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Conto

Gipe

Baseado em uma história do meu avô e seu cachorro.

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Pedro Anelli Bastos

8 min de leitura

23 de fevereiro de 2026

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Baseado em uma história do meu avô.


Eu devia ter uns cinco anos de idade quando ganhei o Gipe. Ele não era pequeno, mas também não muito grande. Porte médio. Branco, manchinhas marrons, e olhos doces como o mel. O camaradinha mais simpático que eu já vi. Nunca senti alegria maior do que aquela que veio em mim no dia em que ele chegou. Era tamanha que o peguei no colo e saí correndo pela casa, gargalhando e olhando nos olhos felizes e curiosos do meu novo amigo. Corri, corri, e tropecei num caixote de madeira. Fomos direto ao chão, ainda rindo muito, claro. 


Alguns dias depois, estava caminhando pela casa e, sem querer, pisei na ponta do rabo do coitado com meu sapato de couro. A sola era dura, o salto mais ainda. Um uivo forte de dor, mas no olhar do meu amigo estava evidente que ele sabia que não havia maldade, apenas descuido nas minhas ações.


Ele era meu companheiro. Meu maior companheiro. Me arrisco aqui a dizer que não há amizade maior do que a de um menino e seu cachorro. Éramos completamente inseparáveis, como pão e manteiga. Ele me seguia para todos os lugares. Me acompanhava até a casa dos meus avós e dos meus tios, e brincava dia e noite na rua, comigo e com meus primos. Ele ia até pra escola comigo! Andávamos um quilômetro, um quilômetro e meio, mais ou menos, até a aula, e depois ele voltava para casa, sozinho. Garoto esperto, sabia onde morava. De tanto andarmos juntos, conhecia a cidade como a palma da mão – ou melhor, da pata.


Uma vez, depois de passar o dia brincando, não o encontrei na hora de voltar para casa. Procurei, procurei, e nada. Até que ouvi um latido, bem baixinho, ao fundo, num terreno baldio. O Gipe estava lá, sozinho, chorando, com dois cortes na parte traseira, claramente feitos a faca por alguém de muito mau-caráter. Mas, na hora, não me preocupei em achar o monstro que havia ferido meu melhor amigo. Apenas levei ele de volta para casa no colo e começamos a tratá-lo. Uns 20 dias depois, já estávamos correndo de novo.


O Gipe era um cachorro especial. Pela manhã, por volta das cinco horas, eu me levantava e ia para a cozinha com meus pais e minhas irmãs – e o Gipe, claro, ia junto. Minha mãe coava o café na parte baixa do fogão à lenha, e eu ficava sentado com o Gipe ali do lado, sentado num banquinho de madeira feito pelo meu pai. Quando minha mãe me entregava a xícara com café preto fresquinho, é claro que eu não poderia deixar de dar alguns goles ao meu amigo. Era engraçado: nunca vi um cachorro gostar tanto de café! Bebia mais que gente!


Com o passar do tempo, o Gipe começou a ter convulsões. Ele se tremia todo, principalmente quando levava bronca do meu pai (o que, para falar a verdade, acontecia com bastante frequência). Quando acontecia, ele desmaiava e se debatia no chão. Eu o pegava no colo e colocava embaixo da cristaleira, onde ficávamos alguns minutos até ele acordar. Quando acordava, começava a andar devagarinho, ainda se acostumando novamente ao movimento, e, aos poucos, voltava ao normal.

Alguns anos depois, minha mãe nos deixou. Sarampo. Eu tinha oito anos.


Cidade do interior, início dos anos 50. Não existia previsão de tratamento. Foi o dia mais triste da minha vida. O velório foi na minha casa, e o Gipe ficou o tempo todo debaixo da mesa. Não saía nem para comer.


Quando chegou ao fim do enterro, mudou de posição: não saiu do meu lado nem por um segundo. Aqueles olhos de mel brilhando ao me olhar, como quem diz “eu estou aqui”. Esse sim foi meu amigo. Daqueles de verdade.


Com o falecimento da minha mãe, tivemos que vender a casa. Nós mudamos para uma bem menor, mas mais perto da casa dos meus avós e tios. Meu pai casou de novo, algum tempo mais tarde. Pessoa difícil, a madrasta. Mas sobrevivemos, eu, minhas irmãs e o Gipe, sempre nos ajudando.


A situação financeira também era dura. A cada dia que passava, piorava. Quando eu tinha uns 10 ou 11 anos, meu pai decidiu que iríamos nos mudar. Tentar a vida numa cidade maior. A questão era: devido às convulsões, o Gipe não poderia ir conosco. Eu teria que dizer adeus ao meu grande amigo.


Era janeiro de 1955 quando mudamos para São Caetano do Sul. Eu tinha 12. Minhas irmãs foram mais cedo. Eu fiquei em Tupã, aproveitando os últimos momentos com os primos e, claro, com meu amigo. Era domingo, fazia sol. Brincamos na rua a tarde inteira. Corremos, jogamos bola, conversamos, demos risada. 


Passei o dia todo na casa dos meus tios, e não percebi que o Gipe não estava comigo.


No final da tarde, minhas irmãs retornaram e disseram que o Gipe havia embarcado no trem. O guarda fez ele descer na primeira estação. Fiquei preocupado. O que foi feito do meu amigo? Será que o verei de novo? Não consegui nem me despedir…


No dia seguinte, logo pela manhã, peguei o primeiro trem para a cidade vizinha e comecei a procurar pelo Gipe. Andei pelos trilhos, perguntei em cada loja, em cada boteco, para cada um que via na estação. Madames, cavalheiros, charreteiros e engraxates. “Um cachorrinho desse tamanho, branco com manchas marrons, um olhar doce de doer”. Nada. Ninguém viu nada.


Voltei para casa. Era a única coisa que eu podia fazer.


Passadas umas duas semanas, meu pai me levou para São Caetano para poder fazer minha matrícula no Grupo Escolar. Um mês depois, o resto da família chegou e nos estabelecemos permanentemente.


Passado mais algum tempo, uns dois meses talvez, a minha antiga casa recebeu uma visita. Meu amigo estava magro, sujo, perdera o brilho no olhar. Mas ainda era o meu amigo. Ainda era o Gipe.


Não morávamos mais lá. Se morássemos, o fim seria diferente. O novo morador foi ver o que havia no quintal, e se deparou com um cachorro magro, sujo, se contorcendo no chão. Era uma convulsão. Era esperado, depois de tanto andar, depois de tanto sofrer.


Ele deu um tiro.


Ficamos sabendo do ocorrido por meio de uma tia minha, que mandou uma carta informando o que acontecera. Chorei muito. O meu melhor amigo, meu maior companheiro, se foi. Para sempre. E eu nunca pude dizer adeus.


Anos se passaram, e hoje, aos 83, digo com clareza que nunca me esqueci do Gipe. Dos seus pelos brancos, das manchinhas marrons, e, claro, da doçura no olhar do meu companheiro.


I never had any friends later on like the ones I had when I was twelve.

Jesus, does anyone?



Imagem da capa: Acervo Pessoal

Revisado por Sarah Costa

Escrito por

Pedro Anelli Bastos

Há 9 meses na Gazeta

Estudante de Direito na FGV, sou Diretor de Revisão, redator e membro de Recursos Humanos na Gazeta. Apaixonado por livros, música, filmes e natureza :)

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