso ter cuidado ao enquadrá-lo em rótulos convencionais. Nada que o diretor produz parece normal. Quem mais usa stop motion no século XXI? É evidente que o uso de animação digital seria muito mais efetivo e comercial, mas assim não seria um filme de Wes Anderson. Um diretor que nunca deixou de expressar suas paixões no cinema e nunca sucumbiu ao mais fácil e efetivo em troca do mais trabalhoso e pessoal.


            Dessa forma, é evidente que a sua obra-prima teria seu toque divergente à cultura hollywoodiana. É claro que seria um filme completamente diferente de todos aqueles que são vistos normalmente em salas de cinema; que, ao invés de apelar para produções espetaculosas e para grandes nomes da indústria, foca em uma produção simples, mas com um enredo cheio de significados. Isso é exatamente o que foi criado com Fantastic Mr. Fox. Um stopmotion sobre uma raposa humanoide que abandona sua vida de ladrão para se tornar um trabalhador honesto. É óbvio que nada disso soa como um filme comum e, felizmente, ele de fato não é. Mas, a partir justamente dessa estranheza, o filme consegue tratar de temas extremamente relevantes e complexos de uma maneira muito simples.


            O longa começa justamente com o personagem principal, Mr Fox, abandonando sua vida como ladrão ao descobrir que sua esposa está grávida de seu primeiro filhote. O personagem jura nunca mais cometer crimes e buscar viver uma vida justa e honesta, fora dos perigos das ruas. A partir disso, ele busca recomeçar, procurando empregos na área jornalística para conseguir suprir sua família. Logo após a conquista profissional, o filme pula 5 anos da vida honesta da raposa, retomando a narrativa quando o protagonista não consegue mais viver daquela maneira honesta. Ele se encontra congelado por sua rotina. O personagem não consegue mais enxergar a beleza no mundo em que vive, isso não é o que raposas fazem, raposas são selvagens, elas roubam. Fox começa, portanto, a planejar seu maior crime, aquele que determinaria o fim de sua vida como bandido e traria novamente a alegria em sua rotina.


            Dessa maneira, se inicia o segundo arco do longa. O crime e suas consequências. O plano ocorre quase perfeitamente, o personagem rouba tudo o que planejou e não é descoberto no ato. Porém, ao descobrir o responsável, os fazendeiros assaltados decidem perseguir a raposa para finalmente por um fim em sua vida. Eles destroem sua casa, sequestram seu filhote e o colocam em um buraco rodeado de armas, juntamente com sua família. A raposa conseguiu sua alegria de volta em troca da segurança e bem-estar de seus amigos e familiares.


            Vale ressaltar que, apesar do enredo tratar de eventos trágicos e sérios, o filme ainda anda de maneira extremamente leve e engraçada. O humor típico do diretor continua sendo usado em todas as ocasiões do filme. O filme parece um filme infantil ao mesmo tempo que se propõe a contornar temas extremamente maduros. A melhor parte desses elementos é que nenhum deles se sobrepõem sobre o outro. Em todas as cenas mais significativas o humor é sutilmente depositado e em cenas mais leves a seriedade do filme continua sendo encontrada.


            No terceiro e último ato o protagonista e sua família conseguem escapar dos fazendeiros que os cercavam, mas a melhor parte desse momento não se deposita em cenas de ação, mas sim na última cena do filme. Nela, Mr Fox está no final de sua fuga até que se depara com um lobo selvagem. Diferentemente de todos os animais tratados até aqui, o lobo não se parece como um ser civilizado. Ele não fala, não se expressa com gestos e não se veste com roupas humanas. Ele é simplesmente um lobo. A raposa, ao vê-lo, para sua moto e olha ao lobo com um olhar emocionado. O lobo não reage para nada que a raposa faz. Logo depois, Mr Fox cerra o punho e o levanta para o lobo, simbolizando que ele compactua com o animal, que mesmo assim não entende o que a raposa busca expressar e apenas continua sua jornada e entra na mata. Essa cena é muito sutil, mas é genial. Ela simboliza o amadurecimento da raposa. A partir dela, o protagonista abandona o seu lado selvagem e sua vida de ladrão e abraça sua vida civilizada em prol da sua família. A cena do lobo transmite que existem momentos em que devemos nos transformar durante nossas vidas para que possamos crescer como indivíduos. Ela encerra a construção de uma obra-prima.


            Fantastic Mr Fox não se propõe a ser um filme genérico. Desde o começo ele busca fugir dos rótulos da indústria. É difícil até enquadrá-lo em um único gênero. De todas as obras-primas já criadas na história do cinema, essa é a mais única. Ela consegue ser tão simples, mas tão complexa ao mesmo tempo que dependendo do momento em que você assiste, é possível abraçar ambas as vertentes humorísticas e sérias do filme separadamente. A narrativa se trata de uma transformação pessoal, de como é necessário evoluir para conseguir crescer individualmente; mas ainda assim pode ser aproveitado ignorando completamente esse propósito e o enxergando apenas como um filme de comédia simples. Ele reinventa tudo o que conhecemos como uma obra-prima, ele redefine o termo, arranca rótulos e mesmo assim simboliza tudo o que o cinema deve ser: pessoal, divertido e transformador.

 

 


Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira e Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Arthur Visconde

Há 5 meses na Gazeta

Aluno de Economia da EESP.

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