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Feminismo liberal: a serva do capitalismo

Para o texto de hoje, nossa redatora Laura Kirsztajn reflete sobre a sociedade em que vivemos e discute os rumos do feminismo liberal.

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Ornito Vargas

6 min de leitura

14 de março de 2020

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Em 2013, Nancy Fraser, filósofa feminista da Teoria Crítica, escreveu um texto (How feminism became capitalism’s handmaiden - and how to reclaim it) que reacendeu um longo debate: quais os rumos que o feminismo tem tomado? Para ela, assim como para muitas outras feministas, o movimento tornou-se algo extremamente decepcionante, uma vez que ideais de igualdade e justiça foram deixados de escanteio por muitos dos que por ele advogam.


Fraser afirma que o movimento estaria enredado com esforços neoliberais que visam à construção de uma sociedade de livre mercado. Abandonando um propósito de mudanças radicais, essas feministas voltaram-se para o individualismo. Um símbolo disso seria a prioridade que vem sendo dada às mulheres empreendedoras, que estão em grandes postos de liderança, algo que, certamente, não representa a posição de boa parte das mulheres no mundo, e que ignora qualquer perspectiva de classe e raça que possa efetivamente emancipá-las. É um feminismo que, dando um gigantesco tiro no pé, encoraja o crescimento individual e a meritocracia. A mesma meritocracia que sempre foi a chave da exclusão das mulheres em todo setor da sociedade.


Essa proposta de feminismo deixou de lado qualquer debate crítico sobre as estruturas político-econômicas que impactam a situação da mulher no mundo. Abraçando-se ao neoliberalismo, o foco foi dado à mera e vazia “identidade mulher”, que teoricamente não tem classe e raça, mas tem: mulheres brancas e ricas, assim como suas defensoras. Utilizando-se de um discurso sobre sucesso profissional, o alvo desse feminismo é justamente um grupo seleto e privilegiado de mulheres que de fato têm na sua posição socioeconômica uma possibilidade de melhoria. Seu problema é a desigualdade de gênero no topo das grandes empresas e escritórios, e por isso não apresenta respostas para as donas de casa, mulheres em empregos informais e com baixo retorno econômico.


O que esse feminismo faz é a “dominação da igualdade de oportunidades”, o que Fraser explica como a defesa de que a classe dominante que governa tenha igualdade entre homens e mulheres, ou seja, que o setor que arruína a vida de muitas pessoas pelo mundo inteiro tenha não apenas homens, mas também mulheres, uma aspiração absurda para um movimento social.


A filósofa comenta como essa suposta “igualdade” seria, na verdade, meritocracia. Existe uma interpretação errônea de que a discriminação é refletida somente na subrepresentação das mulheres no topo, e que uma solução seria que essas mulheres possam crescer de acordo com seus méritos. Essa resposta não só deixa intacta a estrutura hierárquica, como não beneficia 99% das mulheres, apenas o 1%, a classe diretora profissional. Nas palavras de Fraser:


Mas, o que é o feminismo defendido por Fraser? A filósofa tem uma longa e complexa obra, mas é possível traduzir seus ideais de forma resumida em uma entrevista recente que ela concedeu (simplória tradução que realizei do inglês para o português):


Esse tipo de reflexão trazida por Fraser (mas não apenas por ela, afinal, várias feministas de outras vertentes avisam há décadas sobre essa escalada dentro do movimento) é importantíssima para pensarmos quais as estratégias que o movimento feminista mainstream tem adotado, especialmente, quando as mulheres que mais disseminam esse tipo de mensagem estão justamente no mesmo ambiente que nós - em faculdades de cursos como Direito, Administração de Empresas, Administração Pública, Relações Internacionais e Economia.


Acredito que é de gigantesca inocência, ou ignorância, sustentar que um discurso feminista desse tipo é algo universalizável, sendo que a realidade é que ele atende apenas a nós mesmas (ou, ao menos, a algumas de nós). Mais perigoso ainda é quando um movimento social se propõe a espalhar a sua mensagem por meio da sua mercantilização e do uso irrefletido de palavras e frases em broches e camisetas com o rosto de Frida Kahlo (uma mulher revolucionária que certamente ficaria ofendida com o uso que fazem da sua imagem).


Nós queremos de fato “vender” um movimento? Queremos torná-lo parte do nosso “estilo pessoal”? Da nossa “estética”? Ou queremos usar a sua teoria e seus ideais como forma de educar e efetivamente conscientizar? Vale a pena transformar uma demanda radical como a igualdade de gênero, que não é algo facilmente alterado nas estruturas da sociedade, em um projeto individualista e artificial, modelado apenas para satisfazer a algumas de nós (1%)? Queremos mesmo nos dedicar a manter mulheres ricas e brancas igualitariamente no topo?


Referências: 1-KOHAN, Marisa. Público. Entrevista a Nancy Fraser: "No podemos dejar que el temor a la ultraderecha nos lleve al feminismo liberal". 22 de março de 2019. https://www.publico.es/sociedad/entrevista-nancy-fraser-no-dejar-temor-ultraderecha-lleve-feminismo-liberal.html (tradução para o português: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/-Nao-podemos-deixar-que-o-medo-da-ultradireita-nos-leve-ao-feminismo-liberal-/5/43690)


2-GUTTING, Gary. FRASER, Nancy. New York Times. A Feminism Where ‘Lean In’ Means Leaning On Others. 15 de outubro de 2015.https://opinionator.blogs.nytimes.com/2015/10/15/a-feminism-where-leaning-in-means-leaning-on-others/#more-158243


Fontes:


FRASER, Nancy. The Guardian. How feminism became capitalism’s handmaiden - and how to reclaim it. 14 de outubro de 2013. https://www.theguardian.com/commentisfree/2013/oct/14/feminism-capitalist-handmaiden-neoliberal (tradução para o português: http://www.iela.ufsc.br/noticia/como-o-feminismo-se-tornou-empregada-do-capitalismo-e-como-resgata-lo)KOHAN, Marisa. Público. Entrevista a Nancy Fraser: "No podemos dejar que el temor a la ultraderecha nos lleve al feminismo liberal". 22 de março de 2019. https://www.publico.es/sociedad/entrevista-nancy-fraser-no-dejar-temor-ultraderecha-lleve-feminismo-liberal.html (tradução para o português: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/-Nao-podemos-deixar-que-o-medo-da-ultradireita-nos-leve-ao-feminismo-liberal-/5/43690)GUTTING, Gary. FRASER, Nancy. New York Times. A Feminism Where ‘Lean In’ Means Leaning On Others. 15 de outubro de 2015.https://opinionator.blogs.nytimes.com/2015/10/15/a-feminism-where-leaning-in-means-leaning-on-others/#more-158243

Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Ornito Vargas

Há 7 anos na Gazeta

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