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Esporte

Futebol: imperfeito, mas humano

Comentários de uma torcedora a respeito da Copa do Mundo de 2026

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Espaço Aberto

10 min de leitura

6 de julho de 2026

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Nunca esperei estar escrevendo sobre a Copa, mas cá estou. Na verdade, tenho tanto a falar que divido esse texto em duas partes. A primeira é uma crônica, como tantas outras que já escrevi. Mas, na segunda, me aventuro a tecer alguns comentários sobre duas controvérsias futebolísticas que ouvi durante a Copa, os acréscimos e o VAR. Faço aqui a ressalva de que não falo, nem pretendo falar, de um lugar de especialista ou extremamente técnico, mas de alguém que cresceu com um pai apaixonado por futebol.



Assisto futebol desde pequena, vou no estádio todo ano, já vi vitórias de campeonatos (vai, São Paulo!!). Também adoro o Brasil, me reconheço na cultura, nas pessoas e nos abraços. Mas, por algum motivo, a Copa nunca marcou um lugar especial na vida. Não lembro da maioria das eliminações do Brasil, não me emocionei nas vitórias de jogos e nem sabia os nomes da maioria dos jogadores.


Resumindo, nunca fui uma torcedora fervorosa, na verdade, minha maior animação com a copa era ter um motivo para encontrar minhas amigas. Então, realmente, é um pouco estranho eu estar  vindo aqui falar sobre futebol, especialmente depois de uma Copa em que o Brasil teve o pior desempenho em muitos anos, acredite, cansei de escutar isso na TV ao final do jogo. Não estou aqui para debater ou negar isso, apesar de ter achado que jogamos bem contra a Noruega, mas para falar sobre o que sempre foi a minha parte favorita do futebol: as pessoas.


Começo pela pequena escala, meu mundinho de amizades da faculdade. Minha amiga que de tanto falar sobre o Endrick, um certo jogador revelado pelo Palmeiras, me deixou na expectativa de vê-lo jogar em toda partida do Brasil (inclusive, leiam o texto lindo “Do sofá da sala, nós” dela sobre a Copa de 2022). Meu grupo de amizades que criou um bolão que fez com que eu, de repente, acompanhasse placares de jogos como Turquia e Austrália, que antes eu nem saberia que estavam acontecendo. Assim, foram nossas conversas sobre jogadores, seleções e partidas que foram aumentando meu interesse pelo mundo do futebol. 


De repente, me vi correndo depois de mensagens incessantes sobre a partida, para assistir o fim do jogo Alemanha x Paraguai com o coração na boca a cada pênalti cobrado. Me vi vibrando com Cabo Verde e quase xingando a França na vitória contra o Paraguai e dividindo todas essas emoções com as minhas amigas por mensagem.


E, claro, os jogos do Brasil, sempre acompanhados de boa companhia. Confesso que comecei sem prestar muita atenção nas partidas, mas me diverti ao assistir o jogo contra o Haiti com delay (acidentalmente) e brincar de adivinhar se o Brasil fez gol com base na intensidade das comemorações. Se você fica muito nervoso com os jogos, só quer ver os lances importantes ou simplesmente quer variar a forma com que assiste a Copa, altamente recomendo essa estratégia para daqui quatro anos. O jogo contra a Escócia também foi especial, assistindo com minhas amigas no mesmo bar que fomos na copa de 2022, nosso primeiro ano de faculdade. 


Mas, foi no jogo contra o Japão que me vi ansiosa, acho que pela primeira vez, com um jogo do Brasil. Esse também assisti com delay, mas dessa vez por culpa do bar em que assistimos. A princípio eu estava tranquila e inclusive comentando com minhas amigas como não costumava ficar muito investida nos jogos. Mas, conforme a tensão do jogo foi crescendo, vi a ansiedade palpável das outras meninas do grupo, uma das quais estava à beira de lágrimas. Então, comecei a me pegar agoniada com os longos períodos de silêncio, que, devido à falta de comemoração, acabavam com qualquer esperança de que o lance que eu assistia terminaria em gol.


Por fim, no jogo contra a Noruega, torci, gritei e gesticulei como se estivesse dentro de campo. Quis como se minha vontade pudesse empurrar a bola e segurei a respiração como se fosse eu sem ar dentro de campo. E sim, torcia pelo hexa, pelo Brasil, pelos brasileiros, pelos jogadores. Mas também torcia pelas minhas amigas que prometeram pulos a São Longuinho e que bordaram broches na esperança de trazer sorte. Torcia por elas, que me ensinaram a torcer. Torcia pela chance de comemorar essa copa agora, no meu último ano de faculdade, cercada das amizades que marcaram meus últimos cinco anos, antes de ser jogada nas incertezas que o mundo nos trás. Acho que finalmente senti na pele a união sobre a qual meu pai sempre falou ao mencionar o São Paulo, sobre a qual eu inclusive já escrevi (“Meu coração cinco pontas tricolor”).


