top of page
Crônica

Jogo de damas

De um peito verde, preto e branco Jogo-me à moral dos assassinos Que, gritando morte e dor e rindo, Pedem pelo amor do homem santo Pedem...

IMG_0955.jpeg

Ornito Vargas

3 min de leitura

22 de outubro de 2023

767c98_0ad94c104822456680342c1363c46344~mv2.png

De um peito verde, preto e branco


Jogo-me à moral dos assassinos


Que, gritando morte e dor e rindo,


Pedem pelo amor do homem santo


Pedem pelas mães e pelas crias


Por uma alvorada majestosa


Pedem, do vermelho, cor-de-rosa


Como quem desbota uma sangria


Como quem desfila em retalhos


Alegando, claro como o dia,


Que, de suas chagas e estrias,


Beija-lhe a memória, o conforto


E os leões no pasto vão à caça


Riem as hienas nas esquinas


Longe da gangrena e da chacina


Brindam pelo amor e pela graça


E no meio, eu procuro e perco


Toda a euforia da bravura


A ruir perante a loucura


A perder-se e revelar o medo


A perder contorno e postura,


A ser nada mais que um discurso,


A dizer que colocou em curso


Mais um manequim de adereço


Da fagulha, faz-se o brando fogo


Qual me fez sorrir em devaneio


Antes da penúria e do receio


Veio revelar, da carne, o osso


Sangue que escorre pela pátria


Dela é que se fez meu organismo


Antes malformado em meus abismos


E, sem cor nem cara, me pereço


Puxa-se o ferrolho que oblitera


Lança o denso chumbo, o canhoeiro


Todos, ao melindre do descanso


Perdem os seus nomes com a guerra


Perdem a linhagem do equilíbrio


E fazem nascer desconfiança


Quando a muda fez uma criança


Que diz ser amor, mas é conflito


Quando a carne corta com a lança,


E reconstitui-se diferente,


E faz pele dura e resistente,


Torna em pedra bruta, gente mansa


E no fim de toda a odisseia


O arco celeste pinta o púrpura


Temperando a terra como cúrcuma


Sobra, para o morto, uma ideia


No pertencimento da penumbra


Pretas aves pousam sobre os colos


Calam sob o solo, a esperança


E a oitocentas milhas de distância


Fez um general em um tablado,


Sem suor nem choro, uma lambança


Autoria: Rodrigo Ferreira


Revisão: Anna Cecília Serrano e Luiza Parisi


Imagem de Capa: Jogo de Damas, Pinterest

Revisado por Equipe de Revisão

Escrito por

Ornito Vargas

Há 7 anos na Gazeta

Usuário não possui biografia

IMG_0955.jpeg

Últimas Notícias

Textos Populares

bottom of page