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Poder e Política

Homem (não) chora!

A saúde mental masculina é um dos temas mais negligenciados da atualidade. Por isso, trago uma reflexão a respeito das consequências desse silêncio em relação ao assunto.

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Pedro Anelli Bastos

9 min de leitura

24 de junho de 2026

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A cada minuto, pelo menos um homem comete suicídio ao redor do mundo. São 60 homens por hora. 1.440 por dia. 10.080 por semana. 40.320 por mês. 483.840 por ano. Os casos de suicídio masculino representam cerca de 75% das ocorrências mundiais. São quase 10 mortes autoprovocadas a cada 100 mil habitantes – um número absurdo se comparado com o cenário feminino, com 2,6 casos a cada 100 mil habitantes. A taxa de suicídios entre homens é cerca de 4 vezes maior do que entre mulheres.


Esses números assustam, é verdade, e não estão nem perto de diminuírem, visto que a saúde mental masculina é um dos temas mais negligenciados da atualidade. Justamente por isso, desde 1994 o mês de junho é reconhecido internacionalmente como o mês de conscientização sobre os cuidados com a saúde mental masculina. Ao redor do mundo, são inúmeros os movimentos que buscam trazer luz à problemática, principalmente por meio das redes sociais. Incentivos para que homens de todas as idades busquem terapia, tentem compreender seus sentimentos e encontrem lugares confortáveis em que consigam se abrir. As movimentações são efetivas, isso é fato, mas a resolução do problema ainda é distante, visto que não se trata de uma patologia recente, mas sim de um fenômeno histórico derivado de séculos de construções sociais.


Acho que uma das frases mais ouvidas pelos homens ao redor do mundo, quando estes ainda são meninos recém-saídos da primeira infância, é a célebre “homem não chora”. Seja do pai, algum tio ou avô, ou até mesmo de amigos, professores, ou na televisão, qualquer um na face da terra já ouviu isso. É claro que, ao dizerem isso, ninguém deseja conscientemente causar um mal, mas acabam perpetuando um tipo de comportamento extremamente prejudicial à saúde não somente dos homens, mas de todo o corpo social: a arte de ficar em silêncio.


Ao serem ensinados que “homem não chora”, que demonstrar vulnerabilidade ou pedir ajuda são sinônimos de fraqueza, de feminilidade (entrarei nesse tópico mais à frente no texto), os homens aprendem, desde cedo, que não devem demonstrar sentimentos, pois, se o fizerem, serão julgados e deixados sozinhos – reflexo direto do mecanismo de defesa herdado de nossos ancestrais. Assim, raiva, tristeza, medos, sexualidade e até mesmo emoções de felicidade e empolgação são empurradas para dentro à força, transformando os homens em pedras rígidas e sem emoção. E é aí que mora a maior parte do problema.


Freud, na sua linha psicanalítica, repercutiu uma linha de raciocínio que pode ser sintetizada na seguinte frase: “As emoções reprimidas nunca morrem. São enterradas vivas e saem mais tarde da pior forma”. Dessa forma, as tristezas que um homem sente durante a vida, mas que não puderam ser devidamente expostas por receio de amarras sociais, se voltam para dentro dele, culminando em possíveis problemas de ansiedade, crises depressivas e, no pior dos cenários, um antecipado fim a sua vida. Ainda, vale ressaltar que as consequências dos sentimentos e emoções reprimidas não vêm somente para aquele que as reprimiu, mas podem também ser direcionadas a outros: as dores não trabalhadas de uma rejeição na adolescência, ou desejos homossexuais reprimidos durante a vida, podem se transformar em uma aversão às mulheres – o que se deriva em todas as maneiras possíveis que já cansamos de ouvir nos noticiários.


Voltando um pouco na questão, esse incentivo ao silêncio masculino perante as emoções surge, como já não é novidade, de uma somatória de construções sociais que acompanham a raça humana há séculos. Entretanto, há uma que se destaca: desde sempre, expressar sentimentos esteve ligado a ideias de fragilidade e vulnerabilidade, características histórica e culturalmente ligadas ao sexo feminino, vistas como tópicos a serem evitados nos homens, sob pena de serem chamados de “mulherzinhas” e derivados – frutos da misoginia incrustada em nosso corpo social. Acontece que esse modo de funcionamento da sociedade patriarcal, ao rebaixar as mulheres a uma condição de sentimentalismo extremo e vulnerabilidade existencial e alertar aos homens para que fujam dessas características, não prejudica somente as mulheres. Os próprios homens também são um grande alvo, como já demonstrado aqui: as emoções que são reprimidas por medo de ser a “garotinha” do rolê precisam ser externalizadas de alguma forma, normalmente a raiva, aversão ou agressão, voltada tanto para os outros, como para si mesmo. Assim, não é difícil perceber um nexo causal certeiro entre comportamentos machistas e os problemas de saúde mental enfrentados pelos próprios homens que, consciente ou inconscientemente, perpetuam tais comportamentos. 


