Inquietantemente humano
A autora analisa o uso da inteligência artificial a partir de uma leitura freudiana
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Ao longo da história, diversos elementos que antes eram considerados fantasiosos passaram a fazer parte da realidade. Objetos de análise interessantes são os autômatos, especialmente dos séculos XVIII e XIX. Capazes de realizar uma sequência de movimentos aparentemente autônomos sem a eletricidade e o sistema computacional atuais, esses aparelhos passaram a imitar o organismo humano. Em 1738, Jacques de Vaucanson construiu o Vaucanson Automat Flute Player, autômato androide que toca flauta transversal, apto a executar 12 peças. Vaucanson também construiu um pato mecânico, conhecido como o Pato Digestor ou Pato Defecante, também um autômato capaz de bater asas, comer e até defecar. Outras invenções posteriormente incorporadas ao nosso cotidiano também tiveram, em seu surgimento, algo de fantástico: a fotografia, o fonógrafo, o cinema. Eles não só foram um tremendo avanço tecnológico como também permitiram uma certa forma de eternização. Pessoas mortas passaram a ser vistas e ouvidas novamente, a separação entre o vivo e o morto.
Essas inovações já foram muito familiarizadas para nós, mas na época em que surgiram causaram certa estranheza ao público. Em O Inquietante (1919), Sigmund Freud explica como o efeito inquietante está ligado ao familiar, ao doméstico e ao que deveria permanecer oculto, ao contrário do que imaginamos que seria de fato assustador, como o desconhecido. O que antes parecia estável se torna perturbador. Mais do que isso, o filósofo ainda desenvolve como o inquietante é facilmente percebido quando apagamos a fronteira entre a fantasia e a realidade, quando algo inicialmente fantástico, inalcançável, passa a fazer parte de nosso panorama . Essa explicação pode ser aplicada às invenções descritas anteriormente, de forma que causaram certa estranheza na sociedade. Um autômato é inquietante justamente porque é uma máquina que se aproxima do comportamento de um ser vivo, uma fotografia preserva a presença de alguém que já não está presente e o fonógrafo permite que uma voz continue existindo mesmo depois da morte de seu dono. Em todos esses casos, a tecnologia interfere em fronteiras que pareciam naturais. O que antes pertencia à fantasia passa a fazer parte da realidade, o que produz o estranhamento.
No cenário atual, talvez nenhum fenômeno represente essa dissolução entre fantasia e realidade de maneira tão evidente quanto a inteligência artificial. A mídia já havia nos fornecido uma ideia do que seria a IA antes dela se consolidar entre as massas. Em 2001: Uma Odisséia no Espaço somos introduzidos ao HAL 9000, um computador que controla os sistemas da nave espacial Discovery One e consegue conversar com a tripulação. No Universo Cinematográfico da Marvel também temos a presença do J.A.R.V.I.S., a IA que atua como assistente de Tony Stark. Por muito tempo, a IA fazia parte apenas do mundo fictício, e não de nossa realidade diária, de forma que a barreira entre o imaginário e o verdadeiro se desfez, criando certa inquietação. Agora, podemos acessá-la com um simples aplicativo em nossos celulares. Podemos escrever um texto, assistir a um vídeo ou ouvir uma voz e nos perguntar se o conteúdo foi produzido por uma pessoa ou uma máquina. A inquietação se apresenta na dificuldade crescente de reconhecer a origem daquilo que consumimos. O familiar – um texto, uma imagem, uma voz humana – torna-se subitamente estranho quando descobrimos que pode ter sido produzido por algo não humano.
