top of page
Relato Pessoal

FUDEU, ACABOU O CARNAVAL!

Um relato sobre o saudosismo ao carnaval: a melhor festa brasileira. A farra, a alegria e todo o glitter, intrinsicamente ligados a essa comemoração da vida.

IMG_0955.jpeg

Elis Suzuki

9 min de leitura

2 de março de 2026

767c98_0ad94c104822456680342c1363c46344~mv2.png

Num tom de saudosismo (ou de pura tortura), indico que você leia esse texto ao som de “Carnaval” de Marina Sena (eu sugeriria Taj Mahal, mas o sofrimento seria grande demais)


Bom dia, querido leitor. Espero que você tenha amanhecido melhor do que eu nessa primeira segunda-feira de março. Finalmente a vida precisa começar, e tudo aquilo que prometemos para nós mesmos que faríamos depois do carnaval, precisa ser feito. O ano finalmente começou, chegou a vida real. Sinto um baque no peito: eu não estou nem um pouco pronta para voltar à rotina.


Como um último respiro de carnaval, escrevo esse texto torcendo para que meu sentimento seja compartilhado, para dividir a emoção que sinto, a saudade que me invade. Peço uma licença poética para voltar um pouquinho no tempo e escrever como se ainda estivéssemos vivendo os épicos dias, o melhor momento do ano pra ser brasileiro.


Acordo cedo em pleno sábado por vontade própria. Não posso perder o primeiro bloquinho do ano. Separo as minhas roupas mais coloridas, as meias arrastão inteiras e as rasgadas, todo o glitter que eu consigo achar e alguns acessórios completamente aleatórios que me lembram o verão do Brasil. Tomo um café da manhã reforçado porque talvez essa seja minha única refeição do dia (ou pelo menos a única decente).


Me reúno com minhas amigas e nos arrumamos juntas pro bloco. Todas as roupas e maquiagens agora pertencem ao coletivo, é a mais pura demonstração de comunidade e solidariedade: é o suco de Brasil. Todas experimentam roupas alheias, opinam no melhor look e, como se fossemos para um grande desfile, fazemos maquiagens extremamente elaboradas e coloridas, deixando a criatividade florir. Com inspirações que variam de Zara Larsson a rainhas de escola de samba, vale tudo: sombra de blush, desenhos de estrelas, borboletas e formatos excêntricos, um olho com as combinações mais inusitadas de cor, vários strass espalhados pelo rosto e, obviamente, brilho. O glitter é a alma do carnaval, é 200% liberado e incentivado: quanto mais melhor.


Depois de horas demais se arrumando para ficar embaixo do sol sentindo suor alheio, chegamos numa mistura de cores e formatos que com certeza deixariam nossas artistas interiores orgulhosas. Depois de disputar um único espelho para nos maquiar, chegou a hora de sair na rua para se espremer entre várias pessoas desconhecidas. A doleira entra no look, aparece uma beats na mão direita, um leque na mão esquerda e começa a caminhada até o bloquinho, afinal, carnaval é sinônimo de andar quilometros e quilometros (até os mais sedentários se rendem a essa realidade).


Antes mesmo de chegar no bloco já é possível perceber que É CARNAVAL NO BRASIL! Fantasias, cores e brilho dominam as ruas, é impossível não perceber quem está indo pra bloquinho. No caminho, encontram-se muitos vendedores: de bugigangas carnavalescas a bebidas alcoólicas – tudo pensado para compor a festa brasileira. Andando mais um pouco, a música começa a dominar o ambiente: esse é o sinal de que estamos nos aproximando. Me arrepio só de pensar, mais um ano para viver o carnaval.


Até aqui a experiência é a mesma, todos os dias começam assim, com uma dose de alegria pra acordar. Depois disso, vai variar dependendo do bloquinho que você escolheu, afinal, o espírito de coletividade também é essencial para eleger o melhor bloco para ir em cada dia. Peço mais uma licença poética para focar no carnaval de rua de São Paulo, afinal foi esse carnaval que eu vivi, mas sinta-se a vontade, leitor, de deturpar minhas palavras para se encaixar na SUA experiência de carnaval.


