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Cultura

Fim de feira

O texto de hoje é do nosso redator, Felipe Takehara. Já foi em alguma feira de rua?

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Ornito Vargas

5 min de leitura

15 de setembro de 2019

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Seus olhos amendoados os denunciavam impreterivelmente: eles não são daqui. Com movimentos simples e arredondados, dobram a massa, recheiam o corpo e o escaldam em óleo quente. São japoneses fritando pastéis. Em uma feira perto de casa, eles têm uma tenda onde vendem a popular iguaria, e parece que a receita é das boas – amontoam-se os fregueses. É uma barraca relativamente pequena, com toldos vermelhos caídos e esqueleto metálico. Há um varal estendido de uma ponta à outra da barraca, nele estão pendurados vários cartões que identificam os diferentes recheios, bebidas e o preço dos quitutes.


Um casal de idosos descansava escorado na lateral de uma kombi antiga, estacionada na frente da barraca de pastéis. O veículo também é barraca. Reparei nas bolsas, pochetes e mochilas no seu balcão: têm de couro, crochê, náilon, e até de barbante trançado em lacre de latinha de refrigerante. Uma na frente da outra, a barraca de pastéis e a de bolsas ficam na entrada da feira. Estão a saudar os que por ali passam e salvaguardam por este lado toda a rua, como se fossem baluartes.


Distribuem-se ao longo da rua outras barracas. Não preciso vê-las para saber o que estão a oferecer, basta o grito dos comerciantes. Laranjas, peras, laranjas-peras, maçãs, kiwis, abacaxis, mangas, uvas, melancias, bergamotas, ameixas, os vários vegetais, os peixes, as roupas, os brinquedos e a comida pronta. É uma feira de fato. Diria até que bem completa, não obstante a curta extensão da rua em que se encontra.


Confortavelmente as pessoas transitam entre as barracas, apesar do pouco espaço em que se abundam os balcões e os baixos toldos. Deduzo este conforto dos sorrisos largos e das sacolas cheias, resultado de uma inquirição minuciosa e fineza ao barganhar. Assim eu observo o movimentar desse comércio, as pessoas que procuram, as famílias que conversam, o vociferar dos vendedores, o balançar dos toldos, a rua que transborda: do ápice ao eclipse. Este que me comove.


A medida que os fregueses saem e a hora do almoço passa, os pequenos comerciantes iniciam o desmonte de suas tendas. Os japoneses, que aparentam ser uma família, começam por dobrar a lona e recolher o varal. Deixam por último a estufa em que ficam os salgados: os que sobraram ainda poderão ser vendidos caso algum atrasado chegue, naturalmente. O ruído alto de velhos caminhões anuncia sua entrada na rua. Imagino que deve haver um consórcio entre alguns feirantes, pois diferentes barracas desmontadas vão para o mesmo caminhão. Todos guardam o estoque que sobrou e descartam o que não se pode consumir mais. Pilhas de sacos pretos se amontoam como ilhas numa fina superfície de gelo derretido, onde os peixes outrora se deitavam.


A quantidade de lixo que fica sobre a rua é brutal. O que não teve a sorte de ser posto nos sacos fica espalhado pelo chão. Os guardanapos da barraca de pastéis ficam dançando nas calçadas conforme o vento, isso quando não se molham, pois molhados se transformam numa massa adesiva que se fragmenta nos sulcos do asfalto. Misturam-se no chão restos de palha de milho, cascas de mandioca, sementes de jabuticaba e bitucas de cigarro. Tudo perfumado pelo aroma de tabaco e peixe do mar. É claro, os comerciantes não deixam simplesmente jogado todo o lixo na rua, eles fazem sim um esforço para recolhê-lo – precariamente, contudo.


Mas brutal mesmo é observar que a labuta de limpar toda essa sujeira foi delegada a um só: há apenas um “gari” para varrer e ensacar o lixo da rua inteira. Vê-lo sozinho empurrar com o escovão todo aquele refugo é muito deprimente. Por algum tempo fiquei na calçada parado, observando-o e refletindo. Ele é um homem negro, de rosto rugoso, pequena estatura, e dorso levemente curvado. De súbito me ocorrem lembranças do que aprendi: a interminável escravidão no país, o ser tratado como coisa, o açoite diário, a libertação que não veio, o preconceito da cor, o morar em favelas, o perene trabalho, as portas fechadas, a morte gratuita… tudo despertado pela figura daquele homem – que vertigem! Atordoado, olhei para ele novamente. Os braços tristes empurravam lentamente a delgada cruz. Parecia que estava chorando…

Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Ornito Vargas

Há 7 anos na Gazeta

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