Essa aproximação entre a inteligência artificial e o humano também pode ser relacionada à ideia freudiana do “duplo”. Freud descreve o duplo como uma figura ou sensação de “outro” idêntico ao sujeito, capaz de provocar estranhamento justamente por reproduzir aquilo que deveria ser exclusivamente seu. À primeira vista, a inteligência artificial parece representar uma ameaça ao indivíduo por sua capacidade de reproduzir manifestações que associamos à nossa singularidade. Ela pode reproduzir a escrita de um autor, o estilo de um artista, a voz de uma pessoa ou até mesmo sua aparência. Entretanto, essa reprodução encontra um limite fundamental. A inteligência artificial é capaz de reproduzir aquilo que se manifesta externamente, mas não a experiência subjetiva que origina essas manifestações. Pode imitar o estilo de um artista, mas não seus desejos, conflitos, experiências e processos inconscientes. Pode escrever como um determinado autor, mas não possui a trajetória psíquica que tornou possível aquela escrita. Nesse sentido, a IA pode produzir um duplo da expressão humana, mas não um duplo do próprio sujeito. A inquietação não estaria, portanto, na possibilidade de a máquina se tornar verdadeiramente idêntica ao indivíduo, mas na facilidade com que sua reprodução pode ser confundida com aquilo que é próprio do indivíduo.
Se a inteligência artificial não é capaz de reproduzir a dimensão inconsciente do sujeito, permanece uma diferença fundamental entre aquilo que a máquina produz e aquilo que produzimos enquanto indivíduos. O problema passa a existir quando deixamos de exercer justamente aquilo que a máquina não pode fazer por nós. Com o uso desenfreado dessas ferramentas, ficamos à mercê não apenas das máquinas, mas também das mentes por trás delas. As empresas que desenvolvem esses sistemas e os indivíduos responsáveis por seu funcionamento estabelecem critérios de alinhamento, limites éticos e formas de organização das informações. Suas respostas não são, portanto, completamente neutras, mas condicionadas pelos dados utilizados, pelas escolhas de seus desenvolvedores e pelos limites estabelecidos para seu funcionamento. Ao recorrer constantemente a respostas prontas, o indivíduo pode se tornar acomodado diante daquilo que já está estabelecido, substituindo o processo de questionamento pela facilidade de encontrar uma resposta imediata. A máquina pode responder por nós, mas não deveria questionar por nós.
A história demonstra que grande parte do conhecimento que hoje consideramos estabelecido surgiu justamente da disposição de questionar aquilo que parecia ser uma verdade absoluta. Durante séculos, o modelo geocêntrico foi aceito como explicação para a organização do universo. Em 1543, Nicolau Copérnico publicou suas ideias heliocêntricas, propondo que a Terra e os demais planetas orbitavam ao redor do Sol. Posteriormente, Galileu Galilei defendeu o modelo copernicano e acabou condenado pela Inquisição. O que hoje parece uma constatação básica, um dia foi uma ruptura com aquilo que havia sido estabelecido como verdade. No âmbito da literatura, Mary Shelley, autora de Frankenstein, também desafiou a moralidade da ciência e concepções de gênero ao inaugurar a ficção científica. Em todos esses casos, foi justamente o questionamento daquilo que já estava estabelecido que permitiu a construção de uma nova forma de pensamento. O que aconteceria se essas mentes tivessem se rendido à IA?
A inteligência artificial, portanto, representa a transformação do próprio familiar em algo inquietante. Assim como o autômato imitava os movimentos de um ser vivo, a fotografia preservava a presença de alguém ausente e o fonógrafo mantinha uma voz depois da morte, a inteligência artificial reproduz manifestações que durante muito tempo associamos exclusivamente ao ser humano. A diferença está na proximidade dessa tecnologia com o nosso cotidiano. Não é mais necessário imaginar um futuro distante para encontrar aquilo que parece impossível. Ele pode estar em uma conversa no celular, em uma imagem que vemos na internet ou em um texto que lemos. Ao mesmo tempo, essa aproximação evidencia um limite. A inteligência artificial pode reproduzir aquilo que se manifesta, mas não necessariamente aquilo que permanece oculto. Pode reproduzir a expressão de um sujeito sem reproduzir sua experiência subjetiva, seus desejos, seus conflitos e seus processos inconscientes. Ela é familiar o suficiente para ser confundida com aquilo que conhecemos, mas estranha o suficiente para nos fazer questionar a origem e a natureza daquilo que reconhecemos como humano.
Referências
FREUD, Sigmund. O inquietante (1919). In: FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”): além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 328-376. (Obras completas, v. 14).
Imagem de capa: Pinterest
Revisado por Leonardo Maceiras Ferreira