E não é só aqui, nesse meu universo da faculdade, que o futebol aproxima as pessoas. Tenho uma amiga que mora em Cabo Verde, não o país, mas a cidade de 11 mil habitantes em Minas Gerais. E pude acompanhar como essa cidadezinha do Brasil ganhou escala global, com o presidente de Cabo Verde, agora sim, o país, a agradecendo por sua torcida durante a Copa. Vi torcedores de países diferentes misturados nos estádios e abraçando uns aos outros. Vi jogadores deixando tudo dentro de campo, se empurrando, se provocando, mas depois dando um sorriso e se abraçando.


Não quero negar aqui os xingamentos e inclusive a xenofobia que também permeiam a Copa. Ouvi comentários que preferia que não tivessem sido externalizados na época do jogo contra o Japão e sei que muitos vivenciaram muito pior. Vi nas notícias a discriminação que jogadores de determinados países sofreram do governo de Trump. As guerras, as desigualdades e o racismo não deixaram de existir só porque tem uma bola rolando em campo. 


Mas, ainda assim, olho para as últimas semanas e vejo algo positivo. Talvez seja idealista, talvez seja ingênua, mas se consigo sonhar com o hexa, também consigo acreditar nisso: acho bonito ver como a Copa mostra que, no meio do caos e da dificuldade, somos capazes de empatia e união.



Acho que, pela primeira vez, meu algoritmo do Instagram, que normalmente só quer me falar onde comer em São Paulo e que trilha fazer por perto, começou a me mostrar conteúdo de futebol. Com isso, me apareceram alguns vídeos com reclamações sobre a copa, algumas das quais também debati com minhas amigas.


Vi a controvérsia dos acréscimos, que pareciam variar dependendo do jogo. Mas isso apenas me lembrou de várias brincadeiras que meu pai fazia em certos jogos que tardavam a terminar de que o árbitro havia levantado uma placa e, ao invés de números, estava escrito: “O jogo vai até o Corinthians empatar". E, sim, essa foi a sensação em alguns dos jogos, como os acréscimos intermináveis contra o Japão. 


Mas acho que isso faz parte da beleza e estratégia do jogo. Ele é fluído, sem pausas (estou olhando para você, “pausa para a hidratação”) e conduzido não pelo tempo do relógio mas pelo ritmo que os jogadores escolhem adotar (ressalto aqui que não adoro cera e jogadores que dão cambalhotas no ar constantemente para ganhar tempo, mas reconheço que há momentos em isso é também parte da estratégia). Então, a subjetividade do árbitro, até certo ponto (cabe ressaltar aqui que não falo em parcialidade), seja no tempo de acréscimos, seja nas faltas, é parte do jogo. 


Aqui quero também pontuar um incômodo com o VAR, especialmente em impedimentos. Quando o VAR começou a ser implementado eu o enxergava como um grande avanço. Finalmente, aquelas jogadas em que a arbitragem claramente havia errado poderiam ser revistas, haveria um meio objetivo de determinar o que aconteceu. 


Sim, esse sistema realmente é útil em algumas situações, como no primeiro pênalti do Brasil no jogo contra a Noruega (peço desculpas por tocar na ferida), que graças ao VAR foi corretamente concedido. Mas, vendo impedimentos sendo marcados com milésimos de centímetros de diferença, me pergunto se ele realmente está tornando o futebol mais “justo”. Se o árbitro não percebeu e os jogadores não perceberam, será que havia realmente uma vantagem significativa no lance? Digo mais, como conciliar estar o mais perto do gol possível e não estar impedido se, para determinar isso, é usado um sistema cujo nível de precisão não pode ser alcançado por um jogador correndo à toda velocidade no campo.


Eu gosto de regras, e gosto sempre de tê-las claras, então, a princípio tudo que parecesse trazer maior objetividade ao futebol me parecia ser benéfico. Nesse meu mundo, o tempo cronometrado e o VAR seriam perfeitos. Mas, acho que, em uma sociedade na qual, em busca da otimização, cada vez mais desenvolvemos máquinas e inteligência artificial, é importante lembrarmos da importância e beleza da subjetividade e imperfeição humana.


Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Espaço Aberto

Foi da Gazeta por menos de 1 mês

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