O Ibira vai garantir lotação e bastante sol na cabeça, uma atração insuperável e muita gente animada; Pinheiros tem blocos menores que se confundem entre si, é um pouco mais fácil de encontrar pessoas que você conhece, mas às vezes a música fica em segundo plano; os bairros do centro também prometem, um carnaval raiz com trios elétricos que gritam tradição, uma vibe mais tropicalista com MPB clássico. Esse ano, você também pôde encontrar shows de leque espalhados por São Paulo, mas o bloco da Pabllo foi o campeão de bater leque. Enfim, tem bloco pra todo gosto, para todo mundo aproveitar a folia: no feriado do carnaval, pré e pós.


A verdade é que não tem como ser triste no carnaval: até o perrengue vira risada. A chuva caindo antes mesmo do bloco começar, a rua virando um rio e minha roupa ficando ensopada: em qualquer outro dia isso seria uma tragédia, mas no carnaval é só mais um motivo para contribuir para a atmosfera caótica que já era esperada. Errar o caminho em direção ao segundo bloquinho do dia também é um clássico: cada um espera que o outro saiba para onde está indo e no final ninguém nem estava prestando atenção, a gente se perde e acaba andando muito mais do que era necessário. Falando em andar, o carnaval foi feito para darmos no mínimo 10 mil passos, bater as metas de exercício do ano e não vale reclamar, só é uma pena que a convenção social AINDA não aceita isso como exercício no Gym Rats (o que, na minha humilde opinião, é um completo ultraje). Refeições também são opcionais, acho que consigo sobreviver a base de fotossíntese, muuuuita água e um pouco de bebida.


Não tem como ser triste no carnaval: esperamos o perrengue, já acompanhado da risada. Tudo o que você pensar que é ruim, o brasileiro sabe transformar em diversão e história pro futuro. O que seria um grande problema em um dia comum, no carnaval é solução: do sol mais quente à chuva torrencial, sempre será o clima impecável se tiver tocando Taj Mahal no fundo. Se me procurar, eu com certeza estarei pulando como se eu não estivesse com dor em todos os centímetros da minha perna e cantando com todo o meu pulmão, como se eu ainda tivesse voz para gastar. O segredo é curtir o carnaval como se não houvesse amanhã, porque agora, correm beats vermelha nas minhas veias e minha pele é feita de glitter.


Carnaval é um mês inteiro que o Brasil vira um só. O maior senso de comunidade já experienciado, nenhum outro país teria a capacidade de replicar a festa que fazemos (e quem não está aqui fica com tanta FOMO que precisa se reunir com outros brasileiros e fazer um carnaval improvisado, só para não voltar correndo pro Brasil). Não vou entrar em detalhes da origem dessa comemoração, mas resumidamente ela significa libertinagem, e é marcada pela embriaguez, excessos e metamorfose de papéis sociais, mas a verdade é que o carnaval só se tornou o que é hoje pois se juntou um baile de máscaras com a cultura afro-brasileira: daí nasceram as escolas de samba, e só recentemente o carnaval de rua ganhou força. Foram mais de 15 milhões de pessoas nas ruas curtindo o carnaval, é o melhor aproveitamento da cidade inteira, 627 blocos desfilando espalhados por São Paulo. Normalmente a gente passa pela rua para chegar em algum lugar, mas em fevereiro a gente ocupa as ruas e preenche os espaços da cidade.


Fevereiro já acabou, acho que eu vou ter que te ligar porque abril chegou, mas me deixe viver na utopia de que o carnaval é eterno – pelo menos mais um pouquinho, porque se não, eu nem sei mais quem eu sou. FUDEU, ACABOU O CARNAVAL. vou ter que te ligar porque abril chegou, mas me deixe viver na utopia de que o carnaval é eterno - pelo menos mais um pouquinho, porque se não eu nem sei mais quem eu sou. FUDEU, ACABOU O CARNAVAL.


Imagem da Capa: Clara Gurgel

Revisado por Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Elis Suzuki

Há 2 anos na Gazeta

Elis Suzuki é estudante de Direito-FGV e redatora da Gazeta. Escreve sobre a vida universitária, esporte e cultura, com sua vasta experiência como gvniana.

IMG_0955.jpeg

Últimas Notícias

Textos Populares

bottom of page