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Laudos sobre o amor

Por 42 anos a homossexualidade foi considerada uma doença. Eletrochoque, convulsoterapia e lobotomia: intervenções para quem se atrevia a viver o amor.

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Mariana Mendes

5 min de leitura

4 de maio de 2026

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Por 42 anos, o amor foi considerado uma doença. Órgãos internacionais de saúde disseram que amar seria um sintoma de um gravíssimo transtorno. Diagnosticaram afetos, classificaram desejos e prescreveram o silêncio e a sentença de morte. Manicômios judiciais e hospitais psiquiátricos ficaram lotados de pessoas condenadas por amar. Amarraram corpos, apagaram identidades e mutilaram existências em nome de uma normalidade. Eletrochoque, convulsoterapia e lobotomia: intervenções para quem se atrevia a viver o amor.


Por 42 anos, ser homossexual foi considerado uma doença. Bem mais tempo do que esses 42 anos, o amor precisou pedir desculpas para existir. E mesmo depois das curas violentas que espantavam supostos diabos, o mundo seguia doente. Tal situação incontrolável só poderia significar uma coisa: o problema nunca esteve em quem ama, mas em quem transforma o amor em ameaça e insiste em combatê-lo com ódio.


Há 36 anos, a homossexualidade deixou de constar oficialmente como doença. A homofobia saiu dos manuais de saúde, mas não saiu das ruas. Não saiu das casas de famílias que expulsam os filhos, das escolas que silenciam existências, dos templos que crucificam indivíduos, nem dos corpos enterrados por ousarem existir. A caça aos amantes insistiu em continuar e, ainda hoje, corre risco quem, por ventura, vier a amar.


Há 36 anos, mudaram o diagnóstico, mas preservaram a violência. Trocaram laudos por ideologias deturpadas, internações por exclusões sociais e choques elétricos por olhares de reprovação. Com palavras que ferem com certa precisão, a sociedade é cirúrgica em garantir que todos que insistem em se expressar sejam rapidamente eliminados e contidos.


Com a imposição do medo e da culpa, os condenados por amar são guiados para o próprio túmulo. Pessoas “curadas” cometem suicídio e pessoas que recusam a sua “cura” são mortas. Não há diagnóstico revogado que ressuscite os corpos corrigidos por tantos anos à força. 


Patológico não é amar. Patológico é enxergar o amor com ódio e buscar, de todas formas, escondê-lo, reprová-lo ou torturá-lo. Patológico é espancar pessoas que nada fizeram para além de existir. Patológico é abandonar os próprios filhos que só queriam amar. Patológico é violentar veladamente e considerar a reação da vítima como “mimimi”.  Patológico é fazer uma pessoa duvidar da dignidade da sua existência. Patológico é matar quem só queria viver.


Há quem diga que avançamos, mas o avanço não combina com o medo de andar de mãos dadas. Hoje em dia, o remédio para os que amam não é mais eletrochoque, mas sim o silêncio. O silêncio de quem aprendeu a esconder o próprio nome, de quem ensaiou outras versões de si para sobreviver e de quem sobreviveu ocultando partes do que era.


Quando não podem silenciar, tentam domesticar. O amor é aceito, desde que não incomode. Toleram, desde que não exista plenamente. Permitem, desde que não apareça. Podem até existir, mas que existam na sombra da violência. Afinal, como alguém repleto de ódio explicará para o filho o porquê das pessoas se amarem? 


Régua na mão e medo nos olhos. Todos os afetos devem ser mensurados para que não representem grandes riscos à sua vida. Viver, para muitos, virou estratégia. É transformar o próprio afeto em código, ler o ambiente antes de poder respirar fundo, temer um grupo desconhecido e sair de casa sem saber se volta vivo. Resistir é existir.


Não basta sonhar, é preciso sobreviver ao ódio organizado, legitimado e repetido até parecer natural. Corre-se mais, cai-se mais, levanta-se mais. Luta-se pelo direito ao trabalho, mas antes disso, pelo direito de existir no ambiente escolar. Luta-se por reconhecimento, mas antes disso, por não ser invalidado ou torturado. Luta-se por amor, mas antes disso, por não morrer por senti-lo.


É sempre mais. Mais esforço, mais cuidado, mais silêncio, mais risco. Todas as lutas cotidianas se juntam à luta da resistência. Para alguns, o ato humano que deveria ser o mais simples e lindo, o de amar, torna-se resistência e luta, oriunda de um ato político. E mesmo assim, seguem chamando de exagero. “Mimimi” de gente que “escolheu” ser “esquisita”. Mas não há exagero em quem aprendeu que viver pode custar a própria vida.


Por 42 anos, escreveram laudos sobre o amor, mas nunca tiveram coragem suficiente para registrar o diagnóstico correto. O que precisa ser nomeado com precisão não é o afeto, mas sim o ódio de quem o persegue. 

E esse, até hoje, segue sem cura.


Revisado por Ana Carolina Narios Clauss

Escrito por

Mariana Mendes

Há 5 meses na Gazeta

Redatora e membra institucional da Gazeta Vargas.

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