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Crônica

Luz

Após uma noite comum em São Paulo sair do previsto, um jovem atravessa a cidade entre imprevistos, memórias e deslocamentos, enquanto algo sutil transforma sua percepção do cotidiano.

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Erick Martins

6 min de leitura

4 de abril de 2026

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Te vi. 


Numa noite qualquer, passeava pela cidade. Só mais um dia, mais uma prova, mais um ônibus e mais uma festa. Tudo dentro de uma programação minuciosamente cronometrada, mas descuidadamente descumprida. Me planejei para chegar no horário, tentei cumprir com todas as obrigações do dia. Uma, contudo, me fugiu. Em meio ao período de seca que já acometia São Paulo há algumas semanas, uma tempestade tomou os céus. A forte queda de água logo tomou as vias, desacelerando o transporte e me pressionando contra o relógio. Precisava replanejar como retornar ao Centro sem grandes atrasos.


Pensei, calculei e raciocinei uma dezena de vezes. Fui, voltei e retornei uma outra centena delas, preso no isolamento da Linha Lilás. Finalmente, cheguei em casa. Naquele momento, meu celular já estava repleto de mensagens, fotos e ligações perdidas. Todo o grupo em festa em algum karaokê. Uma pena que o novo plano não possuía espaços para elas, foram deixadas de lado. Tomei banho, me vesti e comi. Finalmente, saí de casa. Horas depois da primeira gota tocar o chão, a chuva não parecia mais ser um problema para aquela noite. 


Rapidamente, estava desconectado mais uma vez no Metrô. No trajeto, já podia imaginar o quão ideal seria se a terra seca absorvesse toda a enchente que havia se formado. Parecia desconhecer que inexiste uma aridez que suporte o encontro com a inundação. Por sorte, àquela altura o planejamento urbano havia afastado ao máximo da cidade esses resquícios de um passado interiorano. O asfalto lá sobreposto enrijecia o solo, levando aos cantos da via toda a fluidez que sobre ele surgia. Poucas as vezes eram as quais tal impedimento poderia ser rompido. Em uma tempestade, somente um estrondoso raio conseguiria. 


Estações ultrapassadas, cheguei ao que esperava ser meu destino. Para minha surpresa, todos ainda me aguardavam, apesar da série de imprevistos posteriormente previstos. Cumprimentei quase todo o grupo, deixando, por desleixo, de dizer “oi” a alguns. Algum, no entanto, não me deixou. No meio do conjunto de pessoas, um flash de luz dourada subitamente iluminou as sombras daquela noite. Foi assim que eu te vi. Assim também foi que, daquele instante em diante, passei a ser perseguido por ele. Ou a perseguir aquele brilho.


Não é comum florescer em pleno outono. Menos ainda a frequente presença de raios de Sol no depressivo inverno de São Paulo. Mas, assim, os meses se passaram desde aquela noite. Rumo ao equinócio, o período de seca que atinge a cidade aparentava chegar ao fim. O passado recente da cidade, entretanto, ainda alertava para os riscos. Nunca se sabe quando as águas do Pacífico podem se esquentar e castigar todo o Sudeste brasileiro. É um ciclo. Enfrentamos uma crise hídrica, nosso sistema de represamento seca e o seu solo é fissurado. Passa-se um ano, as águas retornam às temperaturas usuais e a chuva alcança o solo paulistano mais uma vez. Mais um ano, e as águas se esquentam novamente… A única certeza no meio dessa série de repetições é a falta de estabilidade. 


Ainda assim, aquele já era um inverno diferente. Com mais chuvas e noites menos frias, senti que São Paulo não era a mesma. Quis te conhecer, sentir a vivacidade em suas ruas, restaurantes e cinemas desconhecidos. Foram meses vagando pelos seus bairros: Butantã, Bela Vista, República, Barra Funda e tantos outros. Não deixei de frequentar a Luz nenhuma semana sequer. Também incorporei suas músicas ao meu trabalho na busca de que os ponteiros do relógio se apressassem em solidariedade. No meio de tantas franquias de pensamentos, ansiava pelo encerramento do expediente para que pudesse mais uma vez correr as avenidas escondidas de São Paulo. 


Linha Esmeralda. Linha Lilás. E, quando não muito, Linha Verde. Baldeava por toda a cidade na tentativa de chegar à Luz. Foi assim que, a cada semana, ia adentrando em um espaço mais subterrâneo. E, quanto mais profundo, mais iluminação se precisa. Nesse momento, o inverno já perdia força para o renascimento da primavera. Era quando devia encerrar por uma vez a temporada estéril do solo. Voltei ao Centro mais algumas noites com os planos feitos. Não teriam imprevistos dessa vez: o jornal, a previsão do tempo e todo o clima indicavam para um só caminho. 


Não consegui. Um descarrilamento de trens me impediu de cruzar a Linha Vermelha. Outro trem partiu à Luz. Todo brilho que ali existia se foi. Na tentativa de fugir de noites ainda mais escuras, me afastei da estação. O que era para ser apenas mais uma temporada de águas quentes do Pacífico sobre a primavera de São Paulo se tornou um clima desértico. Ardente ao dia, congelante à noite. O renascimento prometido se restringiu a um botão de flor-de-cravo ressecado. 


Vaguei por meses, atravessei diversas Linhas, circulei por diversos metrôs, todos para não chegar à Luz. Mas de tanto fechar os olhos a uma rota, uma hora se esbarra nela por engano. Ou, por engano a si. Fui retornando ao Centro e ele a mim. Não demorou para que as expectativas sobre um verão chuvoso também voltassem. Consolação, Pinheiros, Faria Lima, Barra Funda e Brigadeiro rapidamente retornaram à minha rotina acompanhados do calor dos raios de Sol de verão. Assim, breves baldeações se tornaram viagens intermináveis à Luz. Dali nunca mais saí, completamente cego pela iluminação. 


E, assim, desapareci. 


Imagem da capa: Pinterest (@/laarissabueno)

Revisado por Equipe de Revisão e Pedro Anelli Bastos

Escrito por

Erick Martins

Há 1 ano na Gazeta

Estudante de Direito da FGV, atuo na Gazeta como Editor-Chefe. Escrevo principalmente sobre eventos da política nacional e do cotidiano gvniano. Espero que gostem da leitura!

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