Existem, de fato, muitas discussões acerca daquilo que ronda a saúde mental masculina. Aqui, abrangi apenas a ponta do iceberg de suas origens e consequências psicossociais, mas acredito que, no momento em que estamos, a questão é mais urgente, e demanda mais do que isso. Como mencionei acima, junho é o mês de conscientização sobre saúde mental masculina – já é assim há mais de 30 anos –, e o que vemos de notícias e divulgações sobre isso? Assumo o risco de generalizar uma experiência individual, mas tudo o que vi foram uns quatro ou cinco reels no Instagram, todos gringos, de jovens (faixa dos 20) falando sobre o assunto. Fora isso, nada.


E é exatamente aí que mora a questão que, a meu ver, mais dificulta a resolução do problema: nós, enquanto sociedade, construímos tanto essa narrativa de homens durões e sem sentimentos, e impusemos tanto isso, que, quando olhamos para trás, o que vemos é uma tonelada de gerações perdidas. Mesmo entre os jovens que buscam cuidar da saúde mental, a terapia raramente é uma das primeiras opções. Fazer viagens, começar na academia, tomar uma com os amigos, se converter a uma religião… homens fazem qualquer coisa, menos pedir ajuda. Isso sem falar nos mais velhos, que inconscientemente já aceitaram sua condição e dificilmente entenderão que sim, homem chora. Ou deveria chorar. E muito.


Acho que não tem outra maneira de encerrar um texto desse tipo que não seja o padrão da saúde mental. Você, homem, que está com problemas, peça ajuda. Não tem nada de errado nisso. Você, não-homem, que vê que seu amigo, parceiro, pai, qualquer homem importante da sua vida, está passando por problemas, ajude. É claro que o recomendado é sempre buscar ajuda profissional com psicoterapia, mas como nascemos com um chip implantado que nos faz rejeitar completamente a ideia, a orientação é mais simples: faça qualquer coisa que te ajude a lidar com os problemas e soltar emoções. Vá para uma caminhada, ore, dance na balada, jogue um FIFA com seus amigos… apenas não guarde tudo para si e tente vencer sozinho a sua luta interna. Guerreiros espartanos também precisam de ajuda.


Apenas se cuide, e não desista. De tudo, isso é o que mais importa.



Referências bibliográficas:


BARRUZZI, Ella. O que é recalque e repressão na psicanálise de Sigmund Freud: Casa do Saber. Disponível em: https://www.casadosaber.com.br/blog/o-que-e-recalque-e-repressao-na-psicanalise-de-sigmund-freud. Acesso em: 16 jun. 2026. 


BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim Epidemiológico, Brasília, v. 52, n. 33, ago. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2021/boletim_epidemiologico_svs_33_final.pdf. Acesso em: 16 jun. 2026. 


IPPES BRASIL. Os homens estão morrendo porque não conseguem falar: IPPES Brasil. Disponível em: https://ippesbrasil.com.br/noticias/os-homens-estao-morrendo-porque-nao-conseguem-falar/. Acesso em: 16 jun. 2026. 


MOVEMBER. Mental health and suicide prevention. London: Movember Europe. Disponível em: https://uk.movember.com/about/mental-health. Acesso em: 16 jun. 2026. 


NATIONAL ALLIANCE ON MENTAL ILLNESS. Men's Health Month: NAMI. Disponível em: https://www.nami.org/stay-connected/events/awareness-events/mens-health-month/. Acesso em: 16 jun. 2026. 


POSTAL SAÚDE. A importância de conversar sobre a saúde mental masculina. Brasília: Postal Saúde, 30 maio 2025. Disponível em: https://www.postalsaude.com.br/a-importancia-de-conversar-saude-mental-masculina/. Acesso em: 16 jun. 2026. 


RAMOS, Reginaldo. Negligência masculina em relação à própria saúde mental pode resultar em consequências graves. São Paulo: Jornal da USP, 22 ago. 2024. Disponível em: https://jornal.usp.br/radio-usp/negligencia-masculina-em-relacao-a-propria-saude-mental-pode-resultar-em-consequencias-graves/. Acesso em: 16 jun. 2026.


Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira e Equipe de Revisão

Escrito por

Pedro Anelli Bastos

Há 1 ano na Gazeta

Estudante de Direito na FGV, sou Diretor de Revisão, redator e membro de Recursos Humanos na Gazeta. Apaixonado por livros, música, filmes e natureza :